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abril 30, 2004

Kill Bill v.2 - Absolut Tarantino

Quando Kill Bill v.1 estreou, pairou no ar um sentimento de desilusão. Era O filme de Quentin Tarantino. Mas sete meses depois, a desilusão desapareceu por completo com Kill Bill v.2. Este sim, é O filme da vida de QT.
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Já li muito sobre Kill Bill 2. Há quem diga que é diferente do primeiro. É claro, e diferente não é palavra certa. Eu apostava mais no termo oposto. Isto apesar de haverem elementos que transitam do primeiro para o segundo filme. Tal parece óbvio porque, apesar de serem dois filmes diferentes são apnas um na cabeça do realizador.
Quem vê Kill Bill v.2 fica estupefacto. Onde está o "sangue, sangue e mais sangue" que povoa todo o primeiro filme? Onde está a acção sem fim, os momentos brutais de violência e as inovações à la Tarantino?
Neste filme não vemos nada disso. Não há sangue - apenas uma cena verdadeiramente violenta, mas muito curta - não existem inovações técnicas como vimos no primeiro filme (anime, combate às escuras sob um pano de fundo artificial). E também não há acção sem fim. Dirão então que este Kill Bill é mais lento, mais parado que o primeiro. Nem por sombras.
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Kill Bill 2 é a versão correcta, se é que se pode dizer isso de algo, a versão que Tarantino deveria ter utilizado em ambos os filmes. É a versão dos profundos diálogos "tarantinianos". É a versão das personagens mais espantosas que a sua imaginação produz (neste caso com a ajuda preciosa de Uma Thurman) e é, acima de tudo, a versão mais humana de Kill Bill. Não há para aqui golpes à la Matrix nem nada que se lhe pareça. Até isso parece mais real neste filme.
Realismo é uma das marcas desta nova abordagem. Mas não é a única.
Já se disse que Kill Bill v.1 é um filme de vingança e Kill Bill v.2 é um filme de amor. Nada mais acertado, e facilmente explicável.
O que tinhamos no primeiro filme? Uma mulher é assassinada no casamento pelo grupo de antigos colegas, entre os quais o amante e pai da filha ainda por nascer, e desperta 4 anos depois. Começa então a procurar todos aqueles que a tentaram matar, vingando-se. Desta forma, nesta base, era impossível retirar esse pendor de "vendetta" ao primeiro filme. Mas, como Tarantino não é burro nenhum, há um pormenor que adianta desde já a mudança para um outro estilo. Quando o filme 1 termina sabemos que a filha da Noiva afinal está viva. E agora?
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Agora é a altura do amor entrar em cena. Mas, com a experiência que já tem, o "realizador-pulp" não podia colocar logo de rajada este novo vento amoroso. Até porque até chegar a Bill (um notável David Carradine a confirmar a tendência ressuscitadora de Tarantino), a vingadora tinha ainda de passar por dois nomes a riscar. Inteligentemente QT troca as voltas - tal como em Pulp Fiction - ao espectador. Abre o filme a dar-nos a certeza que só falta um nome a riscar. O de Bill. Isso acaba por condicionar todas as cenas de vingança com Budd (Michael Madsen em bom nivel) e Elle (uma interpretação muito sexy de Darryl Hannah), os dois nomes por riscar. Mas mais ainda. O realizador passa em revista o episódio do massacre que despoletou a vingança. Mas agora já não se vê só o ódio. Vê-se, primeiro, que nem um casamento era (e há o cameo do "amigo" Samuel L. Jackson). Vê-se também uma das cenas mais bem feitas e mais poéticas de QT, num primeiro diálogo entre Bill e A Noiva (agora já podemos chamar-lhe Beatrix Kiddo, se bem que, inexplicavelmente, o realizador não nos deixa ouvir o nome pela boca de Bill). Vê-se em suma, uma abordagem completamente diferente à cena inagural do primeiro filme. De tal forma diferente que o travelling para trás de QT nem nos dá a hipótese de ver o massacre. Se fosse no filme 1, veríamso tudo. Daí a grande crítica à primeira parte de Kill Bill. Pela sua violência excessiva e pelo facto de, durante todo esse filme, não haver uma com a força deste "remake" do massacre de El Paso.
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Esta que será a primeira de várias cenas, com uma maior profundida que resultam numa especie de ante-camara para a cena final, onde Bill e Beatrix (não é por acaso que a filha se chama B.B), fazem as despedidas.
Um filme muito mais forte em termos psicologicos do que no campo visual. A própria cena em que Beatrix (Uma Thurman no papel da sua carreira) está enterrada é de deixar, mesmo os espectadores, com falta de ar. Mas, apesar de estar menos trabalhado que no primeiro filme, a componente visual continua a ser importante. A diferença - exceptuando o breve capitulo onde QT homenageia Gordon Liu, um dos maiores nomes do cinema kung-fu dos Shaw Studios - estamos frente a frente com uma atmosfera de oeste selvagem. A musica de Ennio Morricone (curiosa ajuda de Robert Rodriguez, o realizador que é tudo, que também ajuda a compor a música), que já surgia no primeiro filme, faz agora todo o sentido. Essa inversão, do Oriente para o Ocidente, segue a nossa ideia da passagem da vingança - temática forte do cinema de Hong-Kong, que QT tanto via quando ainda trabalhava num clube-video - para uma vertente mais nostálgica e amorosa, tão habitual nos filmes do oeste - Rio Grande é aqui referência.
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A verdade é que QT conseguiu emendar todos os erros do primeiro filme, criando uma obra bem mais equilibrado e psicologica. As cenas de combate são reduzidas. A Noiva já não surge como um Super-Homem vindo dos céus (apesar da analogia de Bill) e as sequências de treino (tão importantes para o desfecho do filme em três diferentes aspectos que não iremos revelar por respeito ao leitor) tornam-na tão humana como o próximo.
Já se disse que daqui a alguns anos não haverá distinção entre Kill Bill 1 e 2. A própria edição especial de DVD, que QT prepara com algumas surpresas (fala-se num filme animado, ou numa continuação em jeito de sequela) com os dois filmes anulará esta diferença de alguns meses.
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Mas quando vir-mos Kill Bill (sem 1 nem 2), teremos sempre subjacente a ideia de que na primeira parte vamos encontrar um espectaculo visual sangrente e altamente exibicionista, sem razão de ser. Na segunda parte vamos ver um filme muito bem conseguido, capaz de nos prender ao ecrãn.
Na sua crítica no jornal O Público, o crítico Vasco Câmara disse que, por muito que o segundo filme seja diferente do primeiro, era a razão de ser da segunda parte, fechando a porta aos críticos de Kill Bill v.1.
Nada mais certo. Mas relembro também que se não houvesse segunda parte, se QT não tinha dado esta reviravolta de 180º, então Kill Bill ficaria para a história como um filme mediocre. Assim, é um titulo que perdurará na história do cinema num patamar bem mais elevado.

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Site Oficial : killbill.movies.go.com

Realizador: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Michael Madsen, Darryl Hannah, ...
Produtora: Miramax
Classificação: m/16
Duração: 136 minutos

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às abril 30, 2004 07:26 PM