« Hall of Fame - Alfred Hitchcock | Entrada | Novo final para The Village? »

maio 23, 2004

Mais que um Festival, um protesto político

Quanto tudo apontava que Diários de Motocicleta fosse o grande vencedor, o jurí presidido por Quentin Tarantino deu a volta completa ao argumento e atribuiu ao documentário de Michael Moore a Palma de Ouro. A vitória de Fahrenheit 9/11 não é uma vitória do cinema mas um protesto contra a administração Bush.
cannesmoore2.JPG

Tal como no ano passado o jurí preferiu não cair na previsibilidade e o twist final foi mesmo digno de um argumento de Quentin Tarantino. O favoritismo de 2046 e Diários de Motocicleta era incontestável, apesar da ovação de 20 minutos em pé que Michael Moore recebeu na quinta-feira. Mas ninguém achava crivél que um documentário voltasse a ganhar a Palma de Ouro quase 50 anos depois.
cannesmoore.JPG

Quentin Tarantino gosta mesmo de dar espectáculo e as decisões do jurí foram a prova inequivoca disso mesmo. Não só a Palma de Ouro "surpresa" para Michael Moore prova isso, como também todos os restantes prémios.
Quando todos pensavam que, apesar de não ter vencido a Palma de Ouro, Wong Kar-Wai iria para casa com o troféu na realização, eis que o belga de origem argelina, Tony Gatlif sai triunfante.
O próprio prémio de consolação do Juri foi para o filme da Coreia do Sul, Old Boy de Chan-wook Park quando tudo apontava para que Shrek 2 fosse o vencedor.
canness.JPG

Surpresa surpresa foi mesmo no campo das interpretações. Aí podemos dizer que o jurí não foi coerente com o que foi dizendo ao longo da semana. Gabriel Garcia Bernal, muito aplaudido pelos dois filmes em cartaz, acabam por ser batido pelo oriental Yuuya Yagira (de apenas 14 anos) em Nobody Knows. O mesmo se passou em relação às actrizes. Quando tudo apontava para ser Irma P. Hall (que venceu um prémio de consolação) em Ladykillers foi igualmente a asiática Maggie Cheung a triunfar.
cannes04_.JPG

No final a 57º edição acabou por desiludir. Se no ano passado o mesmo sucedeu quando Elephant de Gus van Sant bateu os muito superiores Mystic River e Dogville, este ano foi a forte pressão política francesa e a vontade de originalidade de Quentin Tarantino que impediram justiça de ser feita. Walter Salles e Wong Kar-Wai são os grandes injustiçados do certame e, 48 anos depois de Jacques Costeau, o esquerdista norte-americano Michael Moore logrou recolocar o género do documentário no topo de um dos mais reputados certames mundiais.

PALMARÉS DO FESTIVAL 2004

Palma de Ouro - "Fahrenheit 9/11", de Michal Moore (Estados Unidos)
Grande Prémio do Juri - "Old Boy", de Chan-wook Park (Coreia do Sul)

Melhor Actriz - Maggie Cheung, em "Clean", de Olivier Assayas
Melhor Actor - Yuuya Yagira, em "Nobody Knows", de Hirokazu Kore-Eda
Melhor Realizador - Tony Gatlif (de origem argelina), por "Exils" (França)
Melhor Argumento - Agnès Jaoui et Jean-Pierre Bacri, por "Comme Une Image" (França), realizado por Agnès Jaoui
Prémio do Júri - "Sud Pralad (Tropical Malady)", de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)
Prémio do Júri (interpretação) - Irma P. Hall, em "The Ladykillers", de Joel Coen e Ethan Coen (Estados Unidos)

Palma de Ouro (Curta-Metragem) - "Trafic", de Catalin Mitulescu (Roménia)
Prémio do Júri (Curta-Metragem) - "Flatlife", de Jonas Geirnaert (Bélgica)
Prémio "Un Certain Regard" - "Moolaadé", de Ousmane Sembene (Senegal)
Prémio do "Regard Original" - "Whisky",de Juan-Pablo Rebella e Pablo Stoll (Uruguay/Argentina/Espanha/Alemanha) Earth and Ashes, de Atiq Rahimi (Afeganistão/França)

Caméra d'Or - "Or (Mon trésor)", de Keren Yedaya (Secção Semana Internacional da Crítica)
Caméra d'Or (menção especial) - "Lu Cheng (Passages)", de Yang Chao (Secção Un Certain Regard) e Khab é Talkh (Bitter Dream), de Mohsen Amiryoussefi

Prémios Cinéfondation
Primeiro Prémio - "Happy Now", de Frederikke Aspöck (Estados Unidos)
Segundo Prémio (empatados) - "Calatorie La Oras (A Trip to the City)", de Corneliu Porumboiu (Roménia) e "99 Vuotta Elämästäni", de Marja Mikkonen (Finlândia)
Terceiro Prémio - "Fajnie, Ze Jestes (Nice to See You)", de Jan Komasa

Prémio Vulcain de l'Artiste-Technicien para melhor Fotografia
Eric Gautier em "Clean", de Olivier Assayas e "Diarios de Motocicleta" de Walter Salles


Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 23, 2004 05:38 PM