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maio 09, 2004
The Dreamers - Nus a Mais, Filme a Menos
Não se percebeu se Bertolucci queria homenagear o cinema ou passar os olhos pelos acontecimentos do Maio de 68. Na verdade, tudo isso está lá, mas de forma um tanto ofuscada pelo corpo nu de Eva Green.
Filme de ![]()

Grande expectativa foi gerada a propósito do mais recente filme de Bernardo Bertolucci. Não tanto pela polémica que gerou mas mais por ser o seu primeiro filme em muito tempo, ele que se celebrizou com O Ultimo Tango em Paris, no início da década de 70.
Para esta produção o realizador italiano rodeou-se de gente nova.Eva Green, Michael Pitt e Louis Garrel, actores desconhecidos do grande público, deram corpo (no sentido literal da palavra) a este filme rebuscado.
Rebuscado porquê?
Por vários motivos. Em primeiro lugar, o filme começa bastante bem. Excelente genérico que nos leva aos espaços abertos de Paris, e depois, ao santuário maior de todos os cinéfilos : a Cinemateca Francesa. Nestes primeiros minutos era perceptivel que o cinema estava em destaque neste filme. Depois podemos ver sinais de revolta, sede de mudança entre os jovens que habitavam Paris naquela Primavera (podemos mesmo reencotrar Jean Pierre Leaud, bem mais envelhecido). Tudo nos leva a entender que o filme iria falar de cinema e do Maio de 68, provavelmente as duas coisas mais importantes na vida de um jovem parisiense, naquele ano.
Mas não. Depois desta leve pincelada, Bertolucci fecha-nos num andar de um prédio até ao final do filme. O ambiente, de espaços abertos onde o ar flutua à mesma velocidade que a fita no retroprojector, fecha-se, torna-se claustrofóbico. O filme perde vida.

A partir desta mudança, diria eu crucial, o filme perde-se por completo. Já não é um filme sobre cinema (por muito que as imagens de arquivo de Persona, A Bout de Soufle e Queen Christina nos queiram fazer crer), nem um filme sobre a juventude de 68. Torna-se um filme sobre um trio de jovens inexperientes que fazem do sexo, dos corpos nus e de jogos psicológicos, o seu dia a dia. Era o único caminho por onde Bertolucci não devia ter ido. Mas foi o que ele seguiu.
A partir de meia hora do filme ele centra-se nos seios e zona púbica de Eva Green (a única coisa que se aproveita da actriz francesa que iremos ver em Kingdom of Heaven), no olhar esfomeado de Michael Pitt, (o menino bonito de Dawson Creek que irá entrar em The Village) e nas expressões de inveja, do genero "eu também quero provar" de Louis Garrell. As questões filosóficas, o estudo do cinema (inexplicável a paixão demonstrada pelo cinema dos anos 20 a 40, quando o grupo do Cahiers do Cinema valorizou exactamente o cinema americano pós 1940), ou a vontade de construir um mundo melhor desvancem-se em cenas de masturbação, sexo e banhos colectivos.
A história dos irmãos siameses que se desejavam mas não se podem ter e então projectam todas as suas fantasias num amigo americano do qual conhecem pouco, não é argumento suficiente para aguentar nenhum filme.

De Sonhadores (ou Dreamers para os puristas) nem um vislumbre. O titulo foi obviamente usado pelo realizador para se colar a uma mentalidade, uma forma de estar que, apesar de usual à época, em nada tem a ver com o que depois a história nos apresenta. Isso é lograr o público, dar-lhe a entender que tem na mão direita açucar quando na verdade o que tem é pimenta. Talvez em Itália se apreciem realizadores que tomem essa postura (outros há, como Nanni Moretti, que são bem mais honestos com o espectador), mas por estes lados essa atitude é incompreensivel.
Dar a entender que o filme será sobre cinema e sobre o Maio de 68 (que de facto está lá, a decorrer nas ruas enquanto nós temos de aturar com os devaneios deste trio), e depois filmar uma banheira, é isso mesmo: logro.

O Maio de 68, com toda a sua força e pujança, está em todo o seu esplendor nas ruas. E quando de facto o realizador nos deixa recuperar o folêgo e nos tira do apartamento, nós podemos ver finalmente o que se passa. Talvez por isso o melhor plano do filme seja o da monumental lixeira em plena rua de Paris. Mais, quando o ar nos falta, como começa a faltar aos próprios actores (literalmente) é o Maio de 68 que nos entra pela janela adentro, como quem diz "estou vivo, filmem-me é a mim". Aí o realizador não tem outro remédio. Vai para a rua, para o meio dos manifestantes, para o turbilhão de ideias. Mas é aí também que Bertolucci é mais ácido, mais injusto com a revolta estudantil e proletária, porque é o Maio de 68 que vai dividir, o até então, insperável trio. A imagem que nos é dada da revolta é a pior. Não é uma revolta pelos ideais certos, a paz e o amor que a personagem de Michael Pitt tanto defende. Não, é uma revolta de violência e ajustes de contas geracionais (do qual o confronto ideológico entre Louis Garrel e o pai é a primeira amostra). O plano final, da polícia a carregar sobre os estudantes (talvez o realizador se tenha esquecido de colocar a camara na direcção certa), é também o ajuste de contas de Bertolucci com uma revolução que o seu partido não quis, mas que foi obrigado a apoiar.
Um ajuste de contas político e uma viagem à nudez da juventude parisiense dos anos 60. Eis o máximo que Bertolucci conseguiu retirar deste filme.

Polémicas à parte, porque todos devem ter o direito de escolher a abordagem ao filme que desejam (nós só cá estamos para opinar), Bertolucci não está errado, porque na verdade ninguém o está.
Mas, já começa a deixar saudades o cinema do tempo em que os realizadores não precisavam de nus para criar um ambiente erótico. Como dizia André Bazin, o maior de todos os críticos, mostrar uma cena de sexo num filme é como o actor que foi baleado num filme morrer mesmo. O cinema não é a realidade, mas sim uma abordagem ficiticia de uma narrativa filmada. Algo de que o realizador italiano lamentavelmente se esqueceu.
Classificação - ![]()
Site Oficial: www.the-dreamers.com
Realizador: Bernardo Bertolucci
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, ...
Produtora: Fox
Classificação: m/18
Duração: 115 minutos
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 9, 2004 08:08 PM