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maio 06, 2004

Uma Visão Superficial - Mutatis Mutandi

Quando estreou em 1972, O Ultimo Tango em Paris foi considerado o filme mais polémico de sempre. Tudo porque tinha uma estrela decadente, Marlon Brando, em actos sexuais explicitos e moralmente condenavéis. Para a puritana sociedade ocidental foi demais. Hoje, mais de 30 anos depois, o cenário repete-se. A pergunta mantem-se: Porquê?

Marlon Brando tinha acabado de se retirar do cinema depois do seu segundo óscar pelo seu papel de Vitto Corleone no primeiro filme da saga do Padrinho. Foi então que um jovem realizador italiano, Bernardo Bertolucci, o convidou a juntar-se ao elenco de O Ultimo Tango em Paris. A estória de um homem e uma mulher, alheados de tudo, que estravazam todas as suas fantasias sexuais num bolorento quarto de hotel seduziu a estrela. Fez-se o filme.
Quando estreou, e quer Brando quer Bertolucci já sabiam que tal ia suceder (no caso de Brando penso mesmo que o fez exactamente por causa disso), a polémica assumiu proporções inimagináveis. Não foi apenas o sexo explicito do filme, a nudez de Maria Schneider ou a célebre cena com a manteiga a ser usada como útil lubrificante que despoletou a controvérsia. Foi, acima de tudo, a forma como Bertolucci desafiou uma sociedade puritana e completmante ultrapassada. Uma sociedade para quem o nú era ainda o maior dos pecados e o sexo algo a fazer-se de luz apagada e porta bem trancada. O facto de Bertolucci ter abordado o sexo de forma frontal e descomplexada fez tremer as bases da sociedade ocidental da época. Tremeram, mas não cairam.

O filme foi condenado por tudo o que era instituição, mas o público, curioso para ver numa sala de cinema aquilo que nem em casa fazia, e se o fazia era às escuras e com a porta trancada, acorreu em massa. Em Portugal, foi o primeiro filme a ter casa cheia depois da revolução de Abril. Vinha gente de todo o mundo para poder ver as cenas mais quentes do filme. Numa reportagem da época, chegavam mesmo a ver-se "velhotas" na fila para entrar. Afinal o fruto proibido não é o mais apetecido?

Na verdade cenas destas tinham sido censuradas desde que o cinema era cinema. A sexualidade gritante de Theda Bara, Louise Brooks ou Marlene Deitrich tinha sido sempre disfarçada sob o véu da decência. A partir dos anos 30, quando o "producers system" se instala definitivamente, tudo é mais rigido. As várias associações de decência (antepassadas das mães de Bragança e afins), que são mais que as mães no país que se diz o bastião da liberdade", impuseram regras restritas que impediam, entre outras coisas, casais a dormirem no mesmo quarto e beijos com duração superior a 30 segundos. Filmes como The Outlaw tentaram espicaçar o sistema mas foram corridos. Muitos nunca haveriam de sair das prateleiras. Durante 30 anos a sexualidade foi afastada do cinema, apesar de continuar sempre lá, graças aos truques dos grandes artistas que são no fundo os realizadores.

Foi com o final da década de 60 que o "producers system" se desmoronou e com ele muitos dos códigos de conduta de Hollywood. As novas companhias que passaram a controlar os estúdios queriam lucro, e estavam dispostas a mostrar ao público aquilo que ele não pudera ver durante décadas, se em troca houvesse retorno financeiro.
Foi assim que, de um momento para o outro, nasceram filmes como Blow Up, The Valley of Dolls ou Barbarella (esse o primeiro a desnudar uma verdadeira estrela do sistema, a filha do mítico Henry Fonda que chegou a pedir que o filme não fosse divulgado).
Mas mesmo assim tudo era censurado, só que numa forma mais implicita. Foram as classificações, essa notável invenção dos puritanos americanos, as críticas mais cerradas com qualquer filme que mostra-se mais do que se devia e foi, a partir dos anos 80, o regresso do conservadorismo ao poder.

Mas hoje, trinta anos depois, o que assusta é que tudo está na mesma. O mesmo realizador, Bernardo Bertolucci, decidiu voltar a fazer um filme num apartamento em Paris. Não estamos em 1972, mas sim em 1968 e nas ruas o Maio de 68 (essa espinha que ainda fere a garganta dos conservadores) fervilha as almas. O tema volta a ser, como no Ultimo Tango em Paris, o sexo. O sexo (e o cinema, mas esse já vimos, não causa polémica e não tem problemas em receber o devido selo de aprovação) entre 3 jovens. Só que o realizador italiano, que pensava que hoje, já em pleno século XXI, havia liberdade para fazer coisas ao ar livre, de luz aberta e porta destrancada, esqueceu-se qe o tempo passa mas as mentalidades não mudam tão facilmente. A mentalidade da socieadade ocidental é como a de Catão. Até definharem proclamarão sempre o mesmo.
Por isso, no fundo dos fundos, não é de estranhar a forma como The Dreamers foi recebido, em Veneza, em Sundance, em todo o lado...

O filme pode mudar e o cenário também, mas como a sociedade se sente ainda ameaçada com a naturalidade de algumas das facetas do Homem, a temática assusta. E se assusta só há uma solução. Censurar, esmagar, destruir. Por isso, mesmo nos bastiões da democracia, a liberdade ainda não é uma realidade. Está lá no papel, escrito para todos verem o quoão bela e justa é a nossa sociedade. O problema é que de lá não passa.

Talvez por isso, por acreditar que um dia as coisas vão ser diferentes, Bertolucci sebastianicamente titulou o filme de The Dreamers - Os Sonhadores.

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 6, 2004 11:35 PM