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maio 13, 2004

Uma Visão Superficial - Como adaptar algo ao cinema?

A polémica gerada à volta do filme Troy, teve o condão de despertar no mundo cinematográfico a polémica à volta das adaptações.
Afinal, até que ponto deve um filme ser fiel à sua musa inspiradora, quer tenha sido um livro, uma ópera ou uma história real?

A Iliada é incomparávelmente a grande obra literária da Antiguidade Clássica. Escrita por Homero, um desconhecido personagem que muitos não acreditam que tenha de facto existido, o livro tornou-se num marco para toda a literatura que se lhe seguiu.
O complexo argumento, narrando o último ano da mais mítica guerra da Antiguidade Clássica, os seus heróis e vilões, os complexos personagens, os caprichosos Deuses, fizeram história e tornaram este livro num genero de referência, tantas vezes imitado depois.

Troy não é a primeira adaptação da Iliada ao cinema. Durante os anos 60, os peplums, normalmente associados ao cinema italiano. Temos filmes como Helen of Troy, filme de Robert Wise de 1956; La Guerra di Troia, provavelmente o melhor dos peplums dos anos 60, com Steve Reeves no papel do mitico Eneias entre tantos outros.
De uma forma ou de outra, todos esses filmes tentaram respeitar ao máximo a narrativa.
O mesmo não tem acontecido nos últimos anos.
A BBC produziu recentemente uma filme para a televisão (Helen of Troy) que desrespeitava por completo o argumento original. De forma não tão evidente, parece que Troy de Wolfgan Peterson segue pelo mesmo caminho.
O facto de personagens erradas morrerem, haver relações inesperadas, troca de cenas, omissão de episódios e personagens muito importantes (nem vou falar na ausência dos deuses, peça fundamental na engrenagem do livro mas que todas as adaptações ao cinema têm esquecido)...torna esta adaptação muito pouco fiel.

Qual é o valor de Troy, sendo um argumento adaptado, que desrespeita o original? Qual o seu valor como filme (não falo do seu valor com entretenimento porque isso pertence a outro nivel de análise) ? Qual a validade de Wolfgan Peterson em amputar e transformar um argumento do qual uma vez se disse ser perfeito para o mundo do cinema.

O problema de Troy, deste Troy, é o mesmo de várias adaptações aos ecrãns de titulos consagrados. O realizador (e o argumentista), têm a consciência de que não podem adaptar tudo. Isso é perfeitamente compreensivel e normalmente, os argumentistas são tão mais elogiados quão mais fiel é a sua adaptação. Mas neste caso, como em tantos outros, os argumentistas parecem ter esquecido isso.
Amputam, destroiem, alteram e transformam a obra inicial. Depois dizem que não existe um compromisse de fidelidade na adaptação. Pode nem haver para eles, mas para os cinéfilos há!

Troy pode ser um grande filme, um entretenimento mais bem conseguido que Gladiador. Mas, a partir do momento em que usa da Iliada o que lhe apetece, deitando o resto fora e tomando a liberdade de mudar o curso da história, o filme de Wolfgan Peterson perde toda a credibilidade que podia ter.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às maio 13, 2004 11:40 PM