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julho 11, 2004
Ladykillers - A Ponte do Humor Negro
Tom Hanks está irreconhecivél. Os irmãos Coen não. Continuam iguais a si próprios, com o humor negro e corrosivo dos quais são os grandes embaixadores do cinema norte-americano de hoje.
Em Ladykillers há espaço para tudo. Até mesmo para uma actriz negra, quase desconhecida, brilhar. Atenção a Irma. P. Hall.
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O sul dos Estados Unidos é de facto um cenário perfeito para o estilo de cinema dos irmãos Coen, que curiosamente neste filme se juntam pela primeira vez na realização de um filme.
Não sei se são os cenários - o plano inicial/final é de uma beleza indescritivel - se as caracteristicas daquela gente, mais agarradas a valores hoje tão em desuso no resto do Mundo.
De qualquer forma foi nas margens do Mississipi que Joel e Ethan decidiram que seria a acção do filme, que passava assim das originais ruas de Londres, no primeiro Ladykillers de 1955.

A frase promocional do filme engana um bocado o espectador, mas quem conheço o sarcasmo destes irmãos cinéfilos percebe logo que o convite é mais um dos muitos logros que iremos testemunhar no filme. Não estamos diante do maior mestre do crime - quanto muito estaremos diante do mais apaixonado classicista do crime - nem diante da rival à altura. Somos sim confrontados com uma comédia que nos consegue entreter, e bastante, durante a duração do filme. Pode não ser um Big Lebowski - até hoje o zénite da obra dos Coen - ou um Blood Simple, mas é um filme extremamente bem conseguido. Em vários aspectos.
O primeiro passa claro pela transformação de Tom Hanks. Nunca, desde o nascimento de Forrest Gump em 1994, que este actor - por muitos considerado o melhor de todo a década de 90 (2 óscares, 4 nomeações) - tinha sofrido tal transformação de personagem. O Hanks que vemos neste filme é profundamente inquietante, "and yet not", como o próprio refere na sua introdução. A sua personagem, cheia de tiques e maneirismos que envorgonharia qualquer destes novos actores viris, são a alavanca para uma interpretação que acaba por contaminar, positivamente, todo o desenrolar do filme. De forma despretenciosa, Hanks toma o pulso ao filme e condu-lo como quer e bem lhe apetece. O seu próprio final é poético como só Edgar Allan Poe conseguiria fazer. Bem, ele e os Coen.

O grande trunfo, inesperado para os mais desatentos, é a notável interpretação de Irma P. Hall. Premiada em Cannes e já dada como forte hipótese ao óscar, esta actriz, já quase septuagenária, surpreende com uma grande dose de humor e boa disposição, essencialmente na forma tão séria e apaixonada como dá vida à sua personagem. Se Hanks é o elemento nuclear do filme, ela é o dinamo que dá uma força extra á dinâmica da narração.
Não é tanto a grande rival do mestre do crime, o Professor G.H. Dorr - que faz o mesmo com o seu PhD o que Depp fez com o seu Captain - mas sim a afortunada mulher - e os Coen a brincarem com o retrato do marido - que impede que o plano genial siga em frente! Como? Bem, aparentemente a mistura de fé e sorte são essenciais, mas como este é um filme dos Coen há que olhar para o outro lado. Como em Fargo, é a azelhice dos criminosos - quem não se lembra do ensanguentado Steve Buscemi - que deita tudo a perder.

E neste filme, como provavelmente em todos, a forma com os Coen encaram o trabalho policial é sublime. Se em tantos filmes - lembro-me sempre de Fargo e do Big Lebowski - a policia é algo incompetente, este não foge à regra. Não querendo divulgar pormenores, apenas adianto que envolve uma chavena de chá, um amigo imaginário, uma fortuna roubada e uma universidade muito especial...
Falando mais da forma como o filme acabou por ser feito, é de realçar que apesar do elenco secundário não ter os habituais actores da "casa", como sempre acontece na filmografia "coeniana", acaba por divertir de uma maneira diferente. Desde a estupidez - excelente a forma como foi filmado aquele que é provavelmente o desporto mais estúpido do mundo - do jogador Lump Hudson, aos problemas fisiológicos de Garth Pancake e a sua mais que tudo, passando pelos truques com um cigarro do General e acabando no negro com nome de cavaleiro medieval que apenas tem olhos para mulheres, ambos conseguem enterter. Perguntam vocês? E um Steve Buscemi ou John Turturo não teriam sido melhores? Talvez, mas nesse caso as duas personagens principais talvez não teriam tanta força e tanto impacto no filme. Nesse ponto de vista a abordagem dos Coen é bastante inteligente.

Com um genérico notável - como só eles conseguem imaginar - e um ritmo bem trabalhado, sem altos e baixos, o filme é um projecto de sucesso. Pode não ser uma abordagem tão humoristica como o filme original, perde-se um pouco nos duelos entre as personagens secundárias, mas é de facto um dos melhores filmes deste ano de 2004.
Uma passagem quase obrigatória por um cinema mais perto de si! Afinal é um Coen.
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Site Oficial: www.ladykillers.movies.go.com
Realizador: Joel e Ethan Coen
Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, ...
Duração: 104 minutos
Produtora: Touchstone Pictures
Classificação: m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 11, 2004 06:42 PM