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julho 13, 2004
Taking Lives - O engenho de um thriller
Não é a reunião da mulher mais sensual do mundo e de um dos mais interessantes actores norte-americanos dos últimos anos, que faz de Taking Lives um filme a ver. É antes a capacidade deste filme em mostrar um thriller diferente, em que as reviravoltas são encaradas com normalidade. Normalidade essa que é o resultado mais visível, da mão de D.J. Caruso, um homem que antes de fazer filmes, fazia televisão..
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Em primeiro lugar fica o emendar de mão. É verdade que este filme já estreou há muito tempo, mas a review só agora se encontra disponível porque só agora é que tive a oportunidade de ver o filme. Depois do pedido de desculpas, fica então a análise a este interessante thriller.
O que há a dizer sobre Taking Lives?
Em primeiro lugar há que dar uma palavra sobre D.J. Caruso. O nome não é muito conhecido para os cinéfilos em geral e com alguma razão de ser. O homem começou a realizar series de televisão em meados dos anos 90 e só em agora se decidiu a ficar pelo cinema. Já realizou quatro filmes, nenhuns dos quais no entanto que valha a pena ser recordado. Para quem vê o filme no entanto isso surge quase como um choque porque o realizador consegue ter a mão no filme em todos os momentos. Claro que se nota um pouco da vibração de realizador de televisão, onde é necessário condensar as emoções em pequenas partes. E no fundo este filme é feito de episódios distintos que no final fazem um todo consistente.

No entanto Taking Lives destaca-se essencialmente pelo elenco. Juntar Angelina Jolie, Ethan Hawke e Kiefer Sutherland no mesmo filme torna-o irresistivelmente apetecivel. Ethan Hawke teve o seu momento de genialidade aquando da sua interpretação em Training Day. Memorável e injustamente esquecida pela Academia. Kiefer Sutherland tem estado em destaque nos últimos tempos, não só pelo seu trabalho notável na serie 24, mas também pela sua inquietante interpretação em Phone Booth. Apesar de apenas surgir em três minutos de filme, o destaque que lhe é dado não é inocente. O público sabe que Sutherland é um actor em forma, capaz das mais variadas personagens. E tal é essencial para integrar o público ainda mais na trama.
E depois há Angelina Jolie. Muitos continuam a duvidar que aquela que é para muitos a mulher mais bela e desejada do Mundo, seja de facto boa actriz. Nem o óscar merecido em Girl Interrupted conseguiu afastar a ideia de que dela só se aproveita o corpo. Este filme tem o mérito de provar exactamente o oposto.
E para quem achava que aqui se esgotava o mérito do elenco, há um pequeno bónus. O regresso da notável Gena Rowlands, que dá uma interpretação de classe, digna de uma verdadeira senhora, uma verdadeira actriz.

O filme centra-se num thriller de reviravoltas sucessivas. O espectador nunca fica muito tempo preso à mesma situação, porque rapidamente surge uma nova com a qual tem que se confrontar. Há uma dupla identificação da audiência. Numa primeira parte seguimos a ascensão do jovem Martin Asher, os seus primeiros passos rumo a tornar-se num serial-killer. Depois somos transportados para a realidade da agente do FBI, Iliena Scott, e finalmente o realizador vai fazer esses dois campos convergir num só. A relação entre ambos não é inocente pois desde o primeiro momento que está delineada. A forma como o assassino que toma identidades se vai desenvolvendo na trama, também cresce a intensidade da relação entre os dois personagens. No entanto o espectador não o sabe, e aí consiste uma das matérias primas do filme. É um pouco como relembrar The Usual Suspects, e a sua capacidade de convencer o público de que algo como Keyser Soze, simplesmente não existe.

O filme tem bastante acção, nunca em exagero pois a acção principal do filme passa-se a nivel psicológico. Tirando um ou outro momento de grande suspense, que normalmente culmina num vácuo, o filme vive do confronto emocional entre os personagens de Jolie e Hawke. Confronto esse que, inevitavelmente, teria de acabar numa relação carnal. O verdadeiro culminar de toda a acção surge não no momento da morte de Mrs Asher, mas na consumação da atração de Costa e Scott. Numa cena que - não o podemos ignorar - é feita tendo por base o corpo perfeito de Angelina Jolie, temos a sensação de que, se o filme é um carrossel, então é a partir daí que começamos a descer. E a descida é feita de forma abrupta, numa primeira fase, estabilizando depois numa segunda. Durante a primeira parte, ainda estamos no modelo tradicional de thriller, com a revelação a identidade do assassino. O público saberia sempre que algo está mal quando a 40 minutos do final do filme o "assassino em serie" morre. E de facto estava, mas a forma como passa a estar é muito bem conseguida.
O filme entra então num ritmo completamente diferente. Tinha de o ser, pois mudamos de cenário e mudamos de clima. Já não estamos no thriller, estamos agora num ajuste de contas. Mais uma vez a intensidade da acção deve-se à relação entre as personagens, que conseguem criar uma quimica tal, que nos dão a entender tratarem-se de personagens siamesas. O final, é provavelmente um dos pontos altos do filme - se bem que não tão intenso como se pedia - mostrando que a uma reviravolta, podem seguir-se outras sem que o filme perca com isso.

O trabalho de D. J. Caruso nesta sequência de acção e emotividade foi preponderante, como já referimos em cima, essencialmente pela sua experiência televisiva. O filme é um todo feito de várias partes e quer o elenco, quer o realizador, conseguiram dar a entender essa dinâmica, de uma forma muito positiva.
Angelina Jolie vai muito bem na sua personagem. Apesar de ser sempre agradável à vista, neste filme não é o seu corpo que se destaca - não estamos num Tomb Raider ou num Gone in 60 Seconds - mas sim o carisma que Jolie traz a todos os filmes em que entra. Carisma esse que a faz uma actriz, verdadeia sucessora de um outro grande actor como é Jon Voight. No filme, apesar de não ser ela a controlar a acção/emoção (ou é?) temos sempre a certeza que no final, aquele olhar terá a resposta precisa. A cena de sexo, necessária para consolidar o climax da relação entre as duas personagens, mostrou igualmente a parte de Jolie que o público - em especial o masculino, mas não só - quer e gosta de ver. No entanto ela sabe, que isso é o menos. O verdadeiro cerne da sua presença no filme está na sua forte presença. E o seu objectivo é conseguido em pleno.
Quem também não deixa de ter uma forte presença, mas de uma outra forma, é Ethan Hawke. Na sua carreira, com altos e baixos que nunca lhe permitiram atingir o nível de outros colegas da sua geração, sempre nos habituamos a representações como a deste filme. Um personagem simpática, cheia de tiques - o trabalho fisico de Hawke é sempre algo a salientar - mas com um fundo de mistério, que poucos realizadores souberam explorar. É por isso que em Training Day, Hawke é o "bonzinho". Caruso soube ver esse outro lado e mostrou-o em todo o seu esplendor. O Hawke da sequência final é um actor diferente, mais maduro e consistente, capaz de dar ao filme uma outra dinàmica. E isso é sempre importante.
Quanto aos outros actores, incluindo Jean-Hugh Anglade, Oliver Martinez, e os já citados Gena Rowlands e Kiefer Sutherland, não há nada a apontar.

Sendo assim um filme com um elenco muito sóbrio, e com um argumento e realização bem conseguidos, é de facto um motivo de interesse. O unico factor que faz com que Taking Lives, não passe para outra esfera, é o que faltou a D. J. Caruso fazer: dar um outro substracto ao desenlance da narrativa. O que lá está, está de facto bem feito, mas podiam estar lá tantas outras coisas, tantos outros pormenores que tornariam o filme ainda melhor. A própria banda-sonora, do grande compositor Philip Glass, nunca consegue dar um clima "bigger than life" ao filme. É esse tom quase épico - sendo aqui épico um termo que em nada tem a ver com o estilo cinematográfico homónimo - que não deixa o filme descolar para altos vôos. Fora isso, Taking Lives é um filme muito razóavel de se ver.
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Site Oficial: takinglives.warnerbros.com
Realizador: D. J. Caruso
Elenco: Angelina Jolie, Ethan Hawke, Kiefer Sutherland, ...
Produtora: Warner Bros.
Duração: 1h45 minutos
Classificação: m/16
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 13, 2004 06:05 PM