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agosto 14, 2004
King Arthur - Quando a realidade ultrapassa a lenda
No filme de John Ford, The Man Who Shot Liberty Valance, a certa altura uma das personagens, o editor do jornal local, vira-se para Jimmy Stewart e diz-lhe que quando confrontado com a realidade, prefere imprimir o mito. Hoje passou-me esta frase pela cabeça aquando do generico final do filme King Arthur. Porquê?
Porque este filme provou que se pode fazer exactamente o oposto...
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A BASE HISTÓRICA
O trailer já avisava, e mesmo os mais distraidos não podiam ignorar que este King Arthur seria completamente diferente da história a que fomos habituados. Não há glamour, não há o epiteto de cavaleiros, como conhecemos. Tudo isso surge como uma manta que os poetas da baixa Idade Média colocaram em volta de uma história de uma personagem que parece cada vez mais real, e cada vez menos parecida com a do retatro que pintam.
Apesar da maior parte dos historiadores apontarem a existência do Rei Artur como um facto histórico, colocando-o a viver na primeira metade do Século VI, subsiste ainda a dúvida do local. Há quem aventure como palco o País de Gales, outros o Sul de Inglaterra e até mesmo a Bretanha francesa. No entanto o cenário mais real será colocar o Rei Artur junto à fronteira com o império romano, em solo escocês. É a ideia mais forte e aquela que o filme defende. Por isso agarrem-se porque fomos convidados para conhecer o verdadeiro rei Artur. E, mais importante que isso, é saber quem nos convida. Nem mais nem menos que Jerry Bruckheimer. Como podem ver nada foi deixado ao acaso.
O REALISMO DE BRUCKHEIMER
Jerry Bruckheimer é sem sombra de dúvidas um dos mais espantosos produtores de cinema da actualidade, e provavelmente o único que pode ombrear com os grandes dos anos 30 em influência na concepção de filmes. Muitos dizem que nasceu muito depois da sua era, mas Bruckheimer faz questão de mostrar que o seu trabalho é intemporal. Foi dele que partiu a ideia de uma abordagem realista da vida de uma das mais emblemáticas personagens da literatura anglo-saxónica. E foi ele quem coordenou toda a fantástica produção do filme. E aí esteve a diferença.
King Arthur é um filme que consegue agradar a gregos e a troianos. Agrada aos amantes de cinema entertenimento. Tinha de agradar, pois essa é a imagem de marca dos seus filmes. Um humor genial (um dos pontos fortes do filme sem dúvida), muita acção, efeitos especiais notáveis e um elenco muito sóbrio eram o bilhete garantido para o sucesso, o que equivale dizer, lucro.
Mas também é capaz de agradar àqueles que vão ver o filme empurrados pelo nome de Artur. Sim porque este Artur, esta personagem encarnada de forma fantástica por Clive Owen, surge como um Artur coerente, real. O mito e a lenda foram deixados para outra altura. Este Artur não é um velho senhor da guerra - como foi Sean Connery em The First Knight. É o produto do seu tempo, um tempo de mudanças radicais, mas também de idealismos. Mudanças geográficas, com um império a desabar e uma horda de tribos prontas a tomar o seu lugar, e um idealismo próprio de uma era em que a Igreja de Roma começava a controlar o pensamento de todos, mas onde também ainda haviam vozes dissonantes.
EQUIPA BEM MONTADA
Realizado por Antoine Fuqua - o mesmo do notável Training Day - e com um elenco em que se destacam o próprio Clive Owen (apesar de não o imaginar como James Bond), o excelente Ion Gruffud, como um Lancelot, que mantem os traços de guerreiro rebelde mas mais terra-a-terra que a lenda que ecoou, e ainda Stellan Skarsgaard, uma força da Natureza que trouxe uma maior profundidade narrativa ao filme. De resto, quase todo o restante elenco se porta admiravelmente. A excepção é mesmo a jovem Keira Knigthley. Keira já entra mal no filme porque a sua personagem encontra-se algo como a mais na narrativa. Nunca se percebe bem qual a quimica criada com Artur, e os olhares trocados com Lancelot - como manda a lenda - nunca são explorados. Ainda mais que a ideia de fazer de Guinnevere uma nova Boudica, não surgem lá muito consentâneos com os estudos históricos. Mas claro que numa produção norte-americana, tinha de haver uma beldade e de facto bela ela é. Não é no entanto o elo mais forte deste filme.
PERTO DA REALIDADE MAS LONGE DA PERFEIÇÃO
Com uma narrativa forte, o filme prima igualmente por ter uma dinâmica de grande interesse. Já o compararam a The Magnificent Seven e com alguma razão, porque tal como esse mitico western, o filme não para. Há sempre alguma faceta a explorar. As batalhas, mesmo que maioritariamente feitas com efeitos especiais - nada de Henry V aqui - estão bastante bem conseguidas, e acima de tudo, extremamente realistas. Não há aqui, como em Troy por exemplo, um exagero de número, e o respeito pela indumentária da época é algo sempre de louvar. No entanto o filme poderia ter acabado de uma forma melhor. Parece que depois de hora e meia de grande intensidade, o ritmo como que se precipita para um final demasiado apressado. A última batalha -Badon Hill, também ela uma batalha real - começa bastante bem mas acaba depressa demais e o happy-ending final surge quase como uma obrigação, em vez de seguir o fluxo natural da estória. Ainda para mais o último plano não é feliz. Não só por muitos dos espectadores não se lembrarem do mito inicial, como porque, com tantos simbolos ligados ao universo arturiano, terminar desta forma surge quase como uma negação do esforço conseguido durante o resto do filme.
CONCLUSÃO
Mesmo assim King Arthur é um filme muito agradável. A mensagem do filme é extremamente agradável e claro, a produção de Bruckheimer muito bem conseguida. Havia claro milhares de maneiras de abordar a história. Este filme opta pela versão realista. Ao contrário de Troy, em que o desrespeito pelo argumento mitico é insultuoso, aqui em King Arthur estamos mais perto da verdade do que provavelmente alguma vez saberemos. Mas se encontrarem um cavalo que tenha vivido estes dias, provavelmente ficarão a saber quem era de facto Artur.
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Site Oficial: kingarthur.movies.go.
Realizador: Antoine Fuqua
Elenco: Clive Owen, Ion Gruffud, Keira Knightley, ...
Produtora: Touchstone Pictures
Classificação: m/12
Duração: 130 minutos
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às agosto 14, 2004 12:04 AM