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agosto 31, 2004
Wonderland - Sexo, Droga e Crime
Num registo perfeitamente alucinante, Wonderland é um filme onde se torna dificil o espectador perder-se. Um filme cheio de garra, imaginação e dinamismo que afinal merecia bem mais atenção do que a que lhe foi prestada. Afinal, Wonderland não é só um thriller. É o cartão de visita para podermos começar onde o mágico Boogie Nights acabou...
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Há várias conclusões que se podem tirar da vizualização deste interessante Wonderland.
A primeira, e mais clara de todas, é a de que Val Kilmer está de facto numa forma sem igual. O actor que se tornou conhecido em Top Gun e depois ainda foi Batman e The Saint está a ter um ano a roçar a perfeição. Depois do seu magistral desempenho em Spartan e deste seu arrebatador desempenho ainda há a hipótese de o ver brilhar no épico de Oliver Stone, Alexander. Sem dúvida o melhor ano de toda a sua carreira.
O filme é uma miscelânea de tudo, um retrato fiel da cena underground do final dos anos 70 e da subsequente viagem ao universo deprimente da década de 80. O mundo das drogas, do sexo livre e do alcool tinha tido o seu eco máximo nos finais dos anos 60 e arrastara-se lentamente durante a década de 70 mas no início dos anos 80 estava em baixa. Tinha deixado de ser moda para passar a ser um vicio de poucos. Um deles era John Holmes, a grande estrela do cinema pornográfico norte-americano, conhecido por The King e celebrizado pelo seu orgão sexual de mais de 40 centimetros. Pelo menos assim reza a lenda que o filme gosta de evocar.
Holmes era - e disso sabemos nós porque vimos o absolutamente fabuloso Boogie Nights de Paul Thomas Andersen, a versão não oficial da vida do King - de facto um desses viciados em droga. Mas como ele havia muitos - e há infelizmente - capazes de tudo por mais uma dose. E quando digo tudo digo mesmo tudo. Até matar!
A premissa do filme é mais ou menos essa. Um assassinato de proporções trágicas em Hollywood põe a nu a realidade crua da decadência californiana. Expõe o poder da mafia junto das autoridades e a deterioração das relações humanas como poucos filmes o souberam fazer este ano. A este sumarento argumento, uma matéria prima bastante interessante, o realizador James Cox junta uma realização bastante fresca. Ou seja, não se perde em pequenos apontamentos, em planos longos e extensos. Não!
Cox opta por uma dinâmica de realização que utiliza tudo ao seu dispor. A capacidade imaginativa de incorporar um mapa de Los Angeles para substituir os enfadonhos planos de trânsito, ou de pegar em capas de jornais, dando ainda mais veracidade a um facto que, repito, é veridico, é simplesmente de aplaudir. O filme só ganha com este uso de vários elementos que combinados na dose certa mantêm a narrativa fluida e fácil de seguir.
Para além desta fluidez narrativa e do bom argumento, para não voltar a referir a sublime montagem, um dos pontos fortes deste filme está junto da representação. Já falamos um pouco de Val Kilmer mas vale sempre a pena referir a capacidade impressionante que o actor teve em manter-se no mesmo registo o filme todo de forma quase imaculada. De facto é excelente ver Kilmer como o sofredor, quase inconsciente até, Holmes, e a sua luta, não para fugir de um mundo que o prendeu - e mais tarde levou - mas para fugir daqueles que impediam uma estadia tranquila nessa mesma dimensão. Uma luta que o levou mesmo a cometer o maior dos crimes: a traição.
Aliás essa é também a temática do filme e da personagem em si. Todos os elementos que giram à volta de Holmes - que não sendo a personagem principal da trama (são os assassinatos) não deixa de ser o ponto fulcral da narrativa - acabaram, de uma forma ou de outra a serem traidos por ele. Todos sem excepção. E é notável como vemos desenrolar essas traições ao longo do filme e a sua expressão, o seu olhar, a sua angústia é exactamente a mesma. Tudo por uma dose...
Uma nota igualmente para o restante elenco que se porta bastante bem. No campo feminino temos o destaque para Kate Bosworth, a miss Orlando Bloom, como a imprensa impiedosamente a trata. Sem razão, pelo menos a ver neste filme onde se exibe a bom tom como a eternamente fiel namorada de Holmes. Um desempenho num registo que intercala o sofrimento e dor com a paixão cega, algo que atinge a todos de uma maneira ou de outra e por isso encontra facilmente um eco no espectador. Também Lisa Kudrow se porta bem como a esposa sofredora mas fiel até ao fim, num registo ligeiramente diferente do que estamos habituados a ver. Por lá também andam as musas de outrora Carrie Fisher e Christina Applegate mas sobre elas pouco há a dizer.
No campo oposto temos de registar a excelente interpretação, quase de raiva, de Dylan McDermott. Ao inicio é dificil descortinar o actor de The Practice num traje de motoqueiro a lembrar Dennis Hopper em Easy Ryder, mas depois não há que enganar. A mesma clarividência nos diálogos e o mesmo olhar penentrante não deixam de mostrar a sua marca. Um dos pontos positivos do filme note-se. Também num bom registo temos Josh Lucas como o veterano do Vietname viciado em cocaina e liderança compulsiva e ainda Eric Bogosian como o traficante palestiniano Eddie Nash, que na versão de P.T. Anderson foi interpretado por Alfred Molina.
A conclusão é de que este Wonderland é um filme a ver.
Tanto se apresenta como um filme para quem gosta de acção ou suspense como para aqueles que achavam que Boogie Nights devia ter durado para sempre. De uma maneira ou de outra Wonderland apresenta aquele registo fresco e limpo, cheio de honestidade, que contrasta com a maior parte dos titulos que são exibidos um pouco por todo o mundo por alturas do Verão.
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O MELHOR: A dinâmica de montagem e a frescura do argumento. Não há bons e maus. Há factos e o mistério que se esconde por detrás deles bem até ao final.
O PIOR: Talvez a falta de um confronto entre as personagens de Kilmer e McDermott de uma forma mais intensa.
CURIOSIDADE: Se estiverem atentos, na cena do iate, antes de John Holmes travar conhecimento com Eddie Nash (num flashback) ele está a tentar engatar mais uma beldade. Ela é nem mais nem menos que Paris Hilton, a herdeira da fortuna da cadeia de hoteis Hilton e uma das mulheres mais badaladas do momento. Pela fortuna, pela beleza e pelos videos pornograficos que circulam pela net.
Site Oficial - www.wonderlandthemovie.com
Realizador: James Cox
Elenco: Val Kilmer, Kate Bosworth, Lisa Kudrow, ...
Produtora: Lions Gate
Duração: 90 minutos
Classificação: m/16
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às agosto 31, 2004 10:49 PM