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setembro 11, 2004
Festival de Veneza - Leão de Ouro consensual
É curioso ver que ao mesmo tempo que o aborto está na moda em Portugal também o está em Veneza. Pelo menos assim parece pela decisão do juri do mais antigo festival de cinema do mundo que atribuiu a Vera Drake, filme de Mike Leigh sobre uma doméstica na Inglaterra dos anos 50 que ajudava mulheres a abortar clandestinamente, o Leão de Ouro.
A edição 2004 termina assim sem surpresas...

A verdade é mesmo essa. Todos os prémios acabaram por corresponder às apostas geradas ao longo do Festival. Se o público italiano torcia ferozmente pelo filme da casa Le Chiave di Casa, na verdade toda a restante opinião era de que o filme do veterano realizador britânico Mike Leigh era de facto o vencedor justo. E assim foi. Vera Drake, filme inspirado numa mulher da Londres da década de 50 que ajudava várias mulheres a livrarem-se dos indesejados filhos, provou ser consistente ao ponto de conquistar todos os que o viram ao longo do festival. Categorica acabou igualmente por ser a eleição de Imelda Staunton como a melhor actriz do certame. Staunton, uma actriz do teatro britânico, venceu sem apelo nem agravo a concorrência, onde também ponteficava Nicole Kidman, arrebantando assim o seu primeiro prémio.
Também em destaque este Mar Adentro. O filme de Alejandro Amenabar (The Others) também versava sobre um assunto polémico: a eutanásia. Para muitos era o grande rival de Vera Drake e por isso não foi espanto alguem que Amenabar triunfasse na categoria de Leão de Prata, o Grande Prémio do Juri. Tal como em Vera Drake, também neste filme a pujante interpretação de Javier Bardem como Ramon Sampedro, um galego que durante 28 de paraplégia lutou pelo direito à morte, colocava-o no topo da lista de favoritos para vencer o Leão de Ouro, algo que sucedeu com bastante naturalidade. Bardem já tinha vencido em 2000 o prémio com a sua interpretação em Before the Night Falls.
Para além da coroação dos filmes de Leigh e Amenabar, destacam-se também o Prémio Especial para Melhor Realizador que foi entregue a Kim Ki-Duk, um sul-coreano autor de Bin Jip, um dos filmes em destaque no certame.
O Festival acabou no entanto por ser marcado por forte polémica em torno da organização, ou falta dela. A própria camara de Veneza multou a Bianelle pela pelo excedente de cartazes publicitários a fazerem publicidade a alguns dos maiores sucessos do ano. Apesar das significativas mudanças a opinião generalizada é mesmo de que é preciso uma reestruturação a todos os niveis para manter o festival na alta roda dos grandes eventos cinematográficos do ano.
A 61º Edição do Festival de Veneza ficou igualmente marcada pela atribuição do Leão de Ouro a Manoel de Oliveira, o seu segundo, num prémio de carreira que dividiu com o realizador norte-americano Stanley Donen. Confrontado com o prémio o mais velho realizador em actividade disse penas "Acho que mereço porque tenho um grande amor pelo cinema!"
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às setembro 11, 2004 05:52 PM