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setembro 10, 2004
The Terminal - O Contador de Estórias...
Já o tinha dito. The Terminal é o filme do ano. Pelo menos daqueles que estrearam até ao momento. E porquê?
Porque junta o maior contador de estórias do mundo, Steven Spielberg, com o melhor actor da década de 90, Tom Hanks, num ambiente onde o calor humano consegue dar vida à própria sala de cinema. The Terminal mostra que há filmes e filmes. E depois há os filmes de Spielberg...
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Este filme só não é de Frank Capra porque o maior realizador da história do cinema já não se encontra entre nós. Tinha tudo para ser dele. A história, a personagem, o actor - Tom Hanks está para Spielberg como James Stewart estava para Capra - o elenco e o ambiente. Tudo nos leva a recuperar o imaginário cavalheiresco de Capra. Mas se não temos Capra, temos Spielberg que é, sem sombra de dúvidas, o seu sucessor natural. Sucessor em termos de fazer cinema e sucessor no trono de maior contador de estórias do mundo, e, por arrasto, como melhor realizador em actividade. Dito isto será fácil perceber porque é que The Terminal é o filme fabuloso que é. Não lhe vou chamar de obra-prima. Nessa categoria, quase olimpica, da cinematografica spielberguiana, existe já um conjunto de filmes que não encontram comparação. Estão lá ET, Saving Private Ryan, A.I. e Catch Me If Tou Can. Mas mesmo assim podemos dizer que The Terminal está na situação de Viktor Navorski no que podemos comparar com as obras-primas de Spielberg. Está no hall da entrada mas ainda não entrou no lote dos eleitos. Quem sabe se não caberá ao tempo abrir-lhe as portas.

Para os mais distraidos, The Terminal pode não passar de um filme simples mas belo. Só que a simplicidade aparente é no fundo o resultado de uma construção bem mais complexa do que aparenta ser. É que em The Terminal podemos encontrar, como num puzzle, pormenores caros a uma infinidade de generos cinematográficos e até, a politicas sociais. Não falo apenas do tom capriano do filme. Falo igualmente do micro-cosmos que o próprio terminal possibilita, e que torna a acção praticamente exclusiva de um pequeno conjunto de locais, criando uma maior familiaridade com o público. Falo também das relações humanas, curiosamente numa ligação entre os vários vertices do "melting pot" norte-americano. Para além do imigrante clandestino de leste (e digam lá se Krakozhia não faz lembrar o nome daquelas republicas de leste dos livros do Tintin), há o indiano, o hispânico, os negros e os americanos brancos, que são na verdade o esqueleto dos EUA dos nossos dias. E Spielberg, como só ele sabe fazer, manda aqui a mensagem ao mundo. Se no terminal do JFK todos se podem entender, ajudar e apoiar, porque será que o mesmo não se poderá passar no resto do país? Fica o recado.

O filme não se esquece igualmente de apontamentos cómicos a lembrar as gags de Buster Keaton ou mesmo da relação amorosa (algo que Spielberg normalmente não foca nos seus filmes) destinada ao falhanço mas que existe com um propósito. Não só nos revela um Navorski (Hanks) na sua vertente mais heroica, como igualmente mostra um Catherina Zeta-Jones em grande forma, qual Jean Arthur ao contrário.
Se The Terminal é tudo isto ainda é mais. É um filme - e nisto mais do que Capra, Spielberg aborda a filmografia de Howard Hawks (a prova de que não é só Tarantino que sabe evocar o passado do cinema, como muitos gostam de fazer crer) - de camaradagem. Amizade entre os habitantes do terminal (apesar de Navorski ser o único que realmente dorme lá, os outros também vivem no terminal e a cena de casamento é disso um exemplo), dá ao filme uma força e um sentido necessário para se conseguirem ultrapassar as sucessivas agruras que vemos colocar a Navorski. Aliás há aqui um pouco de Kafka no filme, especialmente quando somos confrontados várias vezes com a frase "falha do sistema". Há aquele buraco imaginário, que só as instituições altamente buroctratizadas conseguem criar e depois não sabem como resolver, é o espelho do pensamento do escritor checo.

Falar de The Terminal é acima de tudo, falar de Tom Hanks.
Quando se fala em actores injustiçados pela Academia, pensa-se sempre em nomes como Chaplin, Edward G. Robinson, Montgomery Clift, Richard Burton ou Peter O´Toole, nomes que nunca acabaram por ser galardoados com uma estatutea dourada. Mas, apesar de ser um dos raros actores a ter dois óscares , ainda por cima em anos sucessivos (só Spencer Tracy tem igual registo), também podemos dizer que Hanks é um injustiçado. É porque desde 1994, data de Forrest Gump, até hoje, já o vimos encarnar dezenas de papeis de forma absolumante notável e digna de serem galardoados com o apetecido óscar. Foi assim em Saving Private Ryan, em Cast Away entre outros. Este ano não deverá fugir à norma. Mas injustamente porque o desempenho de Hanks é do outro mundo. A forma como domina o sotaque carregado da Europa de Leste, como faz uma interpretação que tem tanto de over-acting como de inner-acting é algo que só os eleitos conseguem. O pape de Viktor Navorksi ficará para sempre marcado como um dos pontos mais altos da sua carreira, ele que foi o grande actor dos anos 90 e que, curiosamente, agora tem apostado mais na área da produção, apesar de continuar a fazer um filme por ano.
Se houvesse justiça na Academia - e digo isto antes de ver os papeis de Cruise, Farrell, Di Caprio, Washington e Sean Penn - pela primeira vez um actor conquistava três óscares. Cenário no entanto bastante improvável já que a Academia gosta de criar os seus próprios mitos, e Hanks não parece estar destinado a ser um deles.

Quem também merece um aplauso é Catherine Zeta-Jones. A bela actriz, galardoado no ano passado com um óscar secundário, vai muito bem no seu complicado papel de mulher indecisa e eternamente infeliz. Dá-nos inclusive vontade de gritar para o ecrãn, depois de tantas referèncias ao amor de Napoleão e Josefina - que ela usa para descrever o seu amor pelo homem de quem é amante - que Napoleão só fez a mulher infeliz. Mas isso ela já o sabe e resigna-se naquela última cena à porta do aeroporto. Também todo o elenco secundário, onde desponta o jovem talento Diego Luna, merece o devido destaque pois são fundamentais para criar a atrmosfera de calor humano que encontramos no terminal.

Se os EUA são ainda a terra prometida para a maior parte dos habitantes do terceiro mundo, Spielberg não hesita em mostrar uma América da vez mais fechada, em relação ao mundo e também sobre si mesma. A própria metáfora do gatekeeper, personificado pelo director da segurança do aeroporto, que funciona como a antitese da Estátua da Liberdade, dá aos espectador uma visão negra da América. A sociedade para qual Spielberg alerta no filme é uma sociedade para a qual os EUA caminham quando decidem que mais ninguém no mundo tem direito de pasar do hall de entrada para a sua casa. Navorski conseguiu, mas quantos deles não ficarão sentados à espera. Para esses os contos de fada existem apenas no cinema...
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O MELHOR - O desempenho assombro de Tom Hanks. Notável a construir personagens a partir do zero, Tom Hanks é ainda hoje um dos maiores actores em actividade e começa aos poucos a tornar-se numa lenda do cinema. E merecidamente!
O PIOR - O que falta ao filme para se tornar uma obra prima é talvez um daqueles momentos que fiquem na imortalidade da história do cinema. Se houvesse "essa" cena o filme seria perfeito.
CURIOSIDADE - A história de The Terminal é baseada num facto veridico, se bem que o filme tomou a liberdade de romantizar em muito a narrativa original. O filme é inspirado na vida de Mehran Karimi Nessari, um iraniano que ainda hoje vive no terminal do aeroporto Charles de Gaulle em Paris, tudo porque devido a questões burocráticas, um dia tornou-se apátrida. Hoje é milionário graças à fortuna que a Dreamworks de Spielberg lhe pagou pelos direitos de autor. Mesmo assim continua a viver no terminal sob o nome de Sir Alfred.
Site Oficial - www.theterminal-themovie.com
Realizador - Steven Spielberg
Elenco - Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones,...
Produtora - Dreamworks
Duração - 128 minutos
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às setembro 10, 2004 10:53 PM