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outubro 17, 2004
Diarios de Motocicleta - O coração de um continente...
Walter Salles filma de forma magnifica esta viagem de dois amigos, dois jovens idealistas, que partem à procura de um continente esquecido. Durante a viagem vão descobrir realmente o que é a América Latina e vão ganhar consciência do que nasceram para fazer. E se o filme já é em si uma epopeia, torna-se também um pedaço de história viva. Porque neste filme vimos nascer o "Che"....
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Este filme é tanto um road-movie, a fazer lembrar The Grapes of Wrath, com Henry Fonda como o protótipo do "Che" Guevara norte-americano, como um filme documental, tal é a forma como parecemos ser mais um dos viajantes. Isso nas palavras de Alberto Granado, o viajante sobrevivente, que viu o filme e chorou copiosamente dizendo que tudo se tinha passado daquela forma. Se isso é verdade, então mais mérito tem este filme de Salles.
Diarios de Motocicleta - lamentavelmente traduzido por cá como Diarios de Che Guevara - é um dos filmes mais belos dos últimos anos. Um filme honesto, verdadeiro, sem qualquer artificio técnico que prejudique a mensagem de procura que os diário de Ernesto Guevara pretendeu transmitir.

Inicialmente pensamos estar mesmo diante de um road-movie. Rodrigo la Serna, o actor que intrepreta Granado, toma conta dos primeiros minutos do filme e dá um pouco de humor aos primeiros quilómetros de viagem. Temos uma pequena amostra do idealismo de Guevara, que surge como o contraposto ideal à matreirice de Granado, mas também é-nos dado a ver pela primeira vez a imensidão do cenário do filme, um continente belo e por explorar que transcendo tudo e todos. As paisagens da Argentina, Chile, Peru e Bolívia transformarm o filme de uma forma espantosa. Torna a missão destes homens ainda mais épica, e os problemas que eles encontram pelo caminho, ainda mais negros.
É que a viagem ao coração deste continente mostra mais as feridas por cicatrizar que este tenta esconder do que propriamente a sua grandeza - excelente o contraponto entre Machu Pichu e Lima.

Salles dirige com mãos de mestre o filme. Apoiado numa fotografia e numa montagem fora de serie, utilizando ainda, qual documentário, pequenos momentos a preto e branco, fotografias vivas da viagem, para que o que ficou para trás não possa ser esquecido. Não há um momento baixo no filme. Sempre que o motor da moto parece começar a soçobrar, eis que uma nova engrenagem na mudança lhe dá a vida necessária. Aos problemas com a namorada de Ernesto, segue-se a beleza da travessia para o Chile. À conturbada saida do Chile surge a imensidão do Atacama. À pobreza humana do Peru surge o talento dos Incas, e à dor dos leprosos surge a imponência do Amazonas. Tudo muito bem preparado e esquematizado. Tudo desenhado a regua e esquadro.

Sendo um road-movie, o filme vive igualmente dos actores, e nesse capitulo temos de nos reverenciar mais uma vez a Gael Garcia Bernal. O actor mexicano está a "explodir" de uma forma que poucos poderiam prever. É dificil voltar-mos a olhar para o "Che" sem ver-mos o olhar idealista que trespassa pela cara do actor mexicano. Se Rodrigo de la Serna - que também é notável como Alberto Granado - domina os primeiros vinte e cinco minutos e filme, a partir daí o filme é todo do mexicano. Mais propriamente a partir do momento em que este visita a velha moribunda, uma metáfora para um continente a morrer. Tal como à velha, também Ernesto não pode fazer nada pelo seu continente, apesar de ter tentado. A partir daí temos um processo de "educação e formação" de Ernesto Guevara, que acabaria por torná-lo no mito que hoje conhecemos pelo "Che". O seu horror a injustiças, a sua frontalidade e a sua vontade de arriscar tudo pelos mais desfavorecidos, são o tom dominante do filme até ao seu final. A travessia do Amazonas é o coroar da aprendizagem. Como ele diz mais tarde, na despedida, a Granado, a viagem tinha-lhe dado a oportunidade de ver "quanto injustiça" moldava o seu continente. Cabia-lhe mudar isso. Ou pelo menos, tentar...

Diarios de Motocicleta é um dos filmes mais conseguidos do ano, uma pérola que nos chega da América Latina. Tal como Ernesto e Alberto, o filme é apátrida, representa sim o valor imenso de um continente tão explorado e oprimido. Se não fosse a jogada política de Tarantino, e tinhamos aqui o justo vencedor da Palma de Ouro em Cannes. E como, cada vez mais, a comunidade hispânica é importante para a indústria cinematográfica norte-ameriana, não espantaria que o filme tivesse cogitado para algumas nomeações aos óscares. O problema é que o cinema hispânico está a ter um ano em grande - La Mala Educacion, Mar Adentro - e isso pode retirar peso a um filme que merece ser visto com olhos de ver. Querem um filme ideológico? Vejam o documentário de Michael Moore. Querem um documentário idealista? Vejam o filme de Salles. E depois descubram as diferenças.
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O MELHOR - Gael Garcia Bernal. Que gigantesca interpretação do jovem mexicano que Alfonso Cuarón mostrou ao mundo em E Tu Mama Tambien. E que margem de progressão imensa que o jovem, que este ano também brilhou ao serviço de Almodovar, tem. Não estou a ser exagerado quando afirmo. Este é o primeiro Marlon Brando do cinema hispânico.
O PIOR - Depois de tantas belas paisagens no sul do continente, talvez mais algumas imagens do majestoso Amazonas, especialmente vistas de cima, pudessem trazer ainda mais beleza a este filme poético.
CURIOSIDADE - A última cena do filme mostra um homem idoso a ver um avião levantar voo. Ele é nada mais nada menos que Alberto Granado, o viajante sobrevivente. Agora residente em Cuba, Granado ajudou Salles na concepção do filme e disse no final que tudo se tinha passado desta forma. E disse-o com aquele olhar nostálgico de quem sabe que fez história...
Site Oficial - www2.uol.com.br/bvi/diariosdemotocicleta
Realizador - Walter Salles
Elenco - Gael Garcia Bernal, Rodrigo de la Serna, ...
Produtora - Focus Features
Duração - 128 minutos
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 17, 2004 04:29 PM
Comentários
2004 está a ser um ano interessante. Talvez porque muitos dos filmes do ano só estreim, ou no final do ano, ou em 2005...mas para já temos visto bons filmes. A prova é que, apesar de ser um filme de 5 estrelas, o Diarios de Motocicleta não entra no meu top5, já que os filmes que estão à sua frente são igualmente muito bons. Mas estará num 6º ou 7º posto claramente. E a visita vale a pena...
um abraço
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às outubro 19, 2004 05:31 PM
Emtão e entra para o teu top 2004?
Sem dúvida que tenho de ver este filme...
Publicado por: Luis Santos às outubro 19, 2004 02:17 PM
Olá Miguel, tive a oportunidade de ver este filme há alguns meses e também fiquei maravilhado. Um raio-x da América Latina muito bem filmado, executado e interpretado. Ter a oportunidade de ver a formação do mito Che Guevara foi uma experiência inesquecível para mim, profundo admirador desta figura.
Publicado por: O Crítico de Cinema às outubro 18, 2004 04:51 PM
Olá Miguel, tive a oportunidade de ver este filme há alguns meses e também fiquei maravilhado. Um raio-x da América Latina muito bem filmado, executado e interpretado. Ter a oportunidade de ver a formação do mito Che Guevara foi uma experiência inesquecível para mim, profundo admirador desta figura.
Publicado por: O Crítico de Cinema às outubro 18, 2004 04:50 PM