« Chris Rock é o anfitrião dos Óscares | Entrada | Poster final de Ocean´s Twelve »

outubro 15, 2004

La Vie Est Un Miracle - Amor em tempo de guerra

Com este filme, Emir Kusturica, o consagrado realizador jugoslavo, consegue mostrar que o seu estilo cinematográfico está bastante perto de algumas referências do cinema europeu. Ver o hilariante La Vie Est Un Miracle é lembrar-mo-nos do magnifico filme de Frederico Fellini, Amarcord. E é igualmente a prova de que na Europa ainda há grandes mestres a trabalhar...
Filme de Strarrrrr.gifStrarrrrr.gifStrarrrrr.gifmeia_estrela.gif
18377677.jpg

O filme, como não podia deixar de ser, tem a antiga Jugoslávia como cenário, e a fraticida guerra civil que durante dez anos assolou os Balcâs, como pano de fundo. E neste mundo da bicharada - notável a forma como o realizador utiliza os animais e a sua expressividade para traduzir os sentimentos humanos - há um homem, um idealista, um sonhador, Luka, que vive numa pequena aldeia na Bósnia a sonhar com comboios. Com ele vivem a mulher - uma antiga cantora de opera a quem faltou a voz, primeiro, e a razão, depois - e um filho que sonha apenas em se tornar o maior jogador de futebol da Jugoslávia.
A familia vive num micro-cosmos - a primeira de muitas semelhanças com o magnifico Amarcord - hilariante. Uma aldeia bósnia, onde muçulmanos e sérvios parecem conviver sem problemas. Há Vejlo, o carteiro a quem ninguém liga, há Tomo e Esad, os parceiros da bola do filho de Luka, Milos, e há ainda um presidente da camâra idealista, cujo vice, um currupto de primeira, cedo vai fazer tudo para lhe tratar da saúde.
E é assim que vivemos a primeira hora de filme. Talvez esta apresentação a este mundo os burros se apaixonam, os ursos tomam banho em banheiras, entre tantas outras loucuras, peque por ser demasiado extensa, especialmente se tivermos em conta o final do filme. Mesmo assim não deixam de ser sessenta minutos hilariantes com pedaços truculentos de magnifico humor.
007251.jpg

O filme vai crescendo à medida que as coisas se tornam mais sérias, o mesmo será dizer, à medida em que a guerra entra em movimento e as personagens se transformam. É aí que podemos seguir a bela história de amor entre Sabaha, uma enfermeira muçulmana, e Luka. A jovem já era perdida de amores pelo engenheiro amante de comboios, mas com o abandono da mulher deste, e a captura do filho pelo exército bósnio, mais fácil se torna a sua aproxmação. Ainda por mais quando surpreendentemene esta se vê prisioneira de guerra de Luka, que só quer ter o filho de volta. Mas o amor vai ganhando espaço no filme - algo que está ausente na primeira hora de pelicula - e vai dando algumas das cenas mais belas, como aquelas em que o casal consuma a paixão ardente que sentem um pelo outro.
18377518.jpg

O final do filme foge por completo ao inicio do mesmo. As coisas são muito mais sérias - apesar do humor ser sempre nota dominante - e as personagens encaram a situação de uma forma mais adulta. Mesmo assim é fácil entender o desfecho de algumas histórias, com os momentos finais a serem de pura magia cinematográfica. Um aplauso para a forma como Kusturica consegue acabar o que parecia dificil de acabar, depois de tantas voltas no argumento.
Para além da realização, há que destacar a bela banda-sonora, bem europeia, e uma fotografia e montagens excelentes.
18377516.jpg

Quem também não desilude é o leque de actores.
Slavko Stimac, um habitué com Kusturica, é notável na forma como dá vida ao sentimental Luka, um homem triste que reencontra a felicidade em algo que não os seus tuneis e comboios. Também a bela Natasa Solak é divinal ao encarnar a sedutora, com ar inocente, Sabaha. É justo dizer que a sua entrada em cena revoluciona o filme. Ele torna-se mais acutilante e mais conciso, em vez de se perder tanto com outras personagens menores.
Mesmo assim todo o elenco mostrou qualidade acima da média, desde Vesna Trivalic - a irritante Jadranka - a Aleksandar Bercek, o divertido carteiro, sem esquecer Stribor Kusturica, o flho do realizador que surge pela primeira vez no cinema.
18377515.jpg

Em resumo La Vie Est un Miracle é tudo o que se pode esperar de um filme do realizador jugoslavo. Hilariante a todos os niveis, sensivel e romântico, mas também sempre critico do que se passou na década de 90 em terras sérvias, bósnias e croatas, onde, segundo o realizador, a imagem que passou para o resto do mundo não corresponde à verdade do que se viveu. Um filme que vai entrar no leque de referências do cinema europeu recente, um filme que mostra bem que o cinema na Europa vale a pena ser visto.

Classificação - Strarrrrr.gifStrarrrrr.gifStrarrrrr.gifmeia_estrela.gif

O MELHOR - A forma como o realizador pega no filme e deixa andar. Podemos dizer que este filme está dividido em três partes: apresentação, desenvolvimento e conclusão. Se a primeira parte peca por ser longa em demasia, já os segundo e terceiro trecho do filme são pintados de forma notável por este artista jugoslavo que depois de Underground e Black Cat, White Cat, mostra o porquê de ser uma das grandes referências do actual cinema europeu.

O PIOR - Talvez a duração excessiva da primeira hora, a hora em que Kusturica apresenta e dá vida ao micro-cosmos onde a narrativa se desenrole. Há ali cinco ou dez minutos que estão a mais, já que além de não trazerem nada de novo à narrativa, repetem piadas que já conhecemos antes ou que vamos conhecer depois, onde elas são de facto essenciais.

CURIOSIDADE - Pela primeira vez Emir Kusturica trabalhou com o seu filho, Stribor. O realizador que até confessou ser adepto do F.C. Porto, escolheu Stribor para viver o capitão Aleksic, um dos papeis mais fortes e sensíveis de todo o filme. O filho não desenrou o sobrenome e deu uma bela interpretação. De tal forma que nem parecia que era o seu primeira passo diante das camaras.

Site Oficial - www.lavieestunmiracle.com/

Realizador - Emir Kusturica
Elenco - Slavko Stimac, Natasa Solak, Vuk Kostic, ...
Duração - 155 minutos
Produtora - StudioCanal
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 15, 2004 12:38 AM