« Prémios Gotham coroam Sideways | Entrada | Charme de Outono: Sean Penn - Contra o sistema... »

dezembro 03, 2004

Alexander - Um crime contra a Humanidade

Há que manter o minimo de respeito pela herança cultural da Humanidade. Tudo tem limites, mesmo o mundo do cinema. Ao contemplar estupefacto os créditos finais de Alexander perdi todo o respeito que tinha por Oliver Stone. Todo o realizador tem direito a ter um mau momento. Mas a destruir por completo um filme, criando uma imagem vergonhosa de uma das maiores personalidades da história da humanidade, vai uma grande diferença. E o que Stone fez é imperdoável...
Filme de 2005.gif
fnalonesheetsss.jpg

Alexandre, o Grande é a maior personalidade da Antiguidade Clássica. Foi o mais jovem conquistador da história, o único capaz de unir a Europa e Ásia. E fez isso com um pequeno exército de pastores. Tendo apenas 25 anos. É obra. E uma personalidade destas merece um filme à sua altura. Por muito polémico que Alexandre seja, acho que todos estamos de acordo nisso. Por isso é impercéptivel que o filme sobre a vida desta grande personalidade se baseie na sua homossexualidade levada ao extremo (mas sem a coragem de mostrar o que se insinua), do seu medo do pai e da sua fixação na mãe. Será que o grande Macedónio se resume a isso? Dificilmente. Mas Oliver Stone quer nos fazer acreditar que sim. Quer que pensemos que o amor dos exércitos veio do nada, quando na realidade brotou das acções heroicas em Queroneia, Issos e Granico, batalhas fundamentais na sua vida e incompreensivelmente apagadas da história. Stone não mostra a relação de cavalheirismo entre Dário e Alexandre. Mas, pior do que isso, inventa factos. Se estamos a adaptar um livro, podemos sempre mudaru ma coisa ou outra sem impacto. Agora a vida de um dos génios da história, isso já nao se pode fazer. Fazer da filha de Dário uma rapariga das montanhas, da morte de Alexandre um assassinato, ou da morte de Bucéfalo um espectaculo visual, é simplesmente lamentável. E nenhum filme se salva com uma base tão podre.
angelina_jolie11.jpg

O filme peca em todos os sentidos, apesar de uns serem claramente mais graves do que outros. As interpretações não existem. Tirando Angelina Jolie, que apesar do sotaque exagerado, é a melhor actriz em cena, todo o restante elenco é um desastre absoluto. Val Kilmer é exagerado (quem disse a Oliver Stone que Filipe da Macedónia era zarolho?), Chistopher Plummer inexistente, Jared Leto fraquissimo, Anthony Hopkins incompreensivelmente apagado enquanto que Rosario Dawson só existe para mostrar os enormes seios de que é dotada. E quanto a Colin Farrell? Digamos que é um dos maiores erros de casting de toda a história. O filme nunca é dele porque ele é pequeno demais para uma personagem tão grande. Não é a cabeleira loira que tantos criticam ou a falta de experiencia. É mesmo as suas próprias caracteristicas que o tornam num Alexandre improvável e inverosimel. E comparado com o seu idolo Aquiles, mesmo sendo o Aquiles versão Brad Pitt, a verdade é que este Alexandre é uma sombra do que poderia ser. E mais uma vez isso é fatal ao filme.
Mas provavelmente o ponto mais negro do filme - tirando as adulterações históricas - é a montagem.
O estudioso Franz Weyerganz explicita no seu livro Eu e o Cinema, que a montagem é a chave fulcral do cinema. E Oliver Stone ignorou isso e construir a pior montagem dos últimos anos. Incompreensivel, mal estruturada e pior concebida. Quem imaginaria ver um épico em que no discurso da personagem principal - habitualmente um dos pontos mais dramáticos do filme - iriamos ouvir breves palavras sem chama enquanto uma águia contempla um desorganizado campo de batalha? E quem imaginaria uma batalha com cores vermelhas em todo lado, em quem um cavalo sozinho enfrenta um exército de indianos enquanto que Alexandre está impávido deitado no chão? Verdadeiramente impensável.
alexander9.jpg

Outro ponto negativo do filme é a forma como a narrativa está estruturada. Para além de ignorar os aspectos essenciais da vida de Alexandre, faz dois flashbacks dentro de um grande flashback que é a narrativa de Hopkins. O primeiro evoca a memória de Citizen Kane e é tão mal feito que até dá dó. Será uma das cenas finais mais hilariantes da história do cinema, sem qualquer sentido, ao contrário de Rosebud. O segundo serve para mostrar a morte de Filipe. Porquê? Para quê guardar isso para meio do filme? Não há razão nem emotividade que o justificasse. Pelo contrário. Isso só reforça a ideia do menino da mamã e do papá. Não há força para voltar atrás na história. Nem paciência para aguentar o que se segue.
colin_farrell9.jpg

Tirando a banda-sonora, alguns momentos da primeira meia hora de filme, e as paisagens e fotografia do filme, todo este filme é para esquecer. Se os soldados de Alexandre estavam fartos de marchar rumo ao fim do mundo, o espectador fica farto de ver a estapafúrdia invenção de Stone. Até há bem pouco tempo depositava válidas esperanças em Alexander. Ao contrário de Troy - que apesar de não ser melhor cinematograficamente, é mais honesto nas descrições das personagens - aqui havia tudo para este ser um dos filmes do ano. E o primeiro motivo era Oliver Stone. Autor de grandes filmes como JFK e Nixon, e de sucessos como Platoon e Bourne on the 4th of July, filmes que lhe valeram dois óscares, esperava-se o melhor. Nunca isto. Nunca vi tal harakiri de um realizador em toda a minha vida. Não de um dos melhores. A partir de hoje Stone torna-se num vulgar director de estúdio. Perdeu a credibilidade que tinha, tal como aconteceu com Michael Cimino em Gates of Heaven. Respeito o trabalho pré-Alexander mas temo que o futuro deste autor seja ainda mais negro que o futuro deste triste filme. E acredito que Alexandre, o Grande mereça uma homenagem digna. Agora não pensem que será o filme de Bazz Luhrmann com Leonardo di Caprio a fazer isso. Terá de ser o cinema europeu a evocar a sua memória de uma forma que só nós sabemos fazer. Porque nos Estados Unidos já se percebeu que de história e cultura europeia nada sabem. Só destruir uma identidade que levou milhares de anos a criar.

Classificação - 2005.gif

O Melhor - A Banda Sonora do filme e a Cinematografia.

O Pior - Tudo o resto. Especialmente a montagem de Stone e a sua falta de coragem em todos os aspectos. Em não contar a história como ela foi e ao não ter coragem para levar a sua história até ao fim. Se queria retratar Alexandre como homossexual então não se percebe porque é que a cena de sexo é com uma mulher e não com um homem. Até aí Stone é vergonhoso.

Curiosidade - Quando em 1955 Richard Brooks realizou Alexander the Great, também houve polémica há volta da cor do cabelo da personagem principal. Tal como aconteceu com Farrell, também Richard Burton teve de ser aloirado para encarnar o papel.

Site Oficial - alexanderthemovie.warnerbros.com

Realizador: Oliver Stone
Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Val Kilmer, Anthony Hopkins, ...
Produtora: Warner Bros.
Classificação: m/16
Duração: 176 minutos


PS - Peço desculpas aos leitores do Hollywood por ter insistido neste filme como eventual candidato aos óscares nas minhas primeiras previsões. Um erro imperdoável que espero que me perdoem. É o risco de prever sem ver antes.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às dezembro 3, 2004 12:25 AM

Comentários

Tinha esperança de que os críticos americanos estavam a exagerar os problemas do filme... Pelo que li, a resposta é não. Também estou envergonhado de ter promovido ALEXANDRE inúmeras vezes no meu blog - antes mesmo de iniciar a psotagem de previsões aos Óscares - e afirmar que com certeza seria um grande filme.
Mas ele só estréia no Brasil em Janeiro... Espero que eu o considere ao menos bom.

Publicado por: Gustavo H.R. às dezembro 3, 2004 07:48 PM