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fevereiro 17, 2005

Million Dollar Baby - Eastwood devia durar para sempre...

Como ele o consegue ninguém o sabe. Tem um minimalismo visual impressionante e uma profundidade dramática arrebatadora. Consegue ser um poço de sentimentos em fúria sem mexer um nervo. E ao fazer este filme, consagra-se como o maior realizador vivo. Se Deus desse a oportunidade aos amantes do cinema de escolher alguém para viver para toda a eternidade, esse alguém devia ser "The Clint"...
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É provavelmente o melhor filme do ano. Se não o é (o tempo o dirá, como sempre) então é essa a sensação que fica quando surgem os créditos finais. Não, minto! Essa é uma sensação que nos acompanha ao longo de todo o filme. Mas têm sido tantas as desilusões ao longo dos últimos anos, que temos medo de ousar dizer algo do genero, antes do filme chegar ao fim. Não que Clint Eastwood o mereça. Nunca fez nada que nos fizesse duvidar da sua genialidade. Nem como actor nem como realizador. Ao autor de filmes tão poderosos como White Hunter, Black Heart, Unfortiven, A Perfect World, BloodWork ou Mystic River, não se pode duvidar da sua genialidade. Mas há filmes e filmes. Um realizador pode ser bom, brilhante até. Mas precisa de algo que o leve até ao Olimpo, um filme que faça de si imortal. Million Dollar Baby pode fazer isso por Eastwood. Pelo menos consagra-o como o melhor realizador vivo, e não apenas como melhor realizador do ano, que o é obviamente.
Todo o conflito interno das brilhantes personagens do filme, toda a naturalidade como a história flui, todos os momentos de tensão dramática, todos eles têm a marca de Eastwood. São como um murro no estomago. Secos e duros. Profundos e arrasadores. O homem não precisa de malabarismos visuais ou de efeitos que não o seu próprio olho clinico. Por isso nos seus filmes não há piruetas ou algo do genero. Há trabalhos fotográficos fortissimos ou bandas sonoras subtis. É isso que lhe dá o titulo do "último dos clássicos". É isso que o faz tão grande.
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Falar de Million Dollar Baby é também falar do outro Clint Eastwood, o actor. Aquele que começou há quarenta e poucos anos a representar nos spaghetti-western e nos filmes de acção, e que hoje é um encarna personagens das quais gostamos tanto, que pouco importa que sejam despromovidas na hora de representar de maneirismos (ver Ray) ou complexos internos sem solução (ver The Aviator). Os únicos problemas que as suas personagens têm passam pela consciência, e é isso que o faz ser tão parecido com o homem comum. Além do mais ele não grita, esperneia ou tem ataques de qualquer especie. Chora sim, mas quando ninguém o vê porque é assim que muitos o fazem. Teme, ama, ajuda quem precisa ou luta pelos que ama, mas de uma forma extremamente natural, e portanto, credivel. Eastwood é hoje provavelmente o actor que melhor domina a técnica do "under-acting". Há quem diga que só o "over-acting" dá óscares. Este ano parece provar isso já que Foxx deverá vencer a estatueta dourada sem problemas. Mas ninguém pode dizer que o "under-acting" não merece óscar. Porque merece, e talvez mais do que o explosivo estilo de tantos actores que se lhes pedirem para conter uma lágrima provavelmente vão mostrar-se incapazes de o fazer.
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Quem também brilha - e em grande - é a mais que provável vencedora do óscar de Melhor Actriz. Pela segunda vez Hilary Swank interpreta uma jovem rapariga pobre e sem grandes esperanças de um futuro brilhante. Num caso (Boy´s Dont Cry), ela procura a solução na sua transformação progressiva num homem. Aqui é o boxe que se apresenta como a única janela aberta para uma vida melhor. O que é mais curioso é que a própria Swank é como estas duas personagens. Também ela, tal como Maggie Fitzegerald, cresceu numa roullete, sem dinheiro para comer todos os dias e a trabalhar para sobreviver desde muito cedo. Na vida real foi o cinema quem a tirou da pobreza. Em MDB é o boxe que faz isso por ela! Talvez seja por causa disso que a performance de Swank surge de forma natural, como se ela tivesse feito aquilo toda a vida. E não é a sua transformação fisica e a forma notável como luta que fazem da sua performance, uma das melhores do ano. É a intensidade e naturalidade com que interpreta. Lá mais para o final do filme - cujo final não será desvendado, como o próprio Eastwood pediu aos criticos - é uma outra Swank, mais humana e também mais angelical, por muito contraditório que isso possa parecer.
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Tal como Eastwood e Swank, não conseguimos ficar indiferente a Scrap, a personagem construida com a habitual subtileza e humanidade que Morgan Freeman é capaz. Uma personagem que funciona como narrador e também como elo entre o universo escondido da personagem de Eastwood e a vontade de vencer de Swank. É uma especie de consciência ambulante, que nos guia os olhos da forma mais natural e poética possivel.
E que dizer do jogo de escuridão que a fotografia de MDB consegue? Que dizer dos planos do ginásio durante a noite onde as personagens vagueiam quais sombras com contas a ajustar com Deus? São pormenores como esse - nota igualmente para a lindissima banda-sonora e o notável som do filme - que fazem deste um filme "bigger than life". Depois basta ter alguém que consiga gerir todos estes diamantes à procura da lapidação certa para fazer um filme tão espantoso como este.
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Sair de Million Dollar Baby com uma lágrima no canto do olho é perfeitamente justificável. Acontece a qualquer um. Talvez, depois das duas horas de filme que correram à nossa frente, seja a coisa mais natural do mundo. Eastwood cria aqui um episódio fascinante. Um filme que podia ser sobre boxe mas que não o é. É sobre pessoas, sobre ideias e sobre as dificuldades da vida. É sobre todos nós.

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O Melhor - Tudo, este é um filme sem pontos menos bons. Desde os gags que vão pontuando a acção, a cada uma das personagens, sem esquecer todos os aspectos técnicos, este é um filme a roçar a perfeição.

O Pior - Nada. Absolutamente nada!

Curiosidade - A personagem de Swank é em tudo semelhante à vida da própria actriz. Talvez essa grande similiaritude possa fazer com que a jovem actriz conquiste o seu segundo óscar. Pelo menos ajudou a fazer do filme uma obra notável.

Site Oficial - milliondollarbabymovie.warnerbros.com

Realizador - Clint Eastwood
Elenco - Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freaman, ...
Produtora - Warner Bros.
Duração - 127 m
Classificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 17, 2005 10:13 PM

Comentários

Grande, grande, grande filme. Uma lição de vida, um filme que nos marca, uma obra de arte.

Publicado por: Nelson às março 16, 2005 09:50 AM

Aqui chega um filme de que estava completamente à espera! Uma obra-prima que raramente se vê. Visto que os Oscares principais vieram para esta película por alguma razão teria sido. Uma obra-prima!

Publicado por: Jorge às março 15, 2005 07:40 PM

Para mim foi inquestionavelmente o melhor filme que vi nos últimos tempos. Depois do excelente Mystic River, Eastwood conseguiu fazer o que muito poucos acreditavam: fazer uma obra-prima de superior qualidade. À semelhança do que aconteceu com Imperdoável, foi emocionante (re)ver o realizador com dois Oscars na mão. Apesar de apreciar imenso o trabalho de Scorcese, sobretudo o realizado até Goodfellas, o Marty mereceu ser vencido pelo Clint. Com 74 anos o homem parece ainda capaz de nos continuar a surpreender. Por falar nisso, alguém me sabe dizer quem vão ser os protagonistas do seu próximo filme sobre a 2ª guerra mundial?

Publicado por: Ricardo às março 12, 2005 10:45 PM

Maravilhoso. Clint Eastwood no seu melhor. Simplesmente delicioso. Como o consegue um filme de boxe?? Temos Clint. (Graças). Um elenco muito bem escolhido (embora ñ concorde totalmente com a vitória do óscar de Swank - aceito. Por estranho que pareça é mais uma filme sobre vidas, relacionamentos, crenças e afectos do que propriamente sobre boxe. Mereceu cada um dos elogios ganhos. Sem dúvida o filme mais bem feito do ano. Dado adquirido. Plena vitória de Clint. Aplaudemos.

Publicado por: M. M às março 8, 2005 08:53 PM

Fui ver ontem. Concordo em absoluto com tudo o que dizes. Um filme excelente, em que o boxe é realmente acessório, que fala de pessoas e de emoções. Se há um murro, ele é no nosso próprio estômago. Desconhecia a curiosidade da personagem de Swank ser semelhante à vida da própria actriz. Isso não invalida, mas talvez justifique (em parte) o magnífico desempenho. And the winner is...

Publicado por: Ana às fevereiro 27, 2005 11:42 AM

Caro Rodrigo, obrigado pelas suas palavras. A expressão "manipulador de sentimentos" era tudo menos pejorativa para o trabalho de Clint Eastwood. Pelo contrário. Serve para valorizar a forma como ele hoje consegue jogar com o papel dos sentimentos num filme, algo que muitos realizadores já trocaram por frases fortes e efeitos especiais. De facto não há um filme seu que nao tenha grande intensidade dramática a nivel de emoçoes e sentimentos. Este, e talvez Mystic River, acima de todos!
um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 19, 2005 02:05 AM

Caro Miguel,

Vi o filme Menina de Ouro (título de Million Dollar Baby no Brasil) e tive as mesmas impressões que vc. Realmente não caiu somente uma lágrima dos meus olhos, mas várias. Porém, isso não significa que o magnifico "The Clint" seja manipulador de sentimentos, pelo contrário, a crueza com que conta essa bela história de superação e sonhos é um dos pontos positivos do filme. Realmente, um belíssimo trabalho que marcou minha vida. Parabéns pelas palavras sobre o filme e pelos 20000 acessos alcançados pelo seu blog.

Abraços
Rodrigo

Publicado por: Rodrigo às fevereiro 18, 2005 03:28 PM