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fevereiro 25, 2005
Sideways - Glória ao cinema indie
É dos generos cinematográficos mais desvalorizados mas é também um dos melhores. Um contra-senso que se explica nos gostos do público e nos preconceitos da critica. Felizmente Sideways agradou a gregos e a troianos. O que é natural já que se trata de um belissimo filme, um dos melhores do ano que findou.
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O argumento é delicioso. As performances do mais alto nível. A realização é arrojada e extremamente confiante. Toda a máquina de produção funciona às mil maravilhas. Às vezes as pessoas vêm um filme indie e ficam admiradas. Nunca pensariam que pudesse ser tão bom. Mas quando se tem isto tudo, como Sideways tem de sobra, que resultado é que se pode esperar se não este?
Sideways não é Lost in Translation. A diferença entre os dois não poderia ser maior da diferença de um Pinot para um Chardonais, de acordo com Miles. Ou de uma loira para uma asiática de acordo com Jack. Mas são ambos a prova viva de que há uma forma de fazer cinema completamente diferente da corrente mainstream, com muito mais qualidade e muito menos custos. E numa arte que é também uma industria, isso pode vir a fazer toda a diferença.

Uma outra semelhança que ambos os filmes têm, é o de terem jovens realizadores prontos a experimentar novas formas de conquistar o seu público. Depois dos sucessos que foram Election e About Schmidt, o jovem e carismático Alexander Payne decidiu fazer um novo road-movie que não é um road-movie. Decidiu fazer um filme sobre vinho que não é sobre vinho. Ou seja, decidiu arriscar tudo o que tinha nos cavalos com menos hipóteses de ganhar a corrida. Mas ganhou-a. O filme não começa muito bem, confessamos. Demora um pouco a ganhar a dinamica e o ritmo pretendidos. Mas como um vinho melhora com a idade, também o filme evoluiu com o tempo. As personagens também foram crescendo. O Miles que vimos no primeiro plano não é o Miles que vemos no último. Houve uma fase de crescimento que deu vida ao filme, e que só poderia ser interpretada daquela forma pelo grande - e subvalorizado - Paul Giamatti. O mesmo acontece com Jack, igualmente interpretado na perfeição por Thomas Haden Church (um ano em que três actores secundários se apresentam como justos vencedores do óscar só pode ser um bom ano). E é nesse crescimento emocional que Sideways se destaque de outros indies. E se afirma perante a critica - que se rendeu ao filme - e diante do público - que aplaudiu o trabalho de Payne e companhia.

Já falamos sobre Giamatti e Haden Church um pouco, mas convém esclarecer três pontos. O primeiro é o da ausência de Giamatti na corrida ao óscar. A verdade é que este é um ano em que pelo menos doze actores mereciam estar no lote dos eleitos e alguém tinha de ficar de fora. A fava calhou - entre tantos outros - a Giamatti. Infelizmente foi pelo segundo ano consecutivo. Talvez a razão principal seja a sua personagem. O cinema tem o condão de fazer - aos olhos dos mais moralistas - com que os individuos mais desagradáveis, imorais ou irritantes, pareçam os tipos mais porreiros do mundo. Isso acontece com Miles. Um homem que rouba a mãe sem piedade, que mente, que se embebeda com facilidade, não é uma personagem muito apelativo. E isso nota-se. Mas o truque nestes casos é a forma como se interpreta. E Giamatti fá-lo muitissimo bem, fazendo mesmo com que os calcanhares de aquiles da personagem passem para segundo plano. Um outro ponto para Thomas Haden Church. É uma das revelações do ano, disso não há duvida. A forma como vive Jack - outro personagem imoral - é sublime em todos os aspectos, não só quando surge como conselheiro de Miles como também quando se transforma no "macho" do grupo. Se vencer o óscar poderá dizer-se que é justo e não é. Tudo por causa da concorrência.
Por fim uma pequena nota para o restante elenco. Sandra Oh vai muito bem no seu papel, fazendo tudo de forma muito certinha mas sem grande sentido dramático. Ao contrário de Virginia Madsen. A sua beleza irradia o ecrãn, e a sua suavidade tornam-a a luz do filme. As cenas - que são poucas - em que entra, são das mais tocantes de todo o filme. Não precisa de falar para mostrar o que sente e isso é um truque que só os melhores conseguem fazer na perfeição. É portanto um regresso que saudamos com alegria. Não é todos os dias que se ganha uma actriz que muitos julgavam perdida.

Apesar de ter cinco nomeações - com a vitória no argumento certa e um actor secundário na calha - este não é um filme para ser visto numa perspectiva mainstream como são os prémios. É um filme para - tal como um bom copo de vinho - ser apreciado com calma e prazer. Um filme para ser sentido e explorado. Quando a vida se parece resumir a vinho e mulheres, isso parece-nos superfulo demais para ser verdade. Sideways mostra exactamente o contrário. Às vezes o que a vida precisa mesmo é de um pouco de vinho e mulheres, para a tornar mais agradável. Mais humana. Vejam o filme, e depois pensem nisso.
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O Melhor - O filme está repleto de coisas muito boas. Mas talvez a melhor seja mesmo o argumento. Diferente, arrojado, fresco e cheio de ideias interessantes - a conta perde-se pelos dedos das mãos - ele é a trave mestre deste belissimo filme.
O Pior - O inicio do filme. Custa-nos, a inicio, apaixonarmo-nos pela aquela dupla, pelas suas desventuras, e pela sua forma de estar na vida. Nada que não seja habilmente corrigido com o tempo.
Curiosidade - A actriz Sandra Oh, que dá vida a Stephanie neste filme, é na realidade casada com Alexander Payne, o realizador. Resta saber o que Payne achou das cenas mais quentes com Haden Church. Se calhar também ele gostaria de ter partido o nariz ao actor, quem sabe!
Site Oficial - www2.foxsearchlight.com/sideways
Realizador - Alexander Payne
Elenco - Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, ...
Produtora - Fox Searchlight
Classificação - m/16
Duração - 123 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 25, 2005 01:16 AM