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fevereiro 03, 2005

The Aviator - Enquanto DiCaprio voa, Scorsese estatela-se por completo

Se este filme vencer a edição de 2004 dos óscares da Academia os verdadeiros amantes do cinema vão ter motivos para rir e chorar. Rir porque seria hilariante que um filme tão mediano pudesse ser considerado o melhor do ano. Chorar porque o realizador de culto que é Martin Scorsese, caiu no ridiculo de pedir de joelhos o óscar que já não merece. E se não fosse por DiCaprio, este filme seria o mesmo para Scorsese que Alexander foi para Stone.
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Antes de ir ver The Aviator ao cinema tive o cuidado de rever atentamente as filmografias tanto de Martin Scorsese como de Leonardo DiCaprio. E de facto, por muito espantoso que possa parecer, os caminhos são inversos. Enquanto DiCaprio tem crescido imenso como actor - conseguindo aqui o seu segundo melhor desempenho de sempre, a seguir a Catch Me If You Can - já Scorsese baixou em muito o nível elevado que manteve durante a década de 70. Se os anos 80 foram para esquecer - quem não se lembra do devaneio que foi The Last Temptation of Christ - e se na década de 90 só Casino se salva como sendo um grande filme, então podemos dizer que há quase dez anos que Marty não faz um bom filme. Mais, com as excepções que são Taxi Driver, Raging Bull e Casino, a sua filmografia é sonante em termos de nomes (houve New York, New York, The Colour of Monney, Godfellas, The Age of Inocence ou Gangs of New York) o mesmo não se pode dizer em termos qualitativos. Este The Aviator prova mesmo que Scorsese baixou a niveis tais que dificilmente pode ser considerado hoje como um dos dez mais na área de realização. O que é manifestamente uma pena.
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Mas falemos do filme. The Aviator tem tantos problemas como a mente perturbada de Howard Hughes. E isso é dizer pouco. Um filme que vive em grande medida do esforço imenso de DiCaprio que carrega, frame a frame, a narrativa ás costas num trabalho épico. Tudo o resto é paisagem. Cate Blanchett é confrangedora como Khaterine Hepburn. Não sei se Scorsese percebeu quando fez o filme mas Hepburn é inimitável. Seria mais sensato se Blanchett, em vez de copiar os tiques e expressões faciais únicos da maior actriz de sempre, tivesse tentado uma abordagem diferente. Não o fez e perdeu ela e o filme. O restante elenco secundário também não é melhor, com Alan Alda (nomeação incompreensivel), Alec Baldwin ou John C. Reilly em niveis muito baixos para o que se lhes conhece. Inexpressivos, inexistentes, inconsequentes. Só Jude Law dá vida, se bem que por breves momentos, ao seu Errol Fllyn de forma realista. Tudo o resto parece fantasioso demais. Beckinsale não é Gardner, Stefani não é Harlowe, Blanchett não é Hepburn e definitivamente, por muito boa que tenha sido a sua performance, DiCaprio não é Hughes. A diferença é que o jovem actor esforçou-se e construiu uma abordagem diferente e portanto, credivel. Se bem que um Hughes infantil aos 40 anos seja perfeitamente incoerente com a personagem.
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Há alguns meses no meu texto sobre o belissimo Tucker tentei antever um The Aviator na mesma medida. Infelizmente Scorsese escolheu o caminho oposto. Em vez de falar do homem e do seu sonho (aviação ou cinema, tanto faz) ele preferiu o homem e as suas obsessões. Primeiro isso é um engano ao espectador já que os problemas de esquizofrenia de Hughes só se começaram a manifestar a partir dos 50. A sua inclusão portanto é, como o critico norte-americano Jeffrey Wells diz, uma tentativa para ganhar o óscar. Hughes poderia ser muita coisa, mas não era um homem fraco. Nem uma criança. Pelo contrário. Era muito mais parecido com a personagem de Tucker do que com a personagem de DiCaprio. E isso já de si explica bem a razão do porquê este filme ser uma fraude.
Mais. Scorsese não consegue criar uma personagem empática. É-lhe perfeitamente impossivel a ver por uma carreira que já dura há 30 anos. Não sei se é pela sua experiência de vida, se pela sua formação cinéfila se simplesmente, por vocação. Mas nunca uma personagem sua criar empatia com o público. E Hughes é outro exemplo crasso como o era Billy the Butcher em Gangs. Por muito bom que seja o desempenho, a personagem é podre por dentro. Já o era Travis Bickle, Jack LaMotta ou Jesus Cristo. E tentar construir um filme cheio de glamour (o decor e o ambiente dos anos dourados de Hollywood isso indica) á volta de uma personagem com quem, por causa da abordagem traumática, não se consegue gostar, é dar um tiro no próprio pé.
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Scorsese não é um mau realizador. Nem poderia ser. Mas não é um génio, nunca o foi e nunca o será. Os seus filmes o provam e The Aviator confirma-o. Apesar de uma montagem muito bem conseguida (as sequências de ecrãn divididos ou os planos dos céus são os melhores do filme) e de uma direcção artistica bem planeada o filme não tem intensidade dramática. Nunca tememos pelo sucesso de Hughes, nunca sentimos pena pelo fim da sua relação com Hepburn, nunca sentimos vontade - ao contrário do que acontece na filmografia de Clint Eastwood - de dar-mos um abraço ao personagem em apoio. Os anti-herois de Scorsese são demasiado "antis" para serem "herois". E se, em termos técnicos (exceptuando a fraca fotografia e a inexistente banda-sonora) o filme não compromete, é na sua alma que o filme está condenando desde o principio. O argumento - uma injustiça se bater Eternal Sunshine - é fraco, com lacunos por preencher e centrado á volta de duas mentiras (para além do antecipar em vinte anos a obsessão de Hughes, também a sua relação com Hepburn é extra-polada ao máximo, ao contrário do que aconteceu na realidade) que não convencem nada nem ninguém. Isso é muito pouco para "o filme do ano". É muito pouco para "um dos maiores realizadores de sempre e o melhor no activo" como já vi aí apregoar. E é muito pouco para qualquer amante de grande cinema.
Scorsese é um cinéfilo e conhece os clássicos. Ambiciona chegar lá mas nunca consegue. Os seus filme sonham alto mas nunca voam o suficiente para alcançar as estrelas. Em The Aviator o jovem DiCaprio mostra que sabe voar. Mas Martin Scorsese volta, mais uma vez, a perder o controlo do avião, estatelando-se por completo no chão. Mais uma vez!

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O Melhor - A performance de Leonardo DiCaprio. Ele não é um Hughes credivel, mas é um Hughes esforçado. A sua dinâmica é louvável e se não fosse por ele, este era um filme fraco. Não é performance digna de óscar, mas não seria um escandalo se vencesse. Infelizmente isso só acontecerá numa noite de glória do filme, o que não é desejável, a bem do cinema.

O Pior - Martin Scorsese pois claro. Já foi grande mas esses dias já lá vão. Não é dá agora. É desde Casino o que perfaz uma baliza temporal de 10 anos. Scorsese deixou de fazer cinema. Agora faz filmes para vencer o óscar porque tanto desespera. Não o merece. Já o mereceu. Se Martin Scorsese vencer o óscar, será uma das maiores injustiças na história da sua categoria nos últimos anos.

Curiosidade - O filme permite-nos recordar os dias de glória de Hollywood onde encontramos personagens miticas como Errol Flynn, Louis B. Mayer, Ava Gardner ou Katherine Hepburn. Em jeito de brincadeira, Scorsese quis-se juntar a este grupo fazendo um cameo de voz na sequência da projecção de Hell´s Angels.

Site Oficial - www.miramax.com/aviator

Realizador - Martin Scorsese
Elenco - Leonardo diCaprio, Cate Blanchett, Alec Baldwin, ...
Produtora - Miramax
Duração - 170 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 3, 2005 11:15 PM

Comentários

Na boa Tiago...a verdade é que o Scorsese mereceu o óscar em 76 mas isso ja la vai e nao é certamente agora que o merece...pelo menos nao pelas suas ultimas obras..se ele fizesse uma obra prima agora, claro que o merecia tanto como qualquer outro...o problema é que já nao vejo um grande filme dele há 10 anos...e isso nao é justificaçao para lhe dar o óscar...ex: ainda nao vi o Morgan Freeman, outro injustiçado da Academia, e é provavelmente o vencedor sentimental...mas o Clive Owen é que merece - repito, ainda nao vi o Freeman, porque até pode merecer - vencer o óscar...Hollywood tem a mania das compensaçoes com as quais eu nao concordo...por isso a minha posiçao é esta...e pessoalmente acho o Scorsese o mais sobrevalorizado dos movie-brats...que saudades que tenho do Copolla...ainda bem que há a Sofia...;-)
abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 6, 2005 01:24 AM

Desculpa pela confusão Miguel.

De facto tu disseste que Marty não faz um grande filme desde Casino, há dez anos. Logo não estás a incluir Goodfellas ou Cape Fear.

Mas também é verdade que disseste o seguinte:

"(...)a sua filmografia é sonante em termos de nomes (houve New York, New York, The Colour of Monney, Godfellas, The Age of Inocence ou Gangs of New York) o mesmo não se pode dizer em termos qualitativos."

E com isto não concordo, pelas razões que já referi.

Desculpa lá pela confusão entre podre e pobre.

Depois destes esclarecimentos gostava de reforçar a minha poisição de que Marty é um realizador que ainda tem muito a dar ao mundo do cinema. Quanto ao Oscar é uma das pessoas mais injustiçadas da história e o facto de fazer ALGUNS filmes tendo em vista ter reconhecimento da Academia não me pareçe muito grave, pois acredito que há muitas pessoas que se sentem na sua posição e que desejam ardentemente o Oscar. E isso não faz com eu as veja com outros olhos.

Bom, mais uma vez desculpa pela confusão e bom cinema. ;)

Publicado por: Tiago Teixeira às fevereiro 5, 2005 01:06 PM

Tiago calma...

em relaçao ás personagens eu disse "podre" e não "pobre"....elas pobres nao sao certamente...agora em termos morais e de empatia com o publico, sao-no podres pois claro...

E se eu digo que o Scorsese nao faz um bom filme há 10 anos...desde o Casino, o que tem o Godfellas e o Cape Fear a ver com isso, ja que sao anteriores...depois do Casino ele fez o Kundun e o Bringing Out the Dead que sao fraquissimos e a tremenda desilusao que é o Gangs...nada mais..

Em relaçao ao oscar nao sou eu que o digo...qualquer critico de cinema norte-americano dir-te-á a mesma coisa...ele quer desesperadamente um oscar e desde The Age of Inocence que se tem academizado nesse sentido...claro que ja foi um grande realizador mas ja nao o é...um grande jogador é-o enquanto está em grande, se decai deixa de o ser...quando parar, entao sim, a historia lembrá-lo-á pelo que de melhor fez e muitos dirao que é um genio...eu nao diria tanto...um dos melhores de sempre...o que discordo por completo...mas isso cabe á história dizer...agora dizer isso por dizer, agora, especialmente quando ele proprio está em queda ha mt tempo, nao tem logica...
um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 5, 2005 03:39 AM

Bem Miguel, eu não vi o filme The Aviator mas há muita coisa na tua crítica com que eu não concordo, de todo diga-se.

Aqui estão as frases que mais me chocaram:

"Martin Scorsese (...) já foi grande mas esses dias já lá vão. (...) Scorsese deixou de fazer cinema. Agora faz filmes para vencer o óscar porque tanto desespera. Não o merece. Já o mereceu."

Eu não podia discordar mais com o que afirmas. Quanto a mim Martin Scorsese continua a ser um dos melhores realizadores do mundo. Já vi bastantes filmes da sua filmografia e admito que os meus filmes preferidos da sua carreira já são algo "antigos": Taxi Driver (1976) e Raging Bull (1980).

Mas daí a dizer que Scorsese já não faz cinema e que filma para ter o Oscar na mão acho que é injusto e exagerado. Scorsese continua a filmar com uma vitalidade, garra e mestria que não se vêm em muitos realizadores em todo o mundo. É um génio do cinema moderno. E não precisa de receber o Oscar para estar na lista dos melhores realizadores norte-americanos de sempre. Está lá por mérito próprio.

"Se os anos 80 foram para esquecer - quem não se lembra do devaneio que foi The Last Temptation of Christ - e se na década de 90 só Casino se salva como sendo um grande filme, então podemos dizer que há quase dez anos que Marty não faz um bom filme."

Scorsese não faz um bom filme há quase dez anos? Como assim?! Marty já fez grandes filmes nos últimos anos: para além de Casino (1995), fez esse grande filme de gangsters chamado Goodfellas (1990) e esse épico moderno de nome Gangs of New York (2002). E atenção que eu não vi Cape Fear (1991), para alguns cinéfilos um dos seus melhores filmes.

"Por muito bom que seja o desempenho, a personagem é podre por dentro. Já o era Travis Bickle, Jack LaMotta ou Jesus Cristo."

Tu estás a dizer que Travis Bickle, uma das mais complexas, aterradores e magnetizantes personagens da história do cinema é pobre por dentro? Pobre em que sentido?! Bickle tem uma das mais intrigantes personalidades que alguma me lembro de ver na personagem dum filme. E quanto a LaMotta, também é pobre? Estás a falar desse fabuloso ícone do cinema de Scorsese, que não sabia distinguir o ringue do palco da vida? Não acredito que estejas...

Contudo não discordo com tudo o que dizes e como não vi o filme só posso falar de algo que escreveste e que subscrevo por inteiro: Leonardo Di Caprio está melhor que nunca, no auge da sua carreira. Infelizmente por ter boa aparência, à semlhança de outros bons actores (Tom Cruise ou Brad Pitt=, é injustamente subvalorizado.

Já escrevi tudo o queria escrever, o que não foi pouco. Parabéns pelo blog. ;)

Publicado por: Tiago Teixeira às fevereiro 4, 2005 09:52 PM