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fevereiro 23, 2005

The Merchant of Venice - Um Shylock inesquecível num filme sofrivél

Pegar numa das mais deliciosas peças de William Shakespeare e fazer dela um grande filme é extremamente dificil, tanto pela complexidade dramática como pela ambiência da época. Mas o que se vê neste filme é que essa tentativa nem foi feita já que tudo o que vemos é uma peça de teatro filmada sem coração ou ritmo que se note. Claro que tudo fica para segundo plano quando entre em cena Al Pacino, mas seria pedir demais fazer um filme melhor?
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É pena que uma das mais interessantes peças de William Shakespeare tenha conhecido uma adaptação tão sofrivel ao cinema. Ao longo do filme - tirando a cena do tribunal, mas lá iremos - não há alma, dinâmica nem ritmo que nos entusiasme. O oposto do que William Shakespeare quereria!
A estrutura narrativa de Merchant of Venice - dividida em três - era dificil de adaptar, é certo, mas mesmo assim esperava-se muito mais de Michael Radford, conhecido pelo seu filme Il Postino. Não fosse pelo seu elenco e este filme seria uma nulidade. Não fosse por Al Pacino e este filme seria mediocre. E o mais estranho é que se fosse uma peça e não um filme, teria um impacto muito superior ao que teve. Isto porque Radford não conseguiu perceber as diferenças do que é copiar o modelo de uma peça ao cinema, e adaptar uma peça ao cinema. Por exemplo, Closer é uma peça. Mas tambem é um filme. Em ambos os casos é brilhante. Porque não acontece o mesmo aqui? Porque o realizador foi um erro de casting. O único, é certo, mas um erro que impediu o filme de crescer em todos os aspectos.
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Vão-se os aneis, ficam os dedos! Sem nada mais que os actores - a base de qualquer trabalho shakespeariano é o trabalho de actor - o filme vai vivendo dos rasgos de génio de Al Pacino, da presença de Joseph Fiennes e Jeremy Irons, ou da enorme beleza de Lynn Collins.
Comecemos por ela. Uma actriz practicamente desconhecida, vinda do Texas, consegue encarnar Portia com uma segurança praticamente inabalável. Aliando a sua beleza, sensualidade e saber estar nas cenas a solo, e a sua sobriedade e intelegência quando deixa por instantes o papel de Portia para encarnar o de juiza, ela é uma luz ao fundo do tunel neste filme. E uma esperança para o futuro.
Joseph Fiennes e Jeremy Irons não poderão lembrar-se deste filme como um dos seus melhores. Especialmente Irons, um dos grandes actores britânicos de sempre que tem aqui uma performance extremamente apagada, culpa também da realização que o atira para um segundo plano incompreensivel. Por sua vez Joseph Fiennes - reaparecido após anos de ausência - está confortável no seu papel mas não consegue passar de um nivel mediano, ao contrário do que prometia no final dos anos 90.
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No entanto vale a pena ver este filme para poder-se assistir ao notável desempenho de Al Pacino como Shylock. Uma das personagens mais intrigantes e apaixonantes da bibliografia de William Shakespeare, num papel que até esteve para ser de Dustin Hoffman, a verdade é que o Shylock de Pacino é a chave deste filme. Tanto nas cenas mais dramáticas e explosivas - "if we bleed, do we not cry?" - como nas cenas mais simples e rotineiras, o actor comanda a acção com uma garra inolvidável. Um verdadeiro show de interpretação, de over-acting, num dos melhores papeis do ano.
E o ponto alto da sua performance chega exactamente na única sequência de cenas do filme que fogem à mediocridade. A cena do tribunal consegue ser bem dirigida, notavelmente interpretada e a reviravolta no guião bem explorada. Mas é uma mera ilha num oceano de vazio de emoções.
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Esperava-se mais de um dos filmes que mais encantou o Festival de Veneza na edição deste ano. Esperava-se mais garra, mais emoção, enfim mais da fórmula inicialmente aplicada pelo maior dramaturgo da história. No final ficamos apenas com Al Pacino num dos seus melhores desempenhos de sempre e pouco mais. Muito pouco para algo que podia ser tão grande.

Classificação - MerchantofVenice.gifMerchantofVenice.gif


O Melhor - O desempenho de Al Pacino como Shylock é dos mais memoráveis de 2004. Sem duvida alguma!

O Pior - O fracasso do filme acenta em Michael Radford. O realizador nunca consegue dar a ideia de estar a fazer um filme sobre The Merchant of Venice. A verdade é que se encontra demasiado preso aos canônes tradicionais do teatro shakespeariano para lhe dar vida. Nada que se compare a um Hamlet de Olivier, McBeth de Wells ou o Henry V de Branagh.

Curiosidade - O actor Joseph Fiennes é um especialista nos palcos londrinos em papeis shakesperianos, tal como sucede neste filme. Mas ele é até hoje um dos pouqissimos actores que deram vida ao próprio William Shakespeare. Foi no filme Shakespeare in Love que acabou por ser eleito o melhor filme de 1998.

Site Oficial - www.sonypictures.com/classics/merchantofvenice

Realizador - Michael Radford
Elenco - Al Pacino, Joseph Fiennes, Lynn Collins, Jeremy Irons, ...
Produtora - Columbia
Duração - 138 mClassificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às fevereiro 23, 2005 01:19 AM