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março 18, 2005

Beyond the Sea - Bobby merecia melhor...

Kevin Spacey prova com este filme três coisas. A primeira é a de que é um actor intemporal, capaz de dar vida a personagens datadas com a maior das naturalidades. A segunda é a de que a sua admiração por Bobby Darin e pela sua música é a alma do seu projecto. Infelizmente a terceira é que não há muito mais do que alma neste biopic...
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Depois de realizar Albino Alligator fico uma especie de vontade de voltar a ver Spacey atrás da camara. Já consagrado como actor, com performances magnificas numa mão cheia de filmes e já com dois óscares no bolso, era interessante voltar a vê-lo atrás da camara. E nesse aspecto ver Beyond the Sea é uma excelente experiência. O filme tem ideias brilhantes e muito bem aplicadas. E o toque suave da camara é feito de forma tão subtil como brilhante. O único problema é que na verdade, se formos realmente honestos, não há aqui nada para contar. Bobby Darin era um excelente interprete, um dos melhores da sua geração. Deu vida a algumas das mais emblemáticas canções de sempre. Mas não é personagem de filme. Falta-lhe muito para isso. Falta-lhe profundidade dramática, alma, momentos de emoção. Apesar de ter uma história aparentemente filmável - só muito tarde na vida descobre que a sua irmã é na verdade a sua mãe, esteve condenado à morte desde os 10 anos, viveu um dos mais badalados casamentos da sua época - ao ver o filme ficamos como uma ideia perfeitamente banal da sua personagem. O que é imensamente triste porque nota-se bastante o empenho e a alma de Spacey e de todos os que deram vida a um projecto já com 15 anos.
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O filme é um falso biopic, na medida em que muitas das cenas, factos e personagens surgem de forma adulterada em relação à realidade. Isso é dito no final do filme. Deveria ter sido anunciado no início. O público não gosta de se sentir enganado, e quando vai ver um filme sobre Bobby Darin, acredita que é um filme sobre ele, sobre a sua vida e sobre o que se passou com ele. Ora se há cenas e momentos - que não são revelados por ninguém, o que torna tudo ainda mais confuso - que não são verdade, torna-se complicado distinguir o real do falso. Mas nem é por aí que o filme mais peca. É mesmo pela falta de substracto das personagens e da história. Sandra Dee - recentemente falecida - é uma personagem oca que muda de opinião de um minuto para o outro sem se perceber. E o próprio Darin - interpretado brilhantemente por Spacey - confunde-nos um pouco. Umas vezes balança para um lado outra vez atira-se para o outro. Em que é que ficamos?
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Kevin Spacey é que está irrepreensivel. Atrás e em frente da camara. Se a sua realização é muito bem conseguida e com notáveis planos - a ideia de contar a história dentro de uma história é muito bem vista mas muito mal aproveitada (salva-se o plano do funeral talvez - já a sua performance é das melhores do ano. Apesar de ser dificil vê-lo igualzinho entre o Darin dos 20 e dos 37 anos, e não notar uma nota de falsidade no retrato do cantor, o seu desempenho é espantoso. Apesar de a personagem não ter alma, Spacey consegue dar-lhe uma. Algo que só um grande actor seria capaz sem dúvida alguma. E é ele o verdadeiro farol do filme. E quando canta, é como se um farol se acendesse sobre a sala. São poucos os actores que têm coragem de cantar - felizmente muitos desistem da ideia - mas ainda bem que Spacey decidiu cantar Beyond the Sea ou Mack the Knife. São temas brilhantes e interpretados ao nivel do próprio Darin.
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Em relação ao outro elenco, a verdade é que o nivel é muito mais baixo. Tirando talvez Bob Hoskins num dos seus melhores desempenhos dos últimos anos, o resto pauta-se por uma mediania confrangedora. Mesmo John Goodman e Brenda Blethyn. E especialmente Kate Bosworth que não convence ninguém como Sandra Dee. Era preciso alguém com mais do que uma carinha bonita para este papel. A maior parte das cenas com Spacey perdem metade do encanto por ser ela a representar o papel. Fosse outra e talvez a chama tivesse sido bem mais intensa.
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Com uma bela fotografia de Eduardo Serra e uma banda-sonora irrepreensivel, este biopic acaba por desiludir. Não há no fundo nada a que nos agarremos sem ser a música e a performance de Spacey. No final do filme Bobby Darin continua a não nos dizer nada para além do que já dizia. Ao contrário de Ray, em que passamos a ter uma profunda admiração pelo homem, como já tinhamos pelo músico, aqui isso não se sucede. E talvez o final seja a prova viva de tudo isto. Acabar o filme com um dueto musical entre o jovem Darin e o veterano Darin é o exemplo perfeito de falta de algo para contar. Um filme destes pedia um outro final. Mas se calhar um filme destes pedia um outro filme, completamente diferente.

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O Melhor - O genial Kevin Spacey. Só o rumor de Spacey abandonar o cinema de vez já assusta depois de voltarmos a ver neste filme que ele é um dos grandes nomes da actualidade.

O Pior - O facto de não haver história. O filme vai sendo remendado com situações da vida do cantor, mas na verdade nunca há uma história para contar.

Curiosidade - Bobby Darin foi nomeado ao óscar e perdeu de facto para Melvyn Douglas. A cena após a derrota foi filmada de acordo com os testemunhos de quem viu. Mais tarde Sandra Dee acrescentaria que a reacção, pelo que sabia, até tinha sido muito meiga comparada com a de outros derrotados. Dá que pensar depois de ver a cena. Como terão reagido outros grandes nomes da história do cinema após sairem derrotados da cerimónia?

Site Oficial - www.beyondtheseathemovie.com

Realizador - Kevin Spacey
Elenco - Kevin Spacey, Kate Bosworth, Bob Hoskins, ...
Produtora - Lions Gate
Classificação - m/12
Duração - 118 m

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 18, 2005 12:24 AM