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março 06, 2005

Fantas, que futuro?

Terminou ontem o 25º Festival do Fantasporto. E que fica na memória? Alguns filmes que aproveitaram o festival e fizeram uma ante-estreia nacional. Outros aproveitaram a onda para se afirmarem junto do público portugês. Houve ainda tempo para recuperar sucessos do passado? E que mais? Muito pouco. O Fantasporto é cada vez menos um festival de cinema e cada vez mais um local onde os admirados do cinema gore e de sci-fi se juntam. Para aquele que se orgulha de ser o maior festival de cinema em Portugal isso é muito pouco...
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Em primeiro lugar, que fique bem claro que esta reflexão não tem como intenção ferir suscptibilidades, nem dos amantes do cinema gore e de sci-fi, nem dos amantes do cinema em geral. Como é dificil alguém gostar apenas e só de um genero de cinema, a definição do amante de um genero peca por escassa. Por isso abstrai-mo-nos de ir por aí. Seria o caminho errado.

Mas falemos então do futuro do Fantas. Não que Mário Dorminsky não tenha feito um bom trabalho nos últimos vinte e cinco anos. Tem todo o mérito de ter pegado na cidade do Porto - pátria do cinema em Portugal - e através da fama que o festival foi ganhando, levá-la aos quatro cantos do mundo. Isso é um mérito que ninguém lhe pode tirar. Como também ninguém lhe pode retirar os louros de ter sido dos poucos que apostou em nomes como os irmãos Coen, Steven Soderbergh, Quentin Tarantino ou Alejadro Inarritu, na época desconhecidos, hoje nomes de culto. Mas isso, atrevo-me a dize-lo sem qualquer disprimor para o trabalhor dos dirigentes do Fantas, era na época em que havia muito e bom cinema no cartaz apresentado. Onde o cinema de terror e de ficção cientifca era intercalado com o bom cinema independente - um pouco mais alternativo do que era mostrado em Sundance que também fez 25 anos este ano - que se fazia na altura. Era talvez essa mistura que fazia do Fantasporto um local de peregrinação.

Ora isso hoje já não acontece. Tirando alguns indefectveis, a verdade é que o festival se foi fechando sobre si mesmo. O cartaz tem vindo a mostrar-se cada vez mais pobre, incapaz de corresponder às exigências de um público mais mainstream. Hoje é o cinema gore e de ficção cientifica que domina 90 a 95 por cento dos filmes exibidos. Claro que isso é óptimo para os amantes desse genero de cinema, habitualmente afastado dos circuitos comerciais. É a única oportunidade - tirando as cópias ilegais da internet ou alguns clubes de video - que os fãs dos filmes de zombies, ficção cientifica ou de terror têm a oportunidade de ver os seus filmes de eleição. Nada mais justo! Mas não nos podemos esquecer de um simples pormenor. O Fantas tem financiamento público. O Estado paga por ano a Mario Dorminsky (para organizar mas também para viajar pelo mundo fora de forma a poder escolher os filmes do cartaz) uma quantia para organizar um festival de cinema. E se é um festival pago em parte pelo Estado - e pela autarquia também, apesar de ser hoje bem menos do que já foi - devia ser um festival feito para todos e não para um público infimo. Um publico que pode encher o Rivoli mas que é uma gota de água num oceano de amantes de cinema.

Pessoalmente estou do lado daqueles que defendem uma reformulação do modelo do Fantas. Foi essa perda de qualidade no cartaz, essa viragem para o terror, que me fez abandonar as visitas praticamente diárias que fazia ao certame há alguns anos. A mim e a muitos. A ideia que predomina é que o Porto tem tudo para ter um festival de cinema de eleição. Mas em outros moldes, mais ao genero do que se faz em Toronto por exemplo, para não falar no caso de Sundance. Um festival que apostasse numa tripla abordagem.

Por um lado, respeitando o público original, mantendo uma secção própria para o cinema que hoje domina o cartaz e que faz do Fantas um dos maiores festivais do cinema do genero. Por outro, criar cada vez mais espaços prontos a apoiar os jovens cineastas portugueses, independentemente do tipo de cinema que fizessem. Por vezes o que eles precisam é apenas de uma montra. O Fantas poderia ser perfeitamente esse espaço. E por fim, piscando o olho a um público farto de um cartaz com muito sangue e pouco cinema, apostar em secções com cinema mais independente, daquele que também não enche cinemas em shoppings, mas que tem também muitos amantes em Portugal. A juntar isso um projecto de revitalização dos cinemas históricos da cidade, uma aposta numa programação anual com reposições de clássicos ou a criação de meses temáticos para os amantes de cinema portugueses, e em especial do norte do país, e o projecto Fantasporto estaria a cumprir o mais perfeito serviço público que o cinéfilo poderia pedir. Ninguém perdia, todos ganhavam. Infelizmente, para já e talvez para sempre, o Fantas é hoje o festival de uma minoria dentro das minorias. Um festival cada vez mais sangrento, e cada vez menos cinematográfico.

PS: A exibição de filmes como Beyond the Sea e Sideways no certame prova que esta abordagem tem legitimidade. Afinal não ganhariamos todos se mais cinema independente chegasse ao público português? Ou só os zombies é que têm esse direito?

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2005 01:49 AM

Comentários

I went to Porto this year and I found Fantasporto a very good festival. You cannot complain about the selection of films, and of all the festivals I've gone to, Porto audience has been the most nice to see a film with. Mario Dorminsky rules one of the best festivals in Europe, and I don't really get what's the problem with the sci-fi lovers. Most festivals do have a subject. It didn't seem to me Porto was a crowd of disguised freaks just looking for an alibi to their insanity, or something. About the Rivoli, there was the problem with some discoteque or something, so the films were so loud!

etc., blah, blah, it's been my favourite festival.

Publicado por: Rosalío às abril 1, 2005 01:52 AM

Gostaria apenas de me introduzir na discussão sobre o futuro do Fantas, dizendo que fiquei desiludido com a organização da edição de 2005 e que foi a minha primeira. Como amante de cinema em geral e de filmes fantásticos em particular, era com grande espectativa que aguardava poder estar presente numa sessão do Fantas. Devido a contingências várias (um das quais ser de Lisboa) só pude assistir a uma sessão e foi com algum desgosto para com a organização que saí da sala. Infelizmente, foi ainda com maior tristeza e desilusão que recebi resposta à crítica que enviei à organização via e-mail. Acontece que assisti a uma sessão no pequeno auditório do Rivoli e pareceu-me que esta sala não apresenta as condições físicas para albergar um festival desta importância, dado que não só as cadeiras são extremamente desconfortáveis (quase que desconhece salas de cinema com tais condições) como o ambiente térmico da sala tornou quase insuportável o visionamento do filme. Por outro lado, foi com grande surpresa minha (e dos restantes espectadores) que o filme em questão apresentava a legendagem em castelhano! Segundo me constou posteriormente, este tipo de situação parece ser normal no festival. Não é que esteja contra o facto de o filme estar legendado em castelhano, o problema é que nem o programa nem na bilheteira tal facto é mencionado. Parece-me que esta situação é deplorável dado que ao público não é dada informação suficiente para poder optar ou não por assistir a um filme legendado numa língua que não o português. Na resposta a estas minhas críticas, encontrava-se uma mensagem algo prepotente e arrogante do Sr. Mario Dorminsky. Segundo este senhor eu deveria, em primeiro lugar, queixar-me aos proprietários da sala sobre as más condições e, em segundo, nem sequer devia ter ido ao festival dado que a legendagem noutras línguas é recorrente e isso é uma coisa que toda a gente sabe e portanto não é preciso fazer referência. Para um festival que se denomina dos mais importantes do género e com a importância que tem a nível nacional, não me parece a melhor maneira de tratar o público, quando no mínino um pedido de desculpas só ficava bem. Dúvido que em breve volte às salas do Fantasporto e começo a ter dúvidas se é bem empregue o dinheiro do estado que é gasto neste festival, quando o público, que é essencial para a divulgação do cinema fantástico, é tratado desta maneira. Já agora que tou numa de crítica, gostaria de acrescentar que o programa do Fantas tem erros ortográficos e gramaticais que não me lembro de ter encontrado recentemente situação idêntica em eventos da relevância equivalente.


Não que a organização seja directamente responsável por estas circunstâncias, mas deveria procurar minorá-las ou procurar alternativas

Publicado por: Hugo Cardoso às março 10, 2005 12:21 AM

Miguel, concordo plenamente com a análise que fazes do estado actual do fantas. como sabes, sou uma outsider nestas coisas do cinema, mas mais variedade no cartaz do festival significaria mais abertura. Que, como dizes, é o que se deseja de um certame financiado com dinheiros públicos. Não é possível agradar a todos, mas se for possível agradar a mais alguns, porque não? de resto, penso que é natural que, 25 anos depois, o conceito do Fantas necessite de ser reformulado, sem retirar mérito ao actual.

Publicado por: Andreia C. Faria às março 7, 2005 03:03 PM

Blacksheep, tambem faço mea culpa se te ofendi. Nao foi com intençao como podes deprender. És sempre bem vindo mesmo que a tua opiniao seja o exacto oposto da minha. Tu e qualquer outro. Este é um blog democrático e respeita a opiniao de todos os amantes do cinema. Um grande abraço.

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2005 09:15 PM

Visto ter sido mal interpretado pelo responsável deste blog, ao qual faço já um mea culpa, venho desde já repor a verdade do meu comentário, que longe de mim teve intenção de insultar ou ferir susceptibilidades, mas sim ironizar uma situação que me inquietava dada a minha opinião inversa. Antes de mais porque não só respeito e agradeço a existência de blogs como este, sem os quais cinéfilos como eu não teriam acesso a preciosa informação do mundo da 7ª arte, como o facto de diariamente responder aos comentários postados. Por último devo acrescentar que acho que o diálogo e o debate são extremamente saudáveis e que apesar de admitir que possa ter havido um exagero no comentário espero poder continuar a contar com as respostas de todos num diálogo que só faz bem e cultiva todos que nele participam. Prometendo moderar o tom das afirmações, continuando contudo exprimindo opiniões pessoais (mesmo que opostas ao moderador) contem com a minha participação activa neste blog ao qual só tenho a elogiar. Desfeitas as dúvidas desejo agora as melhores sortes para este blog.

Publicado por: BlackSheep às março 6, 2005 06:15 PM

Era óbvio que estava à espera de comentários deste genero. Se não os quisesse ler fechava as caixas de comments. Estou sempre disposto a ouvir o que os outros dizem, mesmo quando me insultam gratuitamente.
Em primeiro lugar, dentro do genero, o Fantas tem o seu mérito junto do meio. Mas isso é uma gota de água num imenso oceano. E não falo apenas do cinema gore, um parente mais afastado do cinema fantástico que encontra no festival um cantinho de exibição. Agora subsidiar um festival nestes moldes é algo que não concordo. Como nao concordo com finaciar estádios de futebol para que os adeptos de um só clube possam usufruir de optimas condiçoes ao longo do ano. Se o dinheiro vem de todos deve ser usado para todos. Por isso a haver um festival de cinema financiado com dinheiros publicos, esse festival deveria falar a todos. Mesmo deixando de fora o cinema pipoca e algum cinema mainstream (nem todo chega cá, especialmente se nao é feito nos EUA), nao sao muitos os outros generos que vemos representados no Fantas. Nao ha o cinema indie na sua expressao maxima, tirando algumas excepçoes. Nao ha o cinema documental - que tambem é cinema. Nao ha o cinema alternativo, afastando da ideia ligada ao sci-fi. Nao ha cinema noir na sua verdadeira essencia. E devia haver.
Nos seus moldes o Fantas é um sucesso e nao sou ninguem para o contestar. Se nao fosse, o Rivoli nao tinha enchido nestes ultimos dias. Mas eu gostava que o festival - uso o Fantas por ser o melhor e mais bem organizado dos festivais como podia pegar no FESTROIA, no IndieLisboa ou no Festival de Vila do Conde - fosse mais do que isso. O publico do Fantas nao tem de se sentir insultado. Percebo que gostem do modelo actual e que o queiram ver por muitos anos. Agora percebo tambem que muitos queirma mais do que é oferecido. Ja fui muitas vezes ao Fantas para conhecer os moldes do programa. Mas ha muito que deixei de ir porque as obras menos ligadas ao fantástico deixaram de ter o seu cantinho como tiveram antes (Blood Simple, Sex Lies and Videotapes ou Reservoir Dogs) nao têm nada de fantástico. É esse cinema que reclamo para um festival no Porto. Mesmo que paralelo ao Fantas.
um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2005 03:35 PM

Não concordo nada contigo. O Fantasporto não é, especialmente agora um festival de minorias. Pode ter um cartaz e uma selecção discordante, mas porque tem que se agradar a todos. E reparo que tu não entendes o festival. Vou-te explicar:
Filmes como o Sideways ou como o Constantine passaram na primeira semana do Fantas, e ainda n estavam a competição. Passaram no horário de primeiro filme da noite, durante a semana não competitiva do festival, juntamente com retrospectivas de filmes que fizeram história no Fantasporto. A competição começou, verdadeiramente, no dia 25, com a exibição do Saw. Para público um pouco comercial. Mas antes deu Old Boy, que só venceu Cannes. E filmes como Vital, My Mother the Mermaid, Les Revenants, Nothing ou Firecraker dão uma panorâmica geral do Festival. E são filmes do cinema fantástico. Porque o festival é de cinema fantástico, e não desse cinema independente que quererias ver. Não é. E não o é à 25 anos. Agora a parte do sangue é que não. De facto, existem filmes gore, que fazem as delícias dos espectadores em sessões da 01:00, e que estão sempre cheias. Mas não é sangue concerteza que encontramos em Vinzent, do futuro David Lynch, o alemão Ayassi. Nem na vinda de grandes nomes do cinema como John Hurt ou Guillermo del Toro. Nem em tantos outros filmes que fazerm parte deste Festival de cinema FANTÁSTICO. E quanto ao dinheiro que é atribuído, e que (na tua opinião), não leva a que seja feito um festival para todos. É verdade. Porque não tem cinema mudo nem documental. Mas tem todos os outros géneros, ditribuídos proporcionlamente, mas com maior incidência no cinema fantástico. Convido-te, por isso, a apareceres no Rivoli no próximo ano, mas entenderes melhor o festival.

Publicado por: Ricardo às março 6, 2005 12:28 PM

;)

P.S. Descuçpa os erros, é da hora :)

Publicado por: golfinho às março 6, 2005 03:03 AM

Convém antes de mais mostrar, que estou consciente que as velocidades das transmissões sinápticas varia de pessoa para pessoa e que nem todos tem a mesma capacidade de raciocínio, é um facto de que estou plenamente consciente, contudo é por demais evidente que o senhor Miguel Lourenço Pereira tem um défice de atenção, para o qual eu gostava de chamar a atenção. Em primeiro lugar realçar a qualidade internacionalmente reconhecida do festival de cinema FANTASPORTO e em segundo lugar, acima de tudo, realçar a definição desse mesmo festival, CINEMA FANTÁSTICO, não querendo de maneira nenhuma menosprezar a legitima opinião de ninguém, eu, como amante do cinema (de todo o género) devo dizer que, da pouca experiência no ramo, só tenho a elogiar e a agradecer a este festival pela oportunidade de ver filmes “diferentes” num Rivoli constantemente cheio (mas segundo alguns é um cinema inacessível, talvez não tenham gostado do sideways)...visto que a mainstream tenho eu acesso diário em qualquer cinema convencional.

Publicado por: BlackSheep às março 6, 2005 02:56 AM

Em primeiro lugar obrigado pelo elogio. A tua ideia é bastante interessante. Vou pensar nisso! Um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às março 6, 2005 02:44 AM

Miguel,

porque não crias uma mailing list do teu blogue?
ou notificações automáticas a partir do mecanismo que o MT3.11 te disponibiliza? Eu subscrevia! Muitas pessoas também, presumo.

Por ex. recebia as actualizaçoes do xupacabras e ainda recebo do 7650fotoblog. O que tu fazes é bom demais, e é para ser lido todos os dias, mas como?
Se se receber via mail, lembramo-nos.

Um avraço.

Publicado por: golfinho às março 6, 2005 02:42 AM