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março 24, 2005

O som nos filmes mudos

Como já se disse o mudo não implicava o silencio. Aliás, raríssimas eram as vezes em que um filme era exibido em silêncio total absoluto. Desde sempre que o som esteve presente no cinema, mesmo no mudo. Só que, por uma razão ou por outra, nunca tomou a preponderância que era esperada

Os primeiros projectores inventados por Thomas Edison traziam já a possibilidade de exibir som e imagem em movimento de forma simultânea. Muitos dos primeiros filmes exibidos na exposição de Paris de 1900 eram de facto sonoros. Mas os elevados custos que implicava a instalação de aparelhos sonoros nas salas e nos estúdios adiou por um quarto de século o sonoro.
Mesmo assim o som esteve sempre presente. As exibições eram acompanhadas por um pianista (nas estreias dos filmes em grandes cinemas havia mesmo uma orquestra completa) e havia mesmo salas que atraíam o público por terem atrás da tela pessoas a dar voz aos momentos mais emocionantes dos filmes. O diálogo na altura era subvalorizado (havia ainda uma relação amor-ódio com o teatro) e os realizadores do mudo tinham apostado acima de tudo nas expressões faciais como elementos transmissores de ideias, emoções ou estados de alma. Só em casos extremos é que recorriam ao diálogo. E nesses casos utilizavam subtítulos. No entanto, a ileteracia de muitos dos espectadores era um factor a ter em conta. Por isso, quanto menos subtítulos o filme tivesse, melhor era para os estúdios.

A música que acompanhava a exibição dos filmes era sempre música bastante erudita. Por vezes os realizadores recomendavam uma determinada partitura mas era o pianista (ou orquestra) quem habitualmente escolhia o que interpretar. Ao contrário da rádio, que apostava em efeitos sonoros para ilustrar as rádio novelas e o teatro radiofónico, no cinema cabia apenas à música criar uma atmosfera envolvente ao filme. Os diálogos e os efeitos sonoros eram subvalorizados e as grandes correntes artísticas da época (Abel Gance, René Clair em França e Dziga Vertov e Serguei Eisenstein na União Soviética) afirmavam mesmo preferir assim, já que tinham mais margem de manobra na abordagem às narrativas filmicas.
No entanto, apesar da desconfiança dos artistas e das reticências dos homens de negócios, durante os vinte e cinco anos que mediram as últimas exibições experimentais de filmes sonoros e a afirmação dos “talkies”, as experiências foram continuando.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 24, 2005 09:32 PM