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março 26, 2005

Técnicas utilizadas para introduzir som nos filmes

Desde a criação dos primeiros modelos de projecção que houve sempre ensejo em deixar um lugar próprio para a difusão do som. As experiências iniciais que remontavam aos finais do século XIX utilizavam uma técnica que faria escola durante bastante tempo.

Um projector estava associado a um fonógrafo que projectava o som ao mesmo tempo que a imagem saía do mesmo projector. Isso implicava, claro está, uma perfeita sincronia entre o que se via e o que se ouvia, o que nem sempre era possível. Foi esse o maior pesadelo do Quinetoscópio de Thomas Edison. Na sua primeira versão a sincronia não foi alcançada com sucesso e da segunda tentativa, já em 1913, essa sincronia não durava mais do que 12 segundos em diálogos contínuos. Por isso o problema desde o início foi a da utilização de uma técnica que privilegiasse a total sincronia entre som e imagem. O público não estava interessado na música ou nos efeitos sonoros. Queria era confirmar se o movimento dos lábios dos actores correspondia ao som que estavam a ouvir. E se houve dois ou três casos no início do século que conseguiram essa sincronia (falhando noutros pontos) a verdade é que só a partir da metade da década de 10 é que esse efeito foi plenamente alcançado.
O modelo enunciado pelo cientista Edward Wente, conhecido como o espelho oscilográfico, foi um dos mais avançados do seu tempo.


Tecnicamente consistia na projecção do som para uma lenta através do íman do áudio. Essa lente recebe a fonte de luz reflectida no espelho oscilográfico e por sua vez envia-a para um pincel de luz que a projecta, à fonte de luz, na trilha sonora, criando-se assim o registo sonoro. A mais valia deste método era a lâmina oscilante desenhada por Wente.
A RCA , em parceria com a General Electric, desenvolveu entre 1922 e 1923 a gravação do som na película na película de imagem para que ela ocupasse apenas 1,5 mm da borda do filme de 35 mm. Dessa forma era possível manter no mesmo suporte físico um espaço conjugado de som e imagem. No entanto o Photophone, que viria a revelar-se o grande rival do Movietone, tinha um problema que se iria manter em todos os sistemas até 1933. Existia apenas uma pista de trilha única na película. Logo só se poderia ouvir um som de cada vez sob o risco de se perder a qualidade, já de si frágil. Diálogos, efeitos e música não podiam coexistir. O problema seria resolvido igualmente pela RCA com a criação de diferentes canais na película. O que é curioso é que seria esse problema que fez do cinema um espaço onde a voz tinha mais protagonismo do que qualquer outro efeito sonoro. Só filmes de autor experimentalistas negaram essa realidade optando por uma inversão dos valores sonoros. Algo que, como se sabe, não encontrou o eco pretendido.
Estas foram as duas principais técnicas à época. No entanto a estreia do sonoro junto do grande público aconteceria sob os auspícios de um outro modelo, mais imperfeito talvez e menos duradouro, mas que faria história.

O modelo Vitaphone

O modelo Vitaphone foi desenhado inicialmente nas fábricas da General Electric e comprado em 1925 pelo presidente da Warner Brothers, Sam Warner. Durante o ano o projecto foi desenvolvido nos estúdios da Vitaphone Company, recém-formada com subsídios da Warner, e estreou-se pela primeira vez com o filme Don Juan, ao permitir a substituição da orquestra de fundo por uma banda-sonora própria ao filme. Antes disso o Vitaphone tinha já “dado” som a inúmeras curtas-metragens.

Fisicamente o projector era enorme e extremamente desajeitado e sincronizava o filme a um disco de 78 rotações. A sua frequência rondava os 4300 Hz mas os discos gastavam-se rapidamente. Este método tornou-se extremamente popular em Hollywood. No entanto era um sistema que estava longe de ser perfeito. Tinha uma baixa qualidade de amplificação, o disco fazia imenso barulho e havia a iminente possibilidade do disco riscar, cortando assim o sincronismo entre som e imagem. Mesmo assim a Fox aproveitou-se das técnicas da General Electric e importou-as para o Movietone, enquanto que a RCA continuava fiel ao seu método, o Photophone.

O Vitaphone estreou-se em Nova Iorque com a exibição de Don Juan, mas, tecnicamente, o primeiro filme sonoro seria apenas exibido em 1927. A verdade é que o filme era pontualmente falado, sendo que o problema da trilha única tinha feito com que a música fosse o elemento de destaque. Mas só a possibilidade de ouvir Al Jonson criou uma aura de magia à volta do filme. A Warner, em plena falência técnica, recuperou com este lance de sorte. O público rendeu-se ao sonoro e nada mais seria como dantes.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 26, 2005 09:36 PM