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março 21, 2005
The Life Aquatic With Steve Zissou - O Graal está no fundo do Oceano...
Á primeira vista The Life Aquatic With Steve Zissou parece um filme um pouco ridiculo. Mas tal só acontece porque foi assim que Wes Anderson imaginou este universo sub-aquático de relações humanas, belas mas confusas, profundas mas nunca levadas ao limite.
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A ironia está constantemente presente ao longo do filme. O amor e a amizade também. A coragem, o medo, a vingança, o ódio, o desprezo...Todas as emoções humanas têm lugar neste filme. Porquê? Porque Wes Anderson joga com elas como poucos. Como? Porque Wes Anderson é um talento nato a explorar situações que à primeira vista parecem demasiado absurdas para serem levadas a serio. Mas não é preciso estar-se de fato e gravata para se ser levado a sério. Ás vezes basta uma frase, uma pose, uma atitude. Ou um filme como este.
Quando mergulhamos nas profundezas do ocenao nos planos finais do filme, somos invadidos por uma beleza visual que não é real. E no entanto é-o, pelo menos para aqueles que seguiram durante o filme a saga de vingança - que acabou por se tornar em tantas outras coisas - de Steve Zissou. O tubarão-jaguar é apenas irreal para aqueles que não acreditam. Para a tripulação ele é o culminar de uma serie de momentos de grande dramatismo, uns mais belos que outros. Mas todos eles marcantes.

Wes Anderson tem o condão de juntar poesia, teatro e romance na criação do guião deste filme. Algo que nem todos são capazes de fazer, e que a maior parte não tem coragem em arriscar. Mas arriscar é uma palavra chave na compreensão deste filme. Na ousadia dos planos - que realizador que apenas se quisesse levar a sério descreveria o seu navio de forma tão mirabolante como faz Anderson? - no tratamento da história e das suas personagens. E até mesmo na música, com um David Bowie traduzido para português, ao som da triste guitarra de Seu Jorge, que funciona aqui menos como actor e mais como encenador das diferentes fases do filme. É em Life Aquatic With Steve Zissou que percebemos que há o bem e o mal, o preto e o branco. Há Owen Wilson, a interpretar uma figura que quase roça o angelical, do primeiro momento em que surge até ao último instante em cena. E também há os terroristas filipinos a servirem de contraponto. Mas a beleza do filme é o enorme cinzento que fica no meio desta visão maniqueista. É a indefinição existencial de uma soberba Cate Blanchett. É a redenção de um presunçoso Jeff Goldblum, capaz do pior e do melhor. É a amargurada Anjelica Houston que se transforma num farol de esperança. É o inseguro Willem Dafoe, capaz de dar vida a alguns dos momentos mais belos do filme. E é também Bill Murray. E como descrever Murray? Tal como Zissou, Murray está em águas que domina bem, após anos e anos a navegar entre estreitos e conturbados mares. Tal como Zissou, afinal Murray também está capaz do seu melhor, apesar de muitos terem já vaticinado o seu fim. E é a amargura de um homem que nunca quis ser pai, mas que viveu sempre à volta de uma figura paternal - o seu companheiro Esteban - e que também foi ele próprio um pai, de forma inconsciente, para Dafoe, que ajuda a perceber o drama intenso que acompanha Steve Zissou nesta viagem.

O importante neste filme não é tanto o argumento ou todos os artificios técnicos, com que Anderson brinca como uma criança traquinas. Este filme prova que o cinema é mais o binómio realizador-actor do que qualquer outra coisa. É a intensidade de Murray, uma intensidade interior que à superficie é facilmente confundida com um sarcasmo básico, que dá o mote para Anderson ir mais além. O tubarão-jaguar (mas interessará mesmo que ele exista ou não?) de Murray e de Anderson é como um Santo Graal dos oceanos. Não interessa o que é, como é e o que custa para lá chegar. O importante mesmo é chegar, ver, e entender a sua beleza. Na cena mais bela do filme - não, não falamos do cão abandonado da praia, da continência de Dafoe a Wilson num momento de triste despedida, nem mesmo da ironia genial que Anderson faz dos festivais de cinema da Europa - nada parece real. Nem o tubarão-jaguar, nem o submarino, nem o oceano, nem a sua tripulação. O real seria completamente despropositado aqui. Este é um filme para sonhar, não para viver. A poesia visual de Anderson, coroado no momento em que todos partilham o momento de emoção com Murray, é algo que poucos realizadores conseguem. Lembramo-nos de The Royal Teenembaums e fazemos um sorriso. Murray está vivo, Anderson está vivo. O cinema está vivo!
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O Melhor - Não é o maior actor vivo ou em actividade como já li em vários sitios. Também não é preciso cair no exagero absurdo. Mas Bill Murray confirma aqui que está num grande momento da sua carreira, que com Lost in Translation levou a lufada de ar fresco que precisava. Resta saber se a afirmação definitiva de Murray como actor de um humor non-sense contido é para continuar ou se é apenas uma fase.
O Pior - Alguns dos clichés do filme, apesar de criados com esse propósito, tornam-se exagerados ao máximo. Em alguns instantes pedia-se mais profundidade e menos superficialidade. Com isso o filme passaria certamente para um outro nivel.
Curiosidade - É o primeiro filme que Wes Anderson dirige ser ter Owen Wilson como parceiro no argumento. Mesmo assim, como tem sempre acontecido, Wilson faz parte do elenco. Quem também trabalha pela terceira vez consecutiva com Anderson é Bill Murray. E olhando para os três filmes que actor e realizador fizeram em conjunto, é fácil ver que Anderson é aquele que melhor consegue explorar o talento de Murray.
Site Oficial - lifeaquatic.movies.go.com/main.html
Realizador - Wes Anderson
Elenco - Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchet, ...
Produtora - Touchstone Pictures
Classificação - m/12
Duração - 118 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às março 21, 2005 03:43 PM
Comentários
Este filme faz-me lembrar os livros do Tim-Tim: a suavidade das cores, a bonomia das personagens (com Dafoe a fazer a fazer o contraponto como Haddock), a extravagancia das situações, a aventura a galope. Um Bill Murray excelente em underacting e um inesperado Dafoe em composição. Um delicioso filme de aventuras do mais criativo dos realizadores actuais.
Publicado por: Filipe às março 25, 2005 12:58 AM
Não tenho muito a acrescentar uma vez que as nossas sríticas ao filme são parecidas. Mas se eu já estava à espera dum Bill Murray genial neste filme não estava à espera que anjelica Huston me fizesse relembrar os velhos tempos com tanta classe. O owen Wilson é que confesso que não gosto muito...
http://filhodo25deabril.blogspot.com/2005/03/365-sala-de-cinema-life-aquatic-with.html
Publicado por: Ricardo às março 21, 2005 05:31 PM