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abril 09, 2005
Birth - O olhar de Kidman
Um filme extremamente ambicioso mas com um enorme medo em saltar o desfiladeiro. Se a queda resultasse, o filme poderia ter sido algo do outro mundo. Se a queda falhasse, dificilmente seria pior do que o que foi. Porque Birth não nasceu com as medidas certas...
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Fica-se sempre com uma sensação mista quando se vê um filme como Birth. A ideia que nos atravessa a cabeça é sempre "porquê?". Se os condimentos estão lá. Se o primeiro passo, que é sempre o mais dificil, já foi dado, então porquê recuar temerosamente no final?
Birth é um filme que cria expectativa mas depois desilude por ter medo da própria sombra. Enuncia uma narrativa extremamente rebuscada mas, mesmo assim, com enorme potencial, e depois não sabe para onde se virar. No final, com medo de seguir em frente e voltar para trás, a camara deixa-se pousar em cima de Nicole Kidman, esperando que a actriz, ou melhor, que a expressividade da actriz, resolvam o problema.
Em alguns momentos este é um truque que até resulta. A sequência de Kidman na ópera, quando se apercebe que a situação é mais real do que algum dia imaginaria, é absolutamente notável pela coragem em aguentar durante tanto tempo a camara em cima da expressão facial, do olhar, da actriz. Mas essa coragem nunca mais voltou ao filme. Nem mesmo nas tão polémicas cenas de banho entre Kidman e o jovem Cameron Bright (um talento a ter em consideração para o futuro) se pode apelidar aquilo de coragem. Coragem seria ir mais além, romper com convenções, dar verdadeira expressividade ao dramatismo da situação. Ali a troca de olhares não funciona. Como não voltará a funcionar.

Apesar do ritmo pausado e extremamente urbano depressivo - com a noite, o parque, as ruas desertas - a fazer lembrar o cinema norte-americano da conturbada decada de 70, o filme não tem a coragem que os trabalhos dessa era tinham. É um excelente ensaio fotográfico e pouco mais. Mas a questão é: tinha de ser assim? A resposta é óbvia. Com um argumento destes na mão. Com um leque de actores deste calibre. Claro que não!
Pedia-se a este filme pulso. Pedia-se que a história fizesse sentido em todos os momentos e não apenas em alguns. O twist final é incompreensivel em certos aspectos. A dúvida sobre se existe ou não encarnação nunca é explicitada. Mais, torna-se óbvio que o realizador não conseguiu arranjar outra forma para explicar um fim tão á pressa, do que colocar o pequeno Cameron Bright a seguir - sem qualquer motivo - Anne Heche.
É que depois de nos ter levado mais além, de ter rompido todos os laços, de ter testado toda a gente, Jonathan Glazer deixa-nos cair no chão sem qualquer razão. E isso é imperdoável.

Nicole Kidman passa ao lado de tudo isto. A sua performance é intensa. Uma intensidade interior, captada em cada frame do seu olhar, do seu silencio, do seu suspiro. O drama - que devia ter rolado à volta do jovem - acaba por centar-se nela. Opção do realizador sem muito sentido mas que ela consegue minimizar ao máximo com um dos seus melhores trabalhos até hoje. Fica a sensação de que Kidman merecia ter tido mais, um realizador mais hábil no manejo da camara, mas acima de tudo, com mais arrojo.
Todo o restante elenco do filme pauta-se também por conseguir um bom desempenho. Tanto o jovem Cameron Bright - também ele de uma intensidade imensa - como a veterana Lauren Bacall, e mesmo Danny Houston e Anne Heche, mostram que, por eles, o filme teria sido muito melhor. Não foi aí que se pecou. Foi em ter tido medo. Birth nunca foi uma história de terror cujo o objectivo era assustar o espectador com histórias de maridos reencarnados. Bem sabes que Glazer está habituado ao mundo dos videoclips mas mesmo assim, a pergunta fica: de que teve medo Glazer?
Classificação - ![]()
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O Melhor - A sequência de Kidman na ópera. Provavelmente um dos melhores momentos cinematográficos do ano. Pela coragem (que não se voltou a ver), pela intensidade. Pelo drama. Um verdadeiro momento de cinema.
O Pior - O argumento sem pés nem cabeça na forma como foi apresentado no filme. A mesma premissa daria para meia dúzia de filmes extremamente interessantes. Assim é que não dá.
Curiosidade - Nicole Kidman continua imparável. Ver o trailer de The Interpreter antes do filme lembra-nos que Kidman continua a fazer mais filmes por ano do que praticamente qualquer actor (Jude Law e Scarlett Johansson são excepção). Uma diva verdadeiramente devotada ao seu trabalho.
Site Oficial - www.birthmovie.com
Realizador - Jonathan GlazerElenco - Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Houston, ...
Produtora - New Line Cinema
Duração - 100 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às abril 9, 2005 10:00 AM
Comentários
Eu não tive a ocasião de ver o filme: registo e aprecio a crítica desde logo.Recomendo para os interessados a obra e investigação de "Ian Stevenson"...vd.google...
Saudações
Morfeu
Publicado por: morfeu às abril 10, 2005 10:57 AM
Eu também fiquei com a sensação que algo faltou ao final deste Birth. É um filme que se leva demasiado a sério para um final tão infantil.Não faz sentido, parece que alguém escreveu a história e depois deixou-a ao acaso até que outra pessoa a encontrou e á pressa fez-lhe um twist final. Não daria uma classificação tão baixa ao filme, mas decepciona realmente.
Publicado por: not_alone às abril 9, 2005 04:43 PM