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abril 23, 2005

Der Untergang - Contar não é perdoar

Brutal. Real. Dramático. Humano. Desumano. Atroz. Surreal. Louco. Profundo. Histório. Tocante. Assustador. Corajoso. Comovente. Genial. Eis Der Untergang.
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Até hoje tinha faltado a coragem para fazer um filme sobre Hitler. Um filme sobre o homem. Um filme sobre o lider. Um filme que não fosse apenas um retracto estereótipado do ditador alemão. Um filme que não fosse cómico (como o foram em 1941 e 1942 The Great Dictator e To Be or Not to Be) ou que reduzisse a personagem de Hitler a meia dúzia de frases feitas. Esse filme era preciso. Era preciso ver o homem por detrás do nome que ainda hoje faz tremer milhões. Como é que alguém tão odiado hoje, foi tão amado no passado? Como é que - e isto ganha cada vez mais força à medida que o filme vai passando - Hitler era tão mado por um povo que é visto como um dos mais inteligentes do mundo? A verdade é que para além de servir como retrato histórico dos últimos dias do 3º Reich, este filme ajuda também a explicar o porquê da ascensão do nazismo. Não foi só Hitler, nem a sua ideologia, nem a sua expressão, que arrastaram a Alemanha para o caos. Foram os próprios alemães - como a certa altura diz Goebbels - que assinaram a sua sentença ao seguirem o primeiro lunático que lhes surgiu pela frente. E esse lunático está perfeitamente descrito neste filme. Hitler é um homem em Der Untergang. Mas é um homem monstruoso, que alterna momentos de grande lucidez e algum cavalheirismo até - a sua relação com as mulheres seria digna de um lord britânico - com momentos de loucura, de megalomania e de demência pura e absoluta. E esse retrato ganha ainda mais força pelo ambiente que o rodeia, onde há uma especie de duplo pólo. Um, composto pelos seus fieis seguidores que assim permanecerão até ao final, e um outro, onde os desertores oportunistas e os lúcidos testemunham um momento perfeitamente inimaginável.
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A força do filme reside não só em mostrar Hitler a delirar com exércitos inexistentes, com as sucessivas traições dos seus colaboradores, mas em estabelecer o paralelismo entre o que se vivia no bunker - um ambiente clautrofóbico recheado de fanáticos - e o que se passava nas ruas de Berlim. Talvez aí a fusão final entre a secretaria, à qual se deve este filme e o pequeno berlinense que compreende a loucura que o rodeia a tempo de se emendar, em prole do futuro, seja o culminar de uma ideia muito bem conseguida. Se por momentos Hitler parece-nos merecedor de compaixão, basta ver-mos o que acontece com o seu povo, por sua culpa, nas ruas de Berlim para nunca perdermos a noção de que este não é um filme que vitimiza uma personagem. É um filme que explica o que se passou num periodo de tempo, num registo quase documental tal é a sua segurança em não cair em dramatismos desnecessários, e que teriam sido a base do filme se isto tivesse sido feito num qualquer estúdio de Hollywood.
Der Untergang tem a habilidade de mostrar o oposto do que vimos em The Pianist. No genial filme de Roman Polanski acompanhamos o sofrimento dos judeus, e a luta pela resistência nas ruas de Varsóvia. Aqui também há sofrimento, há as ruas de Berlim, há os confrontos nas barricadas, há os mortos e os vivos. Mas há a outra face da moeda. A loucura que vai tomando conta do quartel-general alemão mostra a atrocidade moral da guerra. E essa - especialmente numa era em que a imagem já não tem o mesmo impacto porque já se viu de tudo - custa mais a engolir.
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Um dos maiores trunfos deste excelente filme, é o leque de interpretações, chefiado à cabeça por Bruno Ganz. O actor suiça é Hitler numa forma desconcertante. Tanto é capaz de momentos de extrema beleza e humanismo, como também explode de raiva e de fúria contra tudo e contra todos em nome da pureza ideológica do pensamento nazi que o próprio teorizou. Interessante seria ver não um filme sobre as últimas - e decadentes horas - de Hitler (a presença de Parkinson é bem explorada pelo realizador e pelo actor), mas sim, um filme sobre a sua ascensão. Sabemos o que aconteceu. É importante saber o porquê de tudo isto. Para além de um soberbo Ganz que culmina assim uma temporada onde os actores estiveram absolutamente fantásticos (são 15 desempenhos inesqueciveis num ano), há ainda outro conjunto de actores de grande valor, que vão desde a belissima Alexandra Maria Lara, uma das mais promissoras actrizes europeias, ao excelente Thomas Kretschmann, sem esquecer os impressionantes Ulrich Matthes, Corinna Harfouch e Christian Berkel.
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Der Untergang é um documentário histórico na mesma medida em que é um filme. Deixa-nos algumas dúvidas sobre as personagens secundárias, nunca exploradas mais do que o suficiente para se manterem em cena. Deixa algumas reticencias sobre o antes. Mas abre imensas portas para pensar o depois. E se estes eram ainda os dias em que o Holocausto era algo do conhecimento de poucos - e felizmente este filme não cai na tentação de fazer o jogo do povo judeu - este era já o tempo de pensar no futuro. Daí a figura do pequeno Peter, o jovem que atravessou o século. O alemão da juventude hitleriana, mas também o alemão da reconstrução, da era de Willy Brandt, da queda do muro e da reunificação. E o alemão do século XXI. O alemão que sobreviveu a Hitler, o homem que achava que iria viver para sempre.

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O Melhor - A beleza deste filme explica-se numa sequência. Quando Speer anuncia o abandono do quartel-general, a camara faz um grande plano sobre Hitler. Ve-se uma pequena lágrima a escorrer-lhe pela face. Os mais sensiveis tenderão a perdoar o homem. Mas de seguida, num momento de montagem sublime, voltamos para as ruas de Berlim e vemos os corpos no chão. Der Untergang conta, tenta explicar, tenta mostrar, mas nunca tenta perdoar.

O Pior - A superficialidade das restantes personagens que habitam o bunker. Tirando os casos mais idealistas, que são explorados por serem a lucidez do filme, todas as outras personagens são estereótipadas até ao limite.

Curiosidade - Bruno Ganz teve acesso a um filme rarissimo de Hitler num momento de descontração, filmado pelos serviços secretos finlandeses aquando da visitia do ditador alemão à Finlandia. O visionamento do filme foi fundamental para montar todas as peças e fazer a distinção entre o Adolf Hitler e o Fuhrer.

Site Oficial - www.a-film.nl/deruntergang

Realizador - Olivier Hirscbiegel
Elenco - Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Thomas Kretchmann, ...
Produtora - Constantin Films
Duração - 158 m
Classificação - m/16

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às abril 23, 2005 12:33 AM

Comentários

Gostei muito deste filme. Se tiver curiosidade e paciência: http://ovilacondense.blogspot.com/2005/04/queda-hitler-e-o-fim-do-terceiro-reich.html

Publicado por: Dupont às abril 26, 2005 02:15 PM