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abril 01, 2005

Os géneros e o cinema de autor

O sonoro terminou também com o quase total monopólio de dramas e melodramas nas produções dos estúdios.

Exceptuando o western, género muito popular mas extremamente subvalorizado pelos estúdios, a diversidade de filmes no cinema mudo não era muita. As comédias não eram abundantes, apesar dos nomes geniais de Buster Keaton ou Charles Chaplin , e os épicos eram filmes mais europeus do que norte-americanos. O drama – e em muitos casos o melodrama – predominavam claramente. Um cenário que se modificou totalmente com a chegada do som. Em primeiro lugar surgiu o musical, logo com The Jazz Singer em 1927 e dois anos depois com Broadway Melody. Praticamente desconhecido até então, o musical tornou-se no género por excelência de Hollywood. Todos os estúdios passaram a produzir anualmente mais de cinco musicais que acabavam por se revelar sempre êxitos de bilheteira.


Outro género que ganhou com o surgimento do sonoro foi o filme dito de gangsters. O som tinha permitido que o som das metralhadoras e de carros se tornassem prática corrente, e juntando isso com diálogos secos e fortes, o filme de gangsters afirmou-se como um dos mais populares de então com actores como James Cagney ou Edward G. Robinson a afirmarem-se como verdadeiros ícones dos anos trinta. Mais tarde o filme de gangsters perderia o seu encanto original dando lugar, nos anos 40, ao filme noir , que por sua vez iria inspirar os thrillers e filmes de acção que hoje conhecemos. Outro género que ganhou imenso com o sonoro foi o western. Apesar de já ser um dos géneros mais apreciados do cinema mudo , foi com o sonoro que o género ganhou peso junto do público. Os duelos ao por do sol e os confrontos entre índios e soldados do exército passaram a fazer as delícias de qualquer amante de cinema. Também a comédia ganhou com o sonoro. Dos filmes de comédia física que marcavam o mudo pouco restou no final dos anos 40. Agora eram os diálogos que imperavam neste género sempre muito popular que, em vários casos, chegava a assemelhar-se bastante com os musicais.
Quanto ao drama e melodrama, viveram nos primeiros anos do sonoro anos complicados, mas com a reaproximação do conceito de cinema falado com cinema sonoro a partir de meados dos anos 30 voltaram a recuperar o seu papel na indústria, mantendo-se ainda hoje como os géneros por excelência de Hollywood.

Quem acabou por sofrer mais com o advento do sonoro foi o cinema de autor. Nos Estados Unidos não eram muitos os que conseguiam fazer cinema completamente de autor (a indústria não o permitia de ânimo leve) mas na Europa o género era rei e senhor. O expressionismo francês, o surrealismo alemão e o filme de propaganda soviético tiveram dificuldades em adaptar-se aos novos tempos. Ainda por mais a escolha que os autores europeus fizerem, em preferir o som como elemento auxiliar na montagem do filme, tornou o seu estilo de cinema pouco popular junto do público. Durante os anos 30 foram várias as experiências, as abordagens que os cineastas europeus (e alguns americanos) fizeram desta nova ferramenta que tinham ao seu dispor. No final da década o cinema de autor tinha já interiorizado que o seu destino era localizar-se na margem da produção cinematográfica, já que concorrer com o sistema mainstream de Hollywood era impossível. Mesmo assim não se deixaram de fazer grandes filmes, substancialmente diferentes, mas em muitos dos casos melhores, daqueles que se faziam nos estúdios da “Meca do Cinema”.


O sonoro acabou, involuntariamente, a contribuir para uma redefinição do conceito de género e da hierarquização das diferentes formas de fazer cinema dentro da própria indústria. E quando o som foi ganhando maturidade, também o cinema foi crescendo em termos de qualidade, superando mesmo os grandes títulos do cinema mudo que, pouco antes do aparecimento do sonoro, tinham alcançado níveis que tinham, pela primeira vez, permitido aos cineastas de se apelidarem, com razão, de artistas. O som pode ter complicado o processo, mas no final de contas, ajudou a consolidar o cinema como a grande arte do século XX, como a 7º arte.

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às abril 1, 2005 09:47 PM