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junho 24, 2005
Capitulo II : As Inspirações - A Cinemateca Francesa
Não houve influência maior. Aliás, seria praticamente impossível imaginar a Nouvelle Vague sem este verdadeiro templo de cinema. Um templo venerado e adorado por todos os jovens da época. Um templo que lhes ensinou todas as escrituras, desde os evangelhos oficiais – Renoir, Rossellini, Welles – aos escritos apócrifos – Fuller, Ray. Templo que seria profanado na quente primavera de 68, uma época onde o pouco que havia de Nouvelle Vague se começou a desmontar. Peça por peça.

Dirigida por Henri Langlois – um dos “pais espirituais” da Nouvelle Vague – a Cinemateca Francesa surgia na continuação da ideia dos cineclubes, ideia essa que Louis Delluc – um dos primeiros realizadores avant-garde franceses – colocara em prática em 1921. É nos meados dos anos 30 que Henri Langlois começa a deitar mãos à obra para recuperar o espírito dos cineclubes, que tinha decaído com a chegada do sonoro à Europa. Mas só com a libertação de Paris é que os cineclubes florescem, aproveitando para recuperar “o tempo perdido” com os anos da ocupação. É nessa época que Langlois – que tinha conseguido manter toda a sua colecção durante a ocupação – criará a Cinemateca. Em 1948 abre as portas, abrindo assim um verdadeiro novo mundo aos muitos cinéfilos que já passavam horas nos pequenos cineclubes de Paris. Entre eles estavam os veteranos André Bazin, Alexander Astruc ou Jacques-Doniel Volcroize, mas essencialmente os jovens lobos. Truffaut vivia literalmente na Cinemateca, ele que tinha tido uma triste infância – que recuperará mais tarde no seu primeiro filme – vendo mais de três filmes por dia. Godard junta-se a ele. Também lá estão Rivette, Chabrol, Resnais, Marker, e tantos outros. E o que viam eles?

Henri Langlois
Langlois cedo percebeu a importância do que criara. Decidiu então programar a Cinemateca para verdadeiramente mostrar todo o cinema. Mas um cinema não de entretenimento e meramente comercial. Para isso haviam todas as outras salas de Paris. Era cinema-arte, cinema de vanguarda, cinema original. Sem o saber – porque o termo ainda não estava definido – Langlois criou o primeiro templo para os amantes do cinema de autor.
O director da Cinemateca planeava sessões duplas onde alternava um filme mudo com um filme sonoro, um western com uma comédia, um drama com um épico. E assim mostrava um pouco de tudo. E com o cinema do passado abria as portas para o cinema do futuro. Assim os jovens aspirantes a realizadores trocaram as aulas do Institut dês Haut Études Cinématographiques, por dias e dias pregados nas cadeiras da Cinemateca .

Citizen Kane estreou-se na Cinemateca, muito depois da sua data original
A valorização que fez do cinema mudo, junto de jovens que já tinham nascido na era dos talkies, tornou-se fundamental na compreensão da arte cinematográfica para os jovens cinéfilos. O mais influenciado por esta realidade terá sido Jean-Luc Godard, que em toda a sua obra percebe que pode haver cinema sem som, sem som síncrono, sem qualquer fronteira. E explorará essa realidade de múltiplas formas, sendo que Pierrot le Fou é o melhor exemplo disso.
Entre filmes proibidos, filmes de países que alguns jovens nem sabiam que faziam cinema – os primeiros Kurusawas, Ozus e Mizoguchis foram vistos na Cinemateca – filmes de vanguarda, documentais, de animação ou de ficção, os jovens, sentados nas cadeiras na frente ou mesmo no duro chão das salas, contemplavam extasiados a arte cinematográfica no seu esplendor. E foi aí que aprenderam a amar o cinema. E seria esse amor que os tornaria, primeiro, críticos acérrimos do cinema como arte, e depois, realizadores de um cinema sem fronteiras.

Na Cinemateca Truffaut verá mais de 2000 filmes antes dos 25 anos
Sem a Cinemateca não teria havido Nouvelle Vague. Sem Langlois não haveria Godard. Sem o cinema de todo o mundo não se faria cinema para todo o mundo. E por isso, quando em 1968, o governo francês tentou exonerar Langlois, as fileiras cerraram-se. Por um momento os cinéfilos estavam todos do mesmo lado da barricada. E o “caso Langlois” despoletou o que se seguiria. Estávamos em Maio de 68, curiosamente, no ponto de chegada da Nouvelle Vague original.
Próximo Capitulo - Os Hitchock-Hawksianos
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às junho 24, 2005 03:21 AM
Comentários
Engraçado em como és jovem, mas podemos sempre aprender coisas contigo. Vivendo e aprendendo.
Abraço,
JT
Publicado por: João Tomé às junho 27, 2005 11:33 PM
achei de um interesse imenso este aprofundar do tema da Nouvelle Vague. fiquei a saber mts coisas fabulosas. parabéns pla iniciativa!
Publicado por: Lost in Space às junho 25, 2005 03:43 PM