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junho 27, 2005

Capitulo III : Escola Artistica - Os Manifestos Base : La Camera Stylo

Num notável artigo de Michael Marie, percebemos o porquê do conceito de escola artística aliado ao movimento da Nouvelle Vague. Este movimento tem uma base programática, com base nos manifestos de Astruc e Truffaut. Tem um conjunto de inspirações, primeiras obras e artistas facilmente assimiláveis. Tem um teórico base – Bazin - e um texto chave – Un Certaine Tendence du Cinema Français. Tem adversários, suporte de divulgação – os Cahiers – e um conjunto de obras que os consagram como uma nova corrente. Vale a pena falar um pouco sobre tudo isto.

Para muitos a Nouvelle Vague, ou pelo menos o seu espírito inicial, define-se bem em três textos, belíssimos textos, publicados não só nos Cahiers, mas também no L´Écran Française. Textos que exploram as falhas do panorama cinematográfico da época, mas que, muito mais importante que isso, lançam luzes para o futuro. Estes verdadeiros avisos à navegação, estes faróis inamovíveis, esta análise critica da forma como se faz e como se olha para o cinema, dá imediatamente a ideia de que algo se está a passar. Ninguém se atreveria a pensar ainda numa Nouvelle Vague – apesar de Godard dizer mais tarde que todos os jovens lobos já se preparavam para se tornar mais do que simples críticos – mas ela começava a desenhar-se, não timidamente, mas de forma assumidamente alternativa e original.
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Alexander Astruc

O primeiro destes manifestos é da autoria de Alexander Astruc. Mais velho que a geração de Truffaut ou Godard, Astruc será visto como um S. João Baptista do movimento da Nouvelle Vague. É ele que dará os primeiros passos, que levantará as primeiras questões, e que dará as primeiras luzes. Para muito o seu La Camera Stylo é o documento inicial da Nouvelle Vague. Para outros, é um pré-inicio. A Nouvelle Vague já está ali sem estar. Até porque Astruc será mais tarde, curiosamente, afastado da ribalta pelos mesmos jovens que ajudou a lançar. Curiosidades da vida.
Mas, de qualquer forma, La Camera Stylo é um texto fundamental à sua época. Estamos no ano da abertura da Cinemateca, da revitalização do Festival de Cannes, ano fundamental para a definição do cinema francês. Neste trabalho memorável e verdadeiramente futurista, Astruc delimita bem a análise da realidade cinematográfica a um antes e um depois. Um antes, onde a própria vanguarda “era já uma retaguarda”. Um depois onde se procura alargar o próprio conceito de cinema, para algo bem mais vasto do que a transição de imagens numa fita. Astruc detecta essa mudança, não só pela evolução técnica da época que permitiriam que autores dessem largas à sua imaginação - “Descartes fechar-se-ia no seu quarto com uma câmara de 16 mm e película, e escreveria o Discurso do Método em filme, uma vez que só o cinema o poderia exprimir convenientemente” - mas também nas obras que estariam a marcar esse período de transição na linguagem cinematográfica.
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Les Quatrecents Coups é um exemplo de um filme inspirado no pensamento de Astruc

E falando-se de cinema, tem-se de falar da linguagem cinematográfica, um conceito que evoluiu desde o período mudo até hoje, mas que nunca soube ser consensual. O que é cinema passa pelo que é a linguagem do cinema. Qual o verbo, o sujeito, o complemento directo desta complexa gramática? Astruc deslindra nas obras de Orson Wells e Jean Renoir uma capacidade de descobrir todos os truques desta linguagem. Algo extremamente importante, especialmente se tivermos em conta que será a jovem Nouvelle Vague, muito influenciada por este texto – e que no fundo, o complementará, fazendo dele quase uma profecia – a partir para uma profunda reformulação da gramática cinematográfica. Afinal, não foi Godard que se vangloriou de ter acabado com o raccord ?

Próximo Capitulo : Os Manifestos Base - Une Certaine Tendance du Cinema Française

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às junho 27, 2005 01:18 AM

Comentários

Caro Luis
Fico obviamente feliz que o Hollywood seja para si um espaço tão especial. É obviamente um dos meus desejos, que as pessoas que visitem este weblog sintam que encontram o que procurem, sejam criticas, fotos, biografias, textos, tudo. Por isso o caracter quase "de revista" do Hollywood. E saber que as pessoas sentem algo tão positivo ao ler estas páginas, é claro, um prazer pessoal.
E quanto ao Closer, escolheu o exemplo certo. É dos filmes onde as emoções interiores, onde os sentimentos vêm quase das tripas para fora, numa sucesão de rasgos brutais. É um filme soberbo que já vi cerca de quatro vezes, e nunca me canso de rever, pela sua profundidade dramática e cinematográfica.
Agradeço claro o contributo, e ficarei à espera de mais.
um abraço

Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às junho 27, 2005 06:04 PM

Belo capitulo!!!

Publicado por: André Batista às junho 27, 2005 03:20 PM

antes de mais devo-me introduzir. chamo-me luis e sou amante de cinema tal como o miguel, e sou um assíduo neste hollywood. se me é permitida a opiniao, este é o melhor blog portugues, e acredite que tenho algum conhecimento de blogs. a minha paixao pelo cinema e apenas superada pela que nutro pela escrita(via pela qual hei-de enveredar), e por isso nutro um enorme respeito e admiraçao por pessoas com paixoes semelhantes. no caso deste blog e do seu autor, a admiraçao aumenta pois os gostos cinematográficos sao assustadoramente semelhantes. dificilmente eu conseguiria experimir o que senti ao ver, por exemplo o closer, tao bem como o miguel fez. a semelhança de emoçoes que partilhamos, por exemplo com esse closer é de uma igualdade assombrosa. ha muito que desejava deixar aqui o meu singelo contributo para a auto-estima deste blog e do seu autor, tal como a vontade de trocar ainda mais conhecimentos e opinioes sobre a este mundo que tanto amamos. ouvirá mais de mim brevemente, um abraço

Publicado por: luis figueiredo às junho 27, 2005 03:20 AM