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junho 28, 2005
Capitulo III : Escola Artistica - Os Manifestos Base : O que escreveu Truffaut
Um pouco filho de Le Camera Stylo, François Truffaut cedo percebe que o mundo do cinema atravessava um período de fortes mudanças. O conflito entre o cinema como indústria e o cinema como arte era cada vez mais evidente.

François Truffaut
O sistema privilegiava o sistema de produção, no caso francês, com filmes de grande orçamento, adaptações de sucessos literários, filmes sem alma nem coragem. Filmes de argumentistas, falsos-adaptadores de obras maiores. Do outro lado estavam homens, autores, capazes de ter uma ideia original, ou de fazer uma adaptação fidedigna, sem grandes orçamentos mas com imensa vontade de olhar para o futuro.
Talvez por isso, surja como algo natural, o texto que se tornaria no verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague. Escrito pelo maior dos jovens críticos, onde as luzes estão apontadas para os erros, mas também, para as soluções. Une Certaine Tendence du Cinema Français é uma sucessão de frases de uma violência absolutamente poética. Com a alma ferida, qual cinéfilo órfão, Truffaut não perdoa, nem por um breve instante, o cinema produzido em França pelo sistema, um cinema que se auto-intitulava de realismo-psicológico, mas que “nada tem, nem de realismo, nem de psicologia.”
Ao longo do texto, publicado nos Cahiers du Cinema em 1954, fazendo imediatamente do jovem critico, um alvo a abater pelo sistema, e um pioneiro arrojado para os jovens da Nouvelle Vague, Truffaut critica o que chama de “processo de equivalência” das falsas-adaptações dos argumentistas da época – os já citados Jean Aurenche, Pierre Bost, Jacques Sigurd, Henri Jeanson, … - e lança daí as bases para provar que há uma outra forma, muito mais acertada, de se criar cinema. E criar porque, para Truffaut, o cinema é antes de mais, arte. E por isso, quem cria filmes, é seguramente um autor. Uma ideia que vai desenvolver no ano seguinte, também nos Cahiers, no seu texto Ali Baba et La Politique dês Auteurs.

Pepe le Moko
Se Une Certaine Tendance du Cinema Français é uma fortíssima critica à forma de se fazer cinema em França – e Truffaut, que há época teria já visto mais de dois mil filmes, ele que ainda não tinha 22 anos, era o homem certo para falar do cinema do passado, mas também do cinema do presente – a verdade é que o texto é muito mais do que isso. Este ataque, é não só um apontar directamente o dedo a quem faz mal, mas também, lançar luzes sobre quem faz bem. E por isso, surge de forma naturalmente, um ano depois – em Abril de 1955 – o seu segundo manifesto, aquele que mais marcará a Nouvelle Vague, por ser no fundo a sua essência.

Em Ali Baba et La Politique dês Auteurs o enfoque é dado aos autores, os verdadeiros artesões dessa arte que é o cinema. Partindo da análise crítica a Ali Baba, filme de Jacques Becker com o conhecido actor Fernandel no principal papel, Truffaut passa à defesa da “política de autores”. Nesta dissertação, e partindo na ideia de Giraudoux, que há muito defendia “Não existem obras, só existem autores”, o jovem critico valoriza o trabalho do artista na concepção do filme. É a ele que devem ser imputados todos os méritos ou deméritos, no sentido que, desde o momento em que a ideia começa a fervilhar na sua mente, até ao dia da exibição ao público, todo o trabalho leva a sua marca. Sem interferências de produtores, distribuidores, argumentistas, externos à realidade do que é pensar e fazer um filme. E assim, Truffaut lança as bases do que viria ser a própria realização da Nouvelle Vague. Um processo extremamente pessoal – basta olhar para os argumentos de Godard, Resnais e Truffaut para ver ali, cunhada em todos os frames, a sua marca bem vincada. Um processo verdadeiramente artístico.
Próximo Capitulo : Divulgar nos Cahiers
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às junho 28, 2005 01:04 AM