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julho 05, 2005

Capitulo IV : A Explosão - O efeito "Le Quatrecents Coups"

Se houvesse uma data para o nascimento da Nouvelle Vague, enquanto forma de criar cinema, ela teria de ser 1959. Não que antes os primeiros projectos dos jovens cineastas não tivessem dado todas as pistas para o que viria a seguir. Não que o trabalho nos Cahiers não apontasse já para isto. Mas foi neste ano que os múltiplos talentos viram finalmente os seus trabalhos revolucionar por completo a forma de pensar e fazer cinema.
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Jean Cocteau, François Truffaut, Jean Pierre Leaud e Edward G. Robinson em Cannes

Truffaut sempre foi dos mais irrequietos membros da Nouvelle Vague.
Tinha produzido, escrito e realizado alguns trabalhos nos anos anteriores. Mas a sua primeira longa-metragem de verdadeiro impacto chegaria em 1959. Era uma obra profundamente pessoal, sobre um jovem (que se chamava Antoine Doinel mas que podia (e era) ser François Truffaut), desadaptado de uma família problemática, desenquadrado do sistema de ensino francês, que encontrava no cinema e na rua, a escapatória para a sua existência. Tinha sido um pouco esta a vida de Truffaut, até este ser resgatado por Bazin para o cinema, e talvez por isso tenham sido poucos os filmes que tivessem exprimido tão bem a poesia da história para imagens. Brilhantemente escrito, notavelmente filmado e com um desempenho inesquecível de Jean Pierre Leaud – ele que para além de ser extremamente parecido fisicamente com Truffaut, iria começar aqui um caminho de glória, tornando-se numa das estrelas da Nouvelle Vague – este filme deu o pontapé de saída para a explosão da Nouvelle Vague.
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Do filme falaremos mais adiante, mas a verdade é que Le Quatrecents Coups teve um papel importantíssimo para a afirmação da Nouvelle Vague como movimento artístico. Truffaut tinha uma relação conflituosa com o Festival de Cannes. Já o tinha criticado muitas vezes nos seus textos impiedosos dos dias dos Cahiers, e tinha sido mesmo proibido de lá entrar como jornalista no ano anterior. Por isso, quando Jean Cocteau seleccionou o filme para representar a França, isso significou uma dupla vitória pessoal para Truffaut. Por um lado desforrava-se de Cannes e do que o Festival representava, habituado que estava a seleccionar para competição os habituais filmes com a “Tradição de Qualidade” que ele tanto criticava. E por outro lado, significou que, pela primeira vez, um filme da Nouvelle Vague teria impacto mundial, ao desfilar de igual para igual, com qualquer outro filme, na Croisette. Era a afirmação do jovem cinema de autor independente que dava aqui o seu primeiro passo. A verdade é que o filme não venceu a ambicionada Palma de Ouro. A vitória iria para Orfeu Negro, filme de Marcel Camus rodado no Brasil. Mas receberia uma menção honrosa por parte do júri do certame, e consolidaria desde logo o nome de Truffaut no meio da produção cinematográfica francesa. A verdade é que nunca nenhum filme da Nouvelle Vague venceria em Cannes (Truffaut acabaria por vencer um Óscar, mais tarde, com La Nuite Americaine), mas pouco importava. Era a ideia subjacente ao movimento que recebia um sinal de aprovação. Isso sim é que era necessário.
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Truffaut e Leaud

Eventualmente Le Quatrecents Coups tornou-se num êxito estrondoso. Superou em muito os custos do filme, permitindo a Truffaut encher os cofres da sua jovem produtora, dinheiro esse que iria usar não para si, mas para financiar os trabalhos dos seus camaradas. No final do ano, Le Quatrecents Coups tinha conquistado a nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original – algo verdadeiramente inesperado para tudo e todos – e estava no topo das listas de filmes do ano. Factos interessantes, mas que não são nada comparados com o real impacto que o filme teria nos anos seguintes, pela sua forma solta de filmar. Pela revalorização dos espaços abertos – que tão bem seria explorada por Godard – pela recuperação de imagens-mito do cinema como a foto de Harriet Anderson pelo jovem Doinel, sem esquecer as semelhanças claras com Zero de Conduite, uma clara homenagem a Jean Vigo. Explorar a linguagem cinematográfica do futuro, sempre homenageando o melhor do passado, parecia ser esta a mensagem de Truffaut.

Proximo Capitulo : A Explosão - Resnais em Hiroxima

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 5, 2005 02:12 AM