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julho 06, 2005
Filmes Que Marcaram a História : Les Quatrecents Coups - A Juventude do Cinema
Este é o primeiro grande filme da Nouvelle Vague. Um verdadeiro marco histórico, se tivermos em consideração que este seria apenas o primeiro passo de um dos movimentos mais importantes da história do cinema.
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“Ma Mère est mort!”
Les Quatrecents Coups é uma obra genial. Fica desde já acente que a estreia como realizador de longas-metragens de François Truffaut não poderia ter corrido melhor. Não só o realizador vai colocar em prática tudo o que tinha antes defendido como critico de cinema e defensor de um cinema de autor, como o faz com uma sensibilidade e um tacto espantoso para quem se estreia na realização. Este é claramente um filme auto-biográfico, ninguém tem dúvidas disso, e talvez seja esse toque pessoal que torne este filme tão tocante. O jovem Antoine Doinel (numa performance soberba de Jean Pierre Leaud, a sua melhor enquanto Doinel), é alguém com que nos identificamos rapidamente. A “família feliz” que está longe de ser feliz, com um pai alienado da vida e uma mãe demasiado ambiciosa para a vida que tem, deixa o jovem Doinel quase asfixiado. Ele precisa de ser livre.

Mas, e neste ponto Truffaut é corrosivo ao abalar por completo duas grandes instituições da sociedade francesa (a família e a escola), também não é na escola que o jovem vai encontrar um espaço onde se adaptar. A escola de Truffaut é a escola de Jean Vigo em Zeron en Conduite (com que o filme partilha alguns planos em jeito de homenagem). É uma escola atrasada, uma escola castradora. Truffaut vinga-se aqui claramente dos dias mais difíceis da sua infância, e ao trazer Doinel para as ruas, para os espaços abertos – longe do cubículo que é a sua casa e da lúgubre escola – dá também uma força e vitalidade ao filme, que ajuda e muito a desenvolver a tenção dramática. O cinema, sempre o cinema, marca também a sua presença, como local de escape, como local onde o sonho e as primeiras paixões (a foto de Harriet Anderson), são ainda inocentes e belas. Como autor que é, Truffaut faz de Les Quatrecents Coups (traduzido lamentavelmente por 400 Golpes quando o que a expressão quer realmente dizer é “Trinta por Malinha”), uma verdadeira poesia visual. Para isso usa uma série de travellings, de planos picados e contra-picados, e experimenta também o uso da câmara em movimento, fundamental para dar maior dinâmica à narrativa.

O abandono, o desencanto, a desilusão, o desenquadramento, são as marcas dominantes da primeira metade do filme. Ao contrário dos minutos finais, onde a esperança, a liberdade e o futuro dão uma reviravolta total ao filme. Um piscar de olhos ao cinema da época talvez, com um Truffaut critico ao sistema – educacional, mas que também podia ser o sistema da indústria cinematográfica – e só o cinema nos permite estas comparações – e um desencanto com a família, talvez aqueles de quem Truffaut esperaria mais. Mas, num rasgo de génio, Les Quatrecents Coups é mais sobre a esperança e sobre o futuro do que propriamente sobre o passado.

Num dos mais brilhantes planos finais da história do cinema, Truffaut deixa a porta aberta para o que se seguiria. Num piscar de olhos ao próprio movimento a que dá inicio, Truffaut não fecha Les Quatrecents Coups. Deixa-o em aberto, para mostrar que este era só o primeiro passo. O resto estava para vir. E o resto, era a Nouvelle Vague.
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O Melhor - A ideia genial e a camara nas mãos de Truffaut que passa de "melhor critico de cinema francês" para "um dos maiores realizadores europeus de sempre". Uma evolução digna de registo.
O Pior - Em alguns momentos nota-se uma inexperiência, que Truffaut vai colmatar com o passar dos anos.
Curiosidade - Vários planos do filme foram filmados tendo por inspiração directa Zero en Conduite de Jean Vigo. Descubram quais!
Realizador - François Truffaut
Elenco - Jean Pierre Leaud, Claire Murier, Albert Remy, ...
Produtora - Le Carrose D´Or
Classificação - m/12
Duração - 94 m
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 6, 2005 12:11 PM