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julho 14, 2005

Filmes Que Marcaram a História : Jules et Jim - Entre Livros e Filmes

A paixão de François Truffaut pela literatura só é superada pelo seu imenso amor pelo cinema. Dessa paixão, desse dupla paixão, nasceu uma forma de fazer cinema muito própria do jovem autor francês. E entre todos os exemplos de cine-livros que Truffaut criou – se exceptuarmos Deux Anglaises et le Continent, um filme muito similar a este onde apenas se passa de dois homens para um mulher, para uma relação de duas mulheres e um homem – Jules et Jim é um dos exemplos máximos.
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“Elle est une aparition!”

O filme retrata não só um verdadeiro menage a trois no início do século, como é, ao mesmo tempo, um filme sobre amizade, amor e dúvidas à volta da própria existência humana, numa altura – a afamada Belle Époque e o pós-guerra – em que essa temática estava sobre a mesa. Jules et Jim não é apenas um filme. É primeiro um livro. E o filme respeita isso totalmente. A narração em off da história, desde o primeiro ao último minuto de película mostra claramente que Truffaut quer ser o mais fiel à literatura quando faz cinema. Mas por vezes, são as imagens e os seus jogos que potenciam o diálogo, a narrativa off, o texto literário. E é nesse jogo de cumplicidade entre literatura e cinema que o filme flúi, de forma extremamente natural, e completamente cativante.
O trunfo central de Jules et Jim é essa habilidade de conjugar duas linguagens que apesar de serem diferentes, sempre conviveram desde que o cinema de ficção surge, na primeira década do século XX. Sem aborrecer, sem se perder em apontamentos de exagero literário, e, acima de tudo, sem perder de vista a ideia de que, o que estamos a ver é na realidade um filme, Truffaut molda um trabalho de precisão, extremamente sólido, mas ao mesmo tempo, com verdadeiros rasgos de imaginação.
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A pauta sonora composta por George Deleure – um dos maiores compositores da história do cinema e um dos nomes obrigatórios para os autores da Nouvelle Vague – acentua o dramatismo da narrativa literária, mas, ao mesmo tempo, explora ou ajuda a explorar a dimensão cinematográfica de Jules et Jim. Os próprios desempenhos assombrosos de Jeanne Moreau, Henri Serre e Óscar Werner – um dos maiores actores do cinema europeu – não são apenas desempenhos de actores, elementos de um filme, mas também a encarnação viva e de cariz literário das personagens do próprio livro. Quando alguém adapta um livro ao cinema, há a tentação de fazer pequenas alterações para tornar a obra menos literária e mais cinematográfica. Isso passa pelo argumento, pela produção, pelo próprio casting, e acaba irremediavelmente na própria construção do filme pelo realizador. Ora foi exactamente isso que Truffaut criticou no cinema de Tradição de Qualidade francês e é exactamente isso que o realizador não faz em Jules et Jim. Há filme mas acima de tudo há muito do livro no trabalho final. Um trabalho de fidelização a la Truffaut.
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Jules et Jim surge diferente de Les Quatrecents Coups e Tirez sur Le Pianist. Mais denso, mais ousado, mais imaginativo e mais irreverente, este é o filme que prova que o cinema realmente nunca mais será como dantes. Pode dizer-se que é a resposta de Truffaut a Godard e ao seu A Bout de Soufle como Smile foi a resposta dos Beach Boys ao Sargent Peppers dos Beatles. Comparar a música e o cinema é sempre arriscado, mas neste caso serve para mostrar que, na busca de novas linguagens, de novos caminhos, novas áreas a explorar, diferentes autores podem perseguir o mesmo objectivo por diferentes estradas. Truffaut assume aqui qual a estrada que vai percorrer. Um caminho mais classicista, mais humanista, com alguma irreverência sim, mas sempre fiel ao cinema clássico que aprendeu a amar, desde sempre.

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O Melhor - O desempenho do trio de actores principais.

O Pior - Alguma monotonia na narrativa que poderia ter sido explorada de outra forma através da utilização de outros recursos visuais.

Curiosidade - Oskar Werner voltará a trabalhar com François Truffaut em Fareneith 514, enquanto que Jeanne Moureau fará um cameo em Une Femme Est Une Femme para publicitar este mesmo filme.

Realizador - François Truffaut
Elenco - Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, ...
Duração - 103 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 14, 2005 02:15 AM

Comentários

Definitivamente, um filme altamente recomendado.

Publicado por: Gustavo H. Razera às julho 14, 2005 02:34 AM