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julho 18, 2005

Filmes Que Marcaram a História : Vivre Sa Vie - A Paixão de Jean-Luc

De Godard dissemos que é um apaixonado das mulheres. Sem o conhecermos, acreditamos também que era imensamente apaixonado por uma mulher, de nome Anna Karina. Porquê tal ideia? Basta ver Vivre Sa Vie.
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“Je suis malheureuse, je suis responsable !”

Ver o seu inicio – onde apenas a face, independentemente de onde é vista – de Karina importa. Basta seguir a história desta mulher, que ao contrário da mulher de Une Femme Est Une Femme, vive claramente um drama, um drama sem solução, sem outro caminho que não seja a perdição, e depois, a morte!
Vivre Sa Vie é considerado por muitos como a obra-prima de Godard. É de facto um dos seus filmes mais poderosos, por ser dos filmes mais despojados de efeitos, de jogos e de experiências. Um filme profundamente iconoclasta, mas extremamente sóbrio. Apesar da nudez feminina, não há aqui a exploração do corpo da mulher como haverá com Bardot em Le Mepris. Apesar do final da personagem principal, não há aqui uma tendência para a dramatização da vida. Tudo é feito com naturalismo, como se a água do rio corresse para o mar, calmamente, sabendo que lá chegando, se perderia na imensidão do oceano, mas, mesmo assim, não se importante, continuando a sua longa viagem.
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O que mais impressiona neste filme – tirando mais um grande desempenho de Karina, talvez o mais bem conseguido de toda a sua carreira – é o despojamento de Godard. Filmar o início do filme, durante cinco longos e apaixonantes minutos, apenas e só as costas das suas personagens, esquecendo por momento a sua paixão pelo rosto humano, é assustador e ao mesmo tempo belo. E se, mesmo assim, há aqui e ali uma brincadeira com o som e com a imagem, a verdade é que este filme apresenta mais traços com um filme de Truffaut, pela sua sobriedade, do que qualquer outro filme godardiano. O que mostra também que a anarquia, o experimentalismo do realizador têm um contra-ponto. E que esse mesmo contra-ponto é igualmente desafiante das normas e dos padrões da época. E por conseguinte, por ser um próprio desafio ao cinema em si, o filme ganha contornos fascinantes.
A paixão com que Godard filma o resto de Karina é a mesma com que Dreyer filma a sua Jean D´Arc. É a mesma devoção do amante e também do realizador. E se Le Mépris é um filme de corpos. Se Une Femme Est Une Femme é um filme de casais, este filme é essencialmente um tratado, uma análise sob o poder do rosto de uma mulher. Um ensaio experimental e ao mesmo tempo sóbrio. Um ensaio cheio de uma beleza quase soturna, a que o regresso ao preto-e-branco acentua claramente.
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Mais uma vez em Godard não é a narrativa a alavanca do filme. Aqui a história da jovem prostituta que quer finalmente ser alguém, mas que anda a reboque de um universo que não controla, é secundária. É a forma como se conta a história que importa. É como acompanhamos Karina na sua primeira experiência, e nas restantes, e no momento em que ama, e em que explora o seu próprio interior. Nos momentos em que ri e nas horas em que sofre. Não é o seu final que importa. É a forma como ele é mostrado, de forma despodorada e seca, como se estivesse escrito que seria assim, desde o primeiro instante. Não há piedade, não há justiça. Há apenas o decorrer natural das coisas. Quem é Nana, porque sofre, porque quer fugir? Isso não interessa. O que interessa é que dela se extraiu uma história. Do rosto dela se compuseram imagens. E de tudo isso nasceu um filme. O final abrupto da história quer dizer isso mesmo. Ela viveu a sua vida, a sua vida acabou, não há motivo para o filme continuar. Fechem as cortinas, ela morreu, mas o cinema está mais vivo do que nunca.

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O Melhor - A forma como Godard filma Anna Karina.

O Pior - Alguns elementos da narrativa surgem soltos de ordem, o que compromete a narrativa.

Curiosidade - Este será o segundo filme que o casal Karina-Godard faz em conjunto num total de seis obras.

Realizador - Jean-Luc Godard
Elenco - Anna Karina, Sady Rebot, ...
Duração - 83 m
Classificação - m/12

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 18, 2005 02:22 AM

Comentários

gostei do que dizes sobre o filme. e um dos meus favoritos.

Publicado por: joana às agosto 9, 2005 09:14 PM

Descobri o blogue há pouco tempo. Gosto dele. O cinema é aqui tratado de forma diferente. Desculpará, no entanto, o reparo: em textos de boa qualidade, sobre cinema de qualidade, algum cuidado na escrita, sobretudo nos erros ortográficos, não ficaria mal. Somente uma pequena achega. Obrigado pelo que já me fez recordar e meditar.

Publicado por: Legendas às julho 18, 2005 08:26 PM