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julho 22, 2005
Filmes Que Marcaram a História - Le Mépris : O Corpo
Imaginar uma Odisseia feita por Godard (ou seria por Lang?) é um dos grandes atractivos deste filme. Afinal, Godard sempre manifestara vontade de fazer um filme sobre cinema, e é isso que aqui encontramos.
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“Je te goûte quand tu me touche !!”
Uma debate sobre cinema, sobre os vários pontos de vistas que circulam à volta do cinema. O realizador autor – Fritz Lang numa belíssima homenagem – e a sua concepção do cinema arte. O argumentista, autor frustrado mas que entre o dinheiro e a arte, se mantém de alguma forma hesitante. O produtor, o irascível e todo poderoso produtor, que não tem problemas em transformar um filme para dele retirar um cêntimo a mais. E o público. Ou seja, o restante elenco e nós próprios que assistimos a esta discussão, tentando imaginar como seria a Odisseia feita por cada uma destas três personagens. Godard dá-nos essa liberdade, mas não é isso que interessa. Poderia ser, e daria certamente tema para muitas outras análises ao filme que marca o período de glória da Nouvelle Vague.
Mas Le Mepris é acima de tudo Brigitte Bardot. Não como foi Et Dieu Crea La Femme, porque aí havia um efeito surpresa e quase uma juvenilidade na jovem actriz, que o distingue de imediato deste filme. Em Le Mepris Bardot e o seu corpo são a luz que se acende à nossa frente e nos guia até ao seu final. Ao contrário de Karina, que é primeiro actriz e depois mulher, aqui temos uma mulher que é primeiro mulher e depois actriz. Quando o seu corpo perde vida, também o filme deixa de ter qualquer razão de existir. E aí só sobra o mar, a natureza, as outras criações de Deus, bem mais imperfeitas do que o corpo de uma mulher, da forma como Godard nos apresenta.

Apesar de não ser um filme exibicionista – como o é de uma forma natural Vivre Sa Vie – este é o filme mais sexual de toda a Nouvelle Vague. Despido ou vestido, o corpo de Bardot assim o exige. Todos os seus movimentos, todas as suas insinuações, todos os seus jogos, os seus olhares, são mais sexuais do que os próprios filmes eróticos, que grassavam no mercado negro. Há algo em Bardot – como havia em Marilyn, em Kim Novak, em Elizabeth Taylor – que transborda sexualidade, erotismo, e que condiciona desde logo um filme. É impensável fazer um tratado sobre a mulher com Bardot. Com ela faz-se sim, um tratado sobre o objecto sexual que é a mulher. Por muito machista e petulante que isso possa parecer, é exactamente o que Godard faz. Todo o desprezo que pauta a personagem de Bardot ao longo do filme – e que nunca é explicado a não ser por um beicinho que nos leva imediatamente de volta ao tratado sobre o corpo que é realmente a base do filme – não é absolutamente nada. Não há aqui o drama de Karina em Vivre sa Vie, ou a sua interrogação em Une Femme Est Une Femme, nem mesmo o ar perdido de Jean Seberg em A Bout de Soufle. O que aqui há, é uma das mulheres mais belas do mundo, naqueles dias, que desfila para Godard – como Novak desfilou para Hitchcock e Marilyn para Wilder – e que é a alavanca de uma história sobre cinema, sobre como se faz cinema.

O que, genialmente, o realizador faz, é unir as suas duas grandes paixões. A sétima arte e a mulher. Não foi o regresso a casa de Ulisses feito a pensar numa mulher? Não é a disputa entre Jack Palance e Michel Picolli originada por meia dúzia de olhares e uma meia hora suspeita com uma mulher? Não é o beicinho da assistente de Palance um dos momentos mais eróticos da filmografia godardiana? E não é a luz natural do Mediterrâneo a única que pode almejar a cobrir o corpo de Bardot? O que Godard encena com Le Mepris, é uma verdadeira obra-prima visual, não só pela forma como a faz, mas também, e pela primeira vez em Godard, por quem a compõem. Se Bardot é também a Nouvelle Vague, por tudo o que representa, o que aqui faz Godard é prestar vassalagem ao mito BB!
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O Melhor - Se descobrimos Bardot e o seu corpo escultural em Et Dieux Crea La Femme, é aqui que o vemos em todo o seu esplendor.
O Pior - Algumas falhas narrativas que Godard não assume por completo e se tornam um pouco perdidas no desenrolar do próprio filme.
Curiosidade - Este filme marca o final dos anos de glória da Nouvelle Vague. Haverá ainda Pierrot le Fou, mas a verdade é que o sucesso dos jovens criticos-autores terá aqui o último momento de glória.
Realizador - Jean-Luc Godard
Elenco - Brigitte Bardot, Michel Picolli, Fritz Lang, ...
Duração - 103 mClassificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às julho 22, 2005 12:18 AM