« Trailer de Match Point | Entrada | O Que Estreia Por Cá - Finalmente o futebol chega ao cinema! »
setembro 28, 2005
Será a Pornografia Cinema?
Mesmo trinta anos depois, Deep Throath continua a causar polémica e discussão. O filme porno que saltou para a ribalta e tirou a pornografia para fora do gueto onde há muito estava escondida, foi agora revisitado por um documentário. E trouxe de novo a pergunta: será que a pornografia é um género cinematográfico?

Quantos generos de Cinema conhecem? Bem, há o drama, a comédia, o western, o épico, o biopic, o filme de acção/aventura, o musical, o cinema de terror, o cinema noir e o cinema de ficção cientifica. E pouco mais. Sem esquecer que cada um desses generos tem os seus sub-generos (lá estarão o cinema gore, a comédia romântica ou existencial, o melodrama, o musical aquático, etc...). Encaixará o cinema pornográfico numa definição de genero? Acredito que não, isto apesar de ser natural que uma indústria que movimenta milhões anualmente, como é a indústria porno, tenha sabido, ao longo dos anos, retirar caracteristicas dos diversos generos, adaptando-os à sua própria realidade.
E se desde sempre se tentou estabelecer a distinção entre o erotismo e a pornografia, mais gritante essa diferença se encontra no Cinema. O erotismo não tem genero, é omnipresente. Está no cinema de Hitchcock, de Fellini, de Wilder e tantos outros magos. Está em To Catch a Thief como está em La Dolce Vitta ou em Some Like it Hot. Era traço corrente do Cinema de serie B, marcou para sempre mitos como Jane Russell, Marilyn Monroe ou Elizabeth Taylor. Enfim, pautou-se sempre por uma adequação da linguagem e do desejo sexual a histórias do dia a dia. E foi omnipresente no cinema do passado, mesmo durante os dias do polémico Código Hayes, como ainda é hoje. Os corpos estão cada vez mais expostos, mas é a forma como são tratados, com a gentileza de um cavalheiro, neste caso o cineasta, que nos permite olharmos uma cena de Leaving Las Vegas ou de Eyes Wide Shut, sem sentirmos qualquer constrangimento. Afinal tudo ali é tratado com naturalidade, e, mais do que isso, com um sentido poético do próprio ser humano, do seu corpo, e da sua sexualidade.

Já com o cinema pornográfico isso torna-se impossível de conseguir. Falo em cinema pornográfico, não porque concordo com a definição, mas para estabelecer o ponto de comparação. Aqui é o choque, é a carnalidade do acto em si que é explorada até ao limite. A linguagem choque é dominante, não só para escandalizar, mas sim porque esta é a base deste genero de filmes. O sexo, apenas e só. Sem narrativa digna desse nome, sem desempenhos, sem trabalho técnico. Apenas o sexo. O sexo masculino, o sexo feminino, o sexo a um, dois, tres, dez. E quando um filme é explorado tendo por premissa algo tão redutor como o acto sexual (enquanto que o erotismo, presente no Cinema, explora algo bem mais profundo: a sexualidade).
Que a pornografia é uma industria isso é inegável. Uma industria ancestral, que vem desde o primeiro baralho de cartas ou postais de mulheres nuas, já lá vão tempos imemoriais. E mesmo em pelicula, já se fazem filmes pornograficos desde a era do mudo, tendo sido na altura - estavamos nós nos anos 20 - a Suécia, um dos paraisos do cinema pornográfico mundial (e de sensualidade e desejo também percebem os suecos, ou pelo menos um que dá pelo nome de Ingmar Bergman e que marcou os cinéfilos de todo o mundo com o seu Summermed Monika, traduzido por cá sugestivamente como Mónica e o Desejo). E se a industria pornográfico continuou durante anos e anos, com algumas futuras estrelas mainstream a passarem por lá nos seus primeiros anos (ainda hoje é assim a julgar pela quantidade de oferta desses filmes que circulam pela internet com nomes aparentemente insuspeitos), foi sempre num circuito reduzido e bem underground. E se com o final do Código Hayes se ia perceber que a nudez deixava de ser "pecado" para Hollywood - sendo que The Valley of Dolls e Barbarella trataram imediatamente de o confirmar de imediato - a verdade é que a pornografia ainda não era tolerada.

Até ao dia em que o New York Times publicou um artigo sobre um tal filme pornográfico que dava pelo nome de Deep Throath. O filme, de um tal Gerard Damiano, lançou um país, já de si cheio de convulsões internas, em plena discussão. Todos queriam ver a história de uma jovem cujo o problema era ter o clitoris na garganta. Uma premissa tão fútil como o próprio cinema pornográfico, mas já se sabe, proibir é atrair, e assim o filme tornou-se num brutal sucesso de bilheteira, ajudado aqui e ali pelo comportamento "ultra-condervador" da administração Nixon (que acabaria por cair, ironia das ironias, por causa de uma outra "garganta-funda"). O filme tornou-se um elemento de culto, criou uma era na industria pornográfica (há claramente um antes e um depois Deep Throath no meio) e trouxe a pornografia para a rua. Para os clubes de video (o video foi provavelmente o meio fulcral para a difusão do cinema pornografico ao nivel a que se encontra hoje), para salas especializadas (mas cada vez mais e em cada vez mais sitios) e para o conhecimento de todos.

Mas passe o sucesso que fez Deep Throath - um filme lastimável por sinal - isso faz da pornografia, Cinema? Não precisamos de ser moralistas. Não se discute aqui a natureza do acto sexual, nem a forma como é filmado, com som editado posteriormente porque, já se sabe, durante as filmagens, cabe ao realizador das as indicações aos seus "actores". Para isso basta explorar o brilhante universo que Paul Thomas Anderson criou na sua obra-prima, Boogie Nights. O que se questiona é se o acto (ou os actos, já que nos lembramos de Vincent Gallo e do seu Brown Bunny num instante). É a necessidade de se filmar que está em causa. A necessidade de levar até ao limite o cinema choque que é a exibição integral, sem qualquer pudor, do "coitus". Como se criticam os "snuff-movies", um genero assustador e cada vez mais presente, também não se pode criticar a pornografia? A verdade é que este é o genero que mais aberto está à exploração de um universo de "Home Made Movies". Será isso Cinema? Poderá isso ser integrado no leque de trabalhos que compõem a 7º Arte? Será que há realmente um genero cinematográfico chamado pornografia? A resposta não está em mim, está na própria 7º Arte.

Se o Cinema nos mostrou que a insinuação do desejo pode ser muito mais interessante do que a exibição ou demonstração do mesmo em acto, então mais claro fica que a pornografia está muito longe de poder ser considerada como elemento da 7º Arte. Não será a personagem de Marilyn Monroe em Seven Years Itch a perfeita encarnação da sexualidade, e do desejo? Não o será muito mais que qualquer cena de qualquer filme pornográfico da história? Até porque o sexo é algo pessoal, sempre foi visto dessa forma. Ninguém precisa de ver para saber o que é, como é e com quem é. Quando Elizabeth Taylor e Paul Newman terminam Cat on a Hot Thin Roof com a porta do quarto a fechar-se, todos nós sabemos o que vai acontecer. Por muito que o queiramos, não precisamos de ver mais nada. E isso meus amigos, isso é Cinema!
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às setembro 28, 2005 01:38 AM
Comentários
http://www.ringtones-dir.com/get/ ringtones site. ringtones site free, ringtones site, Free nokia ringtones here. From website .
Publicado por: ringtones free às setembro 11, 2006 02:40 PM
eu tenho 20 anos e tenho muita vontade de ser um ator porno, qualquer coisa entre em contato esperarei uma resposta!
Publicado por: Rodrigo às janeiro 29, 2006 05:59 PM
gosto muito de ver este tipo de filmes pq me faz lembrar velhos tempos .
quando a minha mulher estava de vida
Publicado por: bruno às novembro 16, 2005 08:11 PM
Expliquei-me mal Miguel. O que eu quero dizer é que o porno mostra as coisas tal como elas são no filme, não na realidade. Não significa que o acto sexual seja na realidade como no filme. Pode ou não ser - há fetiches para tudo, acredita - mas enquanto no filme, o porno mostra as coisas tal como elas acontecem. Longe de mim referir-me ao porno como uma demonstração da realidade. Aliás, até o acho um escape da realidade.
Quanto ao género em si, devo dizer que muitas vezes vi porno em grupo. Aliás, não é suportável de outra forma. Em grupo, na casa onde vivi enquanto estudei, conseguíamos (um grupo de 10 ou assim, incluindo mulheres) transformar um porno (ou porno-chachada, como lhe chamávamos) numa comédia para rir às bandeiras despregadas. Claro que para isso cortávamos o som nas cenas de sexo e voltávamos a colocá-lo nas cenas "diálogo". Se calhar também por isso tenho que considerar o porno como cinema, afinal, tal como nos outros géneros, o porno é aquilo que as pessoas quiserem fazer dele. Ou seja, é aquilo que as pessoas virem nele.
Publicado por: João André às outubro 1, 2005 03:42 PM
Welcome back João André.
Não concordo que o cinema porno é o cinema que mostra as coisas como aconteceram, num genero de kinopravda a la Vertov, porque a maior parte dos acontecimentos, do acto em si, e porque não dize-lo, dos seus interpretes, é tudo menos realista. E não é preciso entrar em detalhe para perceber que o cinema pornografico idealiza o acto sexual, não o representa fielmente.
Em relação ao que dizes do Deep Throat, vi-o e não gostei (confesso que nunca gostei de nenhum filme pornografico) mas percebo o sentido de humor que o filme tem, e que é realmente a sua mais valia dentro do filme. Porque de facto o Deep Throat é um marco na história por ter trazido um debate para a boca do mundo sobre a sexualidade e a forma como é vista. Como dizia uma senhora no Inside Deep Throat, "não gosto de filmes porcos mas quero ter o direito de os ver". E nesse aspecto a sua existência é fundamental. Mas continuo sem conseguir olhar para o porno como um genero (mesmo com o Russ Meyer e tudo o mais)! Mas lá está, isso sou eu!
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às setembro 30, 2005 11:49 PM
O que dizes é interessante, mas para dizer a verdade prefiro uma outra definição acerca da pornografia, dada por Umberto Eco. Ele dizia algo do género de o cinema pornográfico o ser por mostrar as coisas como são enquanto o são, isto é, num filme pornográfico não é só o sexo que é mostrado exactamente como é e pela sua duração normal (na história, evidentemente), também uma viagem de automóvel tende a ser mostrada na sua duração completa, uma "acção" da "história" do filme tende a decorrer de forma "normal", dentro do mesmo dia, por exemplo. Nesta lógica, o cinema porno será, antes de mais, o cinema voyeur, o cinema que mostra as coisas como elas aconteceram. E fá-lo de forma descomprometida, não se preocupa se as pessoas gostam ou não. Quem gosta que veja, quem não gosta pode não o ver.
Gostei de saber que vite realmente o Deep Throat. Eu também o vi e, ao contrário de ti, até gostei do filme. É cinema de qualidade? Não, obviamente que não o é. Mas não está inferior a muitos série B que por aí andam. E para dizer a verdade, descontando a produção, acabo por lhe achar mais piada que a qualquer American Pie, não porque seja realmente melhor, mas porque assume a sua falta de qualidade com humor.
O humor foi, na realidade, e a par da criatividade do "argumento", o que tornou o filme num sucesso americano (em Portugal teve a ver com o 25 de Abril, por isso a conversa é diferente). A ideia é gira: uma mulher com o clitóris na garganta. A carrada de homens que a amiga recruta para terem sexo com Linda Lovelace, para a ajudar a ter um orgasmo, acaba por ter piada. Mais tarde, as paranóias de alguns dos "doentes" que Lovelace trata também divertem. Claro que este é um filme para se ver de botão de telecomando na mão. Para quem gosta do género, serve para passar as cenas sem sexo, para quem não gosta serve para passar as cenas com sexo. E, por fim, há a música. Deliciosa e também divertida, feita de propósito para o filme.
Não vi ainda o Inside Deep Throat, espero que por aqui passe entretanto. No entanto, ver o Deep Throat é mais que ver um filme porno, é ver um retrato de época, pintado involuntariamente por detrás da história. É ir para um tempo em que o sexo não era uma indústria e não havia o medo da SIDA. É uma forma de ver o outro lado do Booggie Nights. Para isto também seria engraçado ver o Wonderland, sobre John Holmes, não tão bom, mas ainda interessante como retrato.
Porno é cinema? Sim, claro que sim. Se há cinema bom e mau, porque razão este género - notoriamente mau - não poderia ser cinema? Não é para todos, mas também nem todos conseguiriam "ver" o Branca de Neve do João César Monteiro.
Publicado por: João André às setembro 30, 2005 02:24 PM
Onde se lê Deep Troath deve, naturalmente, ler-se Deep Throat.
Publicado por: LP às setembro 29, 2005 11:29 AM