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setembro 27, 2005
Red Eye - O Que nos Leva a Fazer o Medo?
O que mais impressiona em Red Eye é a solidez à volta da qual o filme é construido. Não há planos ou diálogos a mais. Há um enorme tacto na abordagem a uma história que poderia ter sido filmada de diversas maneiras. No entanto, era dificil que alguma fosse tão interessante como esta. E assim, aos 66 anos, Wes Craven assina o melhor filme da sua vida.
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Depois de se ter dedicado ao cinema de terror, nas suas múltiplas abordagens, ora mais horror como em A Nightmare on Elm Street (um dos piores filmes da década de 80, mas não tão mau como os seus sucessores), ora numa vertente mais kitsh - a dose tripla de Scream - a verdade é que Craven conseguiu juntar mais de trinta anos de experiência a uma base sólida de thrillers de Serie B feitos desde dias imemoriais em Hollywood, para orquestrar um filme extremamente inteligente e sóbrio.
Admirado por muitos, e indiscutivelmente um dos grandes nomes do cinema de terror das últimas duas décadas, Craven transforma-se neste Red Eye claramente. Nele há menos do cineasta que aterrorizou pequenos e graúdos, e há mais de um autor que conhece bem a origem do thriller norte-americano, na sua génese nos pequenos filmes de Serie B, e que explora essa realidade em diversos niveis. E isso acaba por fazer uma história inverosimel, quiça mesmo desinteressante, num filme captivante, sóbrio mas também extremamente brutal. Só que a brutalidade - tirando aqui e ali uma ou outra cena espantosa de violência visual - está aqui no subconsciente, no sofrimente da personagem central do filme, que se vê ameaçada, não só na sua integridade fisica mas também na dos que mais ama. E é essa dúvida que se coloca à sua volta que é explorada insistentemente ao longo do filme - deixando sempre espaços abertos para pequenas sub-plots mas que nada acrescentam - se bem que também não distraem - e que na verdade é a sua trave mestra.

Um jogo do gato e do rato - com dois actores a cumprirem (e a excederem mesmo) tudo o que se lhe pedia deles. Um jogo cruel, mas aberto a pontos de viragem nas alturas mais improváveis. E um jogo acente no medo. O omnipresente medo que começa na alusão ao medo da morte (será puro acaso que a jovem Lisa venha de um funeral?), e que passa por todos os outros pesadelos da personagem - o medo de voar, o medo da violação (cena do quarto de banho sempre a roçar um erotismo visceral, o medo de perder o pai, o medo de sacrificar inocentes) - brilhantemente explorados pelo executor, a assombração bem real de que é Jack Rippner, numa interpretação extremamente bem conseguida (a lembrar Christian Bale em American Psycho) de uma rising star. É no seu olhar, primeiro sedutor (é preciso criar o ambiente de um engano antes de o por em prática), depois assustador pela naturalidade com que está disposto a levar avante os seus planos (se bem que aqui Craven é súbtil ao criar tremores, nervosismo na sua personagem...afinal os vilões também são humanos), que se encontra a origem do medo que atormenta Liza. E é nela que vemos o reflexo desse medo, também no olhar, inicialmente quase em tom virginal e inocente, mas um tom que é rapidamente desmascarado por uma cicatriz que se vai revelar decisiva no ponto decisivo da narrativa (e aqui também a transformação de Rachel McAdams, que não nos fartamos de dizer, é um dos grandes nomes do futuro, é fabulosa). São dois excelentes desempenhos, de sofrimento e revolta no caso de McAdams, de frieza e quase despero no final, de Murphy, que sustentam a narrativa sólida montada por Craven, e que transformam o filme numa realidade humana (basta imaginar o surrealismo de Flightplan, o filme também passado em aviões que Jodie Foster acabou de estrear para perceber a diferença de nivel), e por conseguinte, em algo muito mais intenso e profundo.

Red Eye é o nome que se dá aos vôos nocturnos que atravessam os diferentes estados dos Estados Unidos. É um vôo desagradável, turbulento por vezes, um vôo que quase funciona como contraponto das estradas nocturnas dos velhos clássicos policiais de Chandler e Hammett. A noite, sempre presente na filmografia de Craven (podemos mesmo dizer que é um dos mestres na utilização do universo crepuscular) presencia esta história de coragem e medo, este duelo de David e Golias. E como o cinema será sempre o cinema, e Hollywood será sempre Hollywood, não há nada como esperar por uma vitória fácil de David. Mesmo contra todas as expectativas. E este Red Eye funciona também ele como um David se o comparar-mos com outros filmes do genero. E também neste caso, fica a ideia de que o confronto foi ganho, contra todas as probabilidades.
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O Melhor - A dupla de actores que transforma esta história em algo convincente e extremamente humano. Estamos claramente na presença de duas rising stars, sendo que Rachel McAdams dá os primeiros passos como actriz de talento acima de média, enquanto que este ano Cilian Murphy arrisca-se a ser nomeado a alguns prémios pelo seu desempenho em Breakfast on Pluto, um filme bastante interessante.
O Pior - Se exceptuarmos a improbabilidade da narrativa (afinal isto é Serie B a la Hollywood com tudo o que tem de bom...e de mau) sentimo-nos um pouco defraudados na acção final. Depois de mais de uma hora de grande intensidade emocional, os últimos minutos trocam-nos um pouco as voltas na transformação da história num duelo pessoal pouco convincente.
Curiosidade - Como tem vindo a ser hábito, Wes Craven não só dirige o filme. Também entra como figurante, seguindo o exemplo de tantos realizadores que um dia lembraram-se de que o que Alfred Hitchock fez (por necessidade) tinha piada.
Site Oficial - www.redeye-themovie.com
Realizador - Wes Craven
Elenco - Rachel McAdams, Cilian Murphy, Brian Cox, ...
Produtora - Dreamworks
Duração - 85m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às setembro 27, 2005 12:35 AM
Comentários
Viva,
Concordo que estamos na presença dum bom filme, com uma boa gestão dos espaços e do suspense. Mas continuo a ser maior admirador doutro tipo de cinema série B como o de John Carpenter ou o de David Cronenberg. Mas vale a pena ver este filme!
http://filhodo25deabril.blogspot.com/2005/09/570-sala-de-cinema-red-eye.html#comments
Abraço,
Publicado por: Ricardo às setembro 27, 2005 03:24 PM