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setembro 26, 2005
She Hate Me - Três vezes Spike
O titulo desta critica não tem muito a ver com a classificação final de She Hate Me. A verdade é que Spike Lee desdobrou-se numa tripla dimensão, que é a razão dos melhores mas também dos piores momentos deste seu filme. Porque quem quer contar três histórias, arrisca-se a não conseguir contar nenhuma.
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Tentem fazer um filme sobre mulheres lésbicas que anseiam engravidar e que para isso encontram um "garanhão" negro (e nesse aspecto Lee tem sempre cuidado em valorizar os atributos do homem negro) que precisa de dinheiro para manter um estilo de vida de altissima qualidade. Agora tentem fazer um filme sobre os escandalos financeiros que têm devastado os Estados Unidos nos últimos anos. E para terminar, façam também um filme em tons caprianos, onde a dignidade do homem negro (ou afro-americano como lá se prefere dizer) é posta em causa injustamente. Dose não é? Agora tentem fazer, não três filmes, mas só um. Impossivel?
Bem, Spike Lee achou que não. E daí sai este She Hate Me, filme que data do ano passado (o que se percebe bem na hostilização ao Partido Repúblicano, afinal, era ano de eleições) e vive na eterna ambiguidade. Isto porque não se percebendo bem qual a premissa central da história, e sabendo nós que contar três histórias tão distintas, e ligadas apenas de forma súbtil, e algo forçada admite-se, fica no final uma sensação de vazio. Mas essa é uma sensação final, porque ao longo do filme, história a história, percebemos que andou ali a mão de um realizador talentoso, irreverente, que sabe fazer cinema nos Estados Unidos sem fazer cinema de Hollywood (quantos poderão dizer isso? Allen, Jarmush, Payne, Sofia Copolla, Anderson, Shyamalan??) e que sente que ali histórias que têm de ser contadas. Mesmo em sacrificio de uma sensação final de harmonia, que nunca acontecesse (mesmo que Anthony Mackie se tenha esforçado imenso para o conseguir).

Vamos então por partes. O filme abre com a problemática das grandes fraudes finaceiras em companhias farmaceuticas, uma indústria que mexe com milhões em todo o mundo e cujas contas estão longe de ser muito claras. Aqui Lee não perdoa na forma como condena o comportamento da indústria, e mais, explora aqui o sacrificio individual de um empregado consciencioso (e não um empregado qualquer, um vice-presidente) para benificiar as cúpulas, corruptas até ao tutano. Surge aqui a imagem do jovem sacrificado, que depois vai abrir caminho á exploração das restantes histórias. Mas com o filme a voltar no final a este ponto, sentimos que se andou demasiadas vezes aos circulos confundindo-se sempre as coisas. Se por um lado a exploração do negro na sociedade americana é algo a que estamos habituados a ver em Lee, e aqui a dimensão capriana do discurso final e das suas atitudes, relativamente a esse caso, são paradigmáticas do que tem vindo a desenvolver desde sempre, a verdade é que só isso acaba por ser muito pouco. Não é o nucleo do filme quando deveria ter sido.
Neste She Hate Me, o enfoque é dado ás aventuras sexuais do jovem (de quem a sociedade não sabe se condenar ou exultar pela sua coragem, que se confunde com libertinagem, especialmente se tivermos em conta o final, muito ao jeito de um menage a trois que é mais uma brincadeira do realizador do que algo que deva ser levado a serio) de quem há pouco tinhamos estado a ver como Cristo cruxificado da indústria farmaceutica. E é neste emaranhado de situações que o filme se perde como filme. Mas, curiosamente, é nesta história que encontramos os melhores momentos de She Hates Me. Momentos de representação, onde Anthony Mackie se assume como uma clara rising-star, momentos de humor (umas vezes troçando das lésbicas, outras vezes troçando do ideal machista) e com direitos a pequenos episódios dentro da história, como a incursão de uma familia da Máfia (com John Turturro no seu 12º filme com Lee a conseguir um momento delicioso ao imitiar Marlon Brando em The Godfather) sob a desculpa de acrescentar ao leque de mulheres, a bela e sensual Monica Belluci.

E se de desempeho é dificil falar, porque o filme é Mackie, Mackie, Mackie e só depois vêm os outros (ou outras neste caso), não é demais exaltar a forma como o jovem actor, que se estreou em 8 Mile e que passou por Million Dollar Baby, se vai transformando ao longo do filme, sendo ele o único elo entre as três histórias. Para um realizador como Spike Lee, que já trabalhou com todas as pérolas negras do cinema, exceptuando Morgan Freeman, é interessante ver a escolha que fez para liderar o seu elenco. Porque Mackie é mesmo um nome a seguir. Mas não é o único. Depois do seu agradável desempenho em Ray no ano passado, pudemos confirmar que Kerry Washington é realmente uma actriz de calibre, capaz de aliar a sensualidade a momentos de forte carga dramática. E apesar de haver outros nomes ilustres no elenco (Woody Harrellson, Ossie Davies, Ellen Barkin, John Turturro, Monica Belluci), é o conjunto de desempenhos, e os pequenos gags das sessões de "fertilização" que acabam por funcionar melhor.

Depois de um 25th Hour, era dificil fazer algo muito melhor, não fosse essa uma das mais brilhantes pérolas cinematográficas dos últimos anos. Mas esperava-se um pouco mais deste She Hate Me. Esperavas-e, acima de tudo, clarividência para escolher uma história e explorá-la. Além do mais, o filme tem ainda uma quarta história, que não é bem uma história, é mais um ajuste de contas. Os sucessivos episódios sobre Watergate, e o brilhante e original genérico inicial, denotam desde logo que Spike Lee não perdeu mais uma oportunidade para alfinetar a América. Ou pelo menos a América que, segundo ele, continua a não tratar os negros (ou afro-americanos) da forma como eles merecem. Uma América personificada por Bush. Uma América desconstruida por Lee.
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O Melhor - Talvez por estar fora do contexto do filme, a cena genial em que John Turturro revisita um dos momentos mágicos de Marlon Brando em The Godfather, é genial. Uma amostra do brilhante actor que é Turturro no filme do amigo de sempre.
O Pior - As cenas em que Mackie engravida o leque de mulheres lésbicas que lhe batem á porta até estavam a correr bem, mas utilizar imagens animadas para explorar a concepção real, foi uma ideia infeliz.
Curiosidade - Com este She Hate Me, a colaboração entre Spike Lee e John Turturro chega á dúzia de filmes. Uma colaboração que teve inicio nos anos 80 e que desde aí para cá tem sido constante.
Site Oficial - www.sonyclassics.com/shehateme
Realizador - Spike Lee
Elenco - Antohny Mackie, Kerry Washington, John Turturro, ...
Produtora - Sony Pictures
Duração - 138 mClassificação - m/16
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às setembro 26, 2005 12:51 AM
Comentários
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Publicado por: ringtones free às agosto 25, 2006 04:49 AM