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outubro 05, 2005

A (im) pertinência dos remakes!

O palco mágico das ideias que era Hollywood estará em vias de desaparecer? A recente aposta dos estúdios em sucessivos remakes de filmes de sucesso (ou nem isso) tem levantado imensas questões sobre o estado actual do cinema norte-americano. Afinal porquê fazer remakes? Será cinema de homenagem aos trabalhos originais, a tentativa de um realizador melhorar ou alterar o que já foi feito ou apenas uma profunda crise de criatividade na "terra dos sonhos"?
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Só este ano teremos nas salas nacionais remakes de dois grandes clássicos da história do cinema: King Kong e All the King´s Men. Os filmes originais são trabalhos fascinantes. O de Merian C. Cooper é um verdadeiro marco da evolução técnica do cinema numa época em que Hollywood ainda se estava a habituar ao universo do cinema sonoro. Já o filme de Robert Rossen é um drama espantoso sobre uma realidade politica que ainda hoje está presente em qualquer país do mundo, mostrando ao mundo o espantoso actor que era Broderick Crawford. E se ambos os filmes foram um sucesso nos seus anos de origem, porquê fazer agora novas versões de uma história que a maior parte dos amantes de cinema já conhecem?
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Essa é a pergunta que se coloca sempre que um estúdio decide dar luz verde para refazer um filme, tenha sido ele um sucesso marcante ou apenas mais um produto da indústria de Hollywood.
E,como em tudo, não há uma realidade única. Não se podem comparar remakes como Psycho, onde Gus van Sant recriou, plano a plano, o clássico de Hitchcock, com filmes como Taxi, que de grande sucesso comercial francês passou também a ser o nome de um dos piores filmes alguma vez feitos neste novo século em Hollywood. Ou então a forma como Soderbergh e companhia pegaram em Ocean´s Eleven, respeitando o espirito original do Rat Pack, que defendia que um filme como este deveria ser feito e vivido num ambiente cool. Ainda hoje é dificil escolher qual das versões respeita mais esse espirito. Para não falar no recente Charlie and The Chocolate Factory, onde Burton pega na história de Dahl e não faz propriamente um remake, mas sim um novo filme a partir da ideia original, que é também a premissa do filme que tem Gene Wilder como cabeça de cartaz.
Ou seja, há múltiplas formas de voltar a pegar num filme e faze-lo de novo. A questão que se coloca é a sua real pertinência. Para quê fazer um filme que já foi feito?
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Em resposta a isso há os remakes que o cinema norte-americano adapta à sua realidade. Foi assim com Seven Samurais, o genial filme de Akira Kurusawa que deu lugar ao icone-pop The Magnificent Seven. Foi assim com a versão norte-americana de A Bout de Soufle, que não conseguiu entrar para a história. E vai ser assim para o ano quando estrear The Departed, o filme que Martin Scorsese resgatou ao cinema japonês e adaptou-o à sua amada Nova Iorque. E quem fala nisso fala nas sucessivas adaptações de sucessos europeus e asiáticos, desde Vanilla Sky até The Ring (e aí o universo de terror é bastante prolifero), filmes cuja única pertinência para o público norte-americano é tirar as legendas dos originais e substituir actores desconhecidos pelas estrelas do star-system. A eles, norte-americanos, estes filmes dizem-lhes algo. A nós são exemplos de pura falta de imaginação.
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Porque não é o mesmo re-adaptar obras literárias - onde há a legimitidade do realizador tentar contar a história à sua forma - como tem acontecido com os filmes inspirados na prolifera obra de William Shakespeare (e talvez o melhor exemplo seja Henry V, o de Lawrence Olivier, mas, essencialmente, o de Kenneth Branagh) ou na literatura romântica que deu ao cinema alguns dos maiores êxitos populares, desde Os Três Mosqueteiros a Robin Hood. Neste caso, e por estas histórias serem verdadeiramente universais, percebe-se a legiitmidade de procurar novas abordages (Mel Brooks e Kevin Costner viram dois Robin dos Bosques bem diferentes). O próprio Alfred Hitchcock não teve problemas em explorar de novo uma realidade já por ele criada com The Man Who Knew To Much. E quem viu ambas as versões sente que Hithcock percebeu que podia explorar melhor a história, e afinal, Lorre não é Stewart. Mas esses remakes não são certamente os mais frequentes. Mesmo havendo ainda diversos realizadores-autores que preferem expressar a sua admiração por um trabalho, voltando a fazer o mesmo filme, como van Sant fez com Psycho ou como Polanski decidiu fazer este ano com Oliver Twist, o mesmo que ajudou a imortalizar o nome de David Lean.
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Mas por cada um desses filmes, o mais natural é olhar para a lista dos remakes que anualmente saem da fábrica de Hollywood. Nem é preciso ir muito longe com os exemplos de verdadeiros êxitos do passado como Mr Deeds Goes To Town, Sabrina, Gloria, Manchurian Candidate, Litlle Women, Lolita ou Great Expectations, dão lugar a filmes cujo o valor e qualidade são infinitamente inferiores aos originais. E é nesses casos, onde nada de novo se trouxe com esses novos filmes, que se pergunta o porquê da constante aposta dos estúdios norte-americanos nesses projectos. E aí a resposta encontra-se com facilidade. De facto é cada vez mais notório que Hollywood vive uma indesfarçável crise de criatividade. Mais do que os próprios remakes, são as sequelas sucessivas (e hoje fazem-se sequelas de tudo e mais alguma coisa) que gastam uma ideia até ao limite e saturam o público. As salas de cinema nos Estados Unidos ficam mais vazias de ano para ano. No final do ano todos se perguntam os porquês de uma realidade que nunca passa pela cabeça dos chefes dos estúdios antes de avançarem com os projectos. Só no fim quando os fracassos se vão sucedendo. O público não está disposto a ver o que já viu se isso não lhe disser nada. Hoje, cada vez mais, os seriados televisivos, os filmes de menor orçamento mas de maior originalidade, ganham a estes produtos de estúdio que reciclam, não só ideias, mas filmes já feitos e refeitos.
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No final deste ano, poderemos ver King Kong, All the King´s Men ou Oliver Twist, três remakes de filmes históricos do cinema. Em todos os casos a novidade não está na história, mas na sua abordagem. Jackson irá homenagear o filme que o fez apaixonar pelo universo do cinema. Zaillian vai tentar mostrar que o que era válido em 1949 continua a sê-lo hoje, que os All the King´s Men continuam aí. E Polanski, esse artista maior do cinema mundial, rendeu-se ao universo de Dickens, explorando-o com a sua habitual magia e crueza. Mas esses serão sempre excepções. Excepções que confirmam a regra. Sempre se fizeram remakes, mas hoje os motivos mudaram. Hollywood está em crise. As ideias já não estão armazenadas em caixas nas arrecadações dos estúdios. E na hora do aperto, o jogar pelo seguro, o fazer o que já foi feito, nem sempre compensa. Porque nem todos os remakes valem a pena serem feitos. Nem vistos!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 5, 2005 10:37 AM

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