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outubro 11, 2005
Alice - A imensa dor da perda
O cinema português tem insistido, ano após ano, em virar aos costas ao seu público com apostas totalmente desenquadradas do panorama cinematográfico actual. De vez em quando lá aparece uma pequena pérola que nos faz pensar que ainda há esperança. Alice é mais do que uma simples pérola. É uma obra brutal, um filme que nos toca bem fundo. Nunca o cinema português foi tão puro!
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São poucos os filmes portugueses que fazem com que uma sessão da tarde num cinema qualquer se encontre praticamente cheia. Sinal dos tempos? Não. Alice não está aqui para mudar nada, nem para ressuscitar o cinema português - quando é que ele esteve realmente vivo? - nem para aproximar o público dos cineastas nacionais. Alice será um caso único. E isso faz do filme um objecto ainda mais pessoal e tocante. Uma sessão cheia sim. Uma sessão onde as lágrimas e a dor transpuseram o sofrimento da tela e tornaram-no real. Um sofrimento bem real, mas de certa forma assustadoramente distante. Um pouco como Million Dollar Baby. Um pouco como qualquer filme que nos faz encaixar um fortissimo soco no estomago, um filme que nos deixa, não só a pensar, mas, talvez mais importante que isso, a sentir. Quantos filmes portugueses poderão clamar os louros desta forma? Houve belissimos filmes de entertenimento e de autor em Portugal, mas nunca, nenhum deles, atingiu uma profundidade (de uma simplicidade enorme, na camara e na história) emocional tão grande como a obra de estreia de Marco Martins. Se o filme fosse americano (ou francês, ou espanhol, ou qualquer outra coisa que não "produto da casa"), certamente iria ser louvado até ao limite, falar-se-ia em prémios, em honras, em marco histórico e tudo o mais que se ouve inapelavemente, ano após ano, sempre que estreia aquele filme que conquista os supra-sumos da verdade que são os criticos de cinema. Mas, apesar da vitória em Cannes, este Alice nem sequer foi escolhido para representar Portugal nos óscares. Um erro craso, já que, conhecendo o público norte-americano, este Alice tinha realmente hipóteses de chegar mais longe que esse outro bom filme que é Noite Escura. Mas de Alice fala-se pouco e nunca se diz o essencial. Vagueia-se na mesma rotina de frases feitas, mas ao amâgo, ao interior profundo desta horrivel história transformada em belissimo filme, ainda nenhum parece ter chegado por completo!

Um autêntico tratado sobre a dor, o despero, mas também sobre a esperança!
É esta a primeira nota que se tira do filme de Marco Martins. Não é preciso ir muito longe, já que na primeira cena do filme, o olhar amargurado e vazio de Mário (que abismal performance de Nuno Lopes) diz tudo quando ouve Luisa a pedir-lhe que vá levar "um copo de leite quente" à filha do casal. Mas já não está lá ninguém. Alice desapareceu, levando ao desespero dos pais, um desespero que se vai agravando a cada frame de filme. Desespero que, em última análise, acabará por destruir por completo a vida do jovem casal, um casal como outro qualquer e que, de um momento para o outro, vê o mundo desabar-lhe a seus pés.
E é na forma como cada um encara a situação que o realizador explora a história. Num flashback podemos perceber a reacção inicial mais explosiva de Luisa (as melhores cenas de Beatriz Batarda), mas a verdade é que a sua personagem anda ao longo do filme num verdadeiro vazio enganador. A dor está lá, mas é imensamente interior, e o resultado final será o desespero absoluto. Mas é em Mário que o filme está centrado. É a sua busca diária, obsessiva, quase lunática mesmo, que nos ajuda a sentir o verdadeiro drama do desaparecimento da jovem Alice. A rotina, a repetição de movimentos, a esperança depositada na constante vigilância das ruas de Lisboa (e muito se tem falado nesta realidade cada vez mais presente do Big Brother que nos segue invariavelmente durante todos os dias, e na forma como Marco Martins explora isso com a sucessão de imagens de video de "gente vulgar") e a imensa dor, escondida numa cara que se vai transformando ligeiramente, mas de forma intensa e visceral.

A busca de Mário acaba por esbarrar nos problemas do mundo real, aqueles que todos conhecem mas que nenhum cineasta tinha explorado de forma tão seca. Alice desaparece e o que encontra um pai desesperado? A indiferença da pessoa nas ruas a quem ele distribui panfletos, a impotência das autoridades resumida numa única mas excelente cena na esquadra da policia, e a eterna descrença dos amigos. E se todos no inicio se propõem ajudar, permitindo a Mário montar uma rede de camaras de filmar por toda a cidade, á medida que o tempo passa, o seu problema já não é o problema deles. A consciência está salvaguardada, e mesmo se há alguns gestos verdadeiramente nobres, também não será aqui que Mário vai encontrar a sua tábua de salvação.
Alice é um filme de rotina que pode cansar (e fartar) o espectador mais habituado ao ritmo acelarado do cinema actual. Mas, acreditem, este ritmo (pautado por uma banda sonora fabulosa de Bernardo Sassetti) é essencial para que o filme funcione. A premissa em si poderia levar um realizador menos talentoso a arrumar o filme em muito menos tempo. Seria um erro brutal. Toda a repetição dos ritos (não é o homem um animal de ritos diários?), de lugares, de pessoas, de momentos, é necessário para reforçar a verdadeira dor que Mário sofre, a cada momento que passa. Com o filme a arrastar-se, com planos memoráveis e cenas fabulosas, vamos sentindo também a dor que marca o filme. E também é essa duração e esse ritmo que nos permitem apreciar em todo o seu esplendor o final. Um final irrevelável mas que entrará certamente para os anais da história como um dos mais belos do cinema português. Um momento de enorme dor, um soco em cheio, um momento em que até o mais seguro de si fica de boca aberta. Um momento tão simples mas, como sempre, tão pouco usual. E aí, com todo o seu sentido cru da realidade - e nisto Martins mostra uma maturidade imensa e um génio enorme - o realizador deixa-nos num sofimento ainda maior. O dia a dia, a vida, a nossa própria vida é escarrapachada no ecrãn, no meio da multidão, em dois olhares que se cruzam, num momento de uma beleza assustadora por ser também, um retrato perfeito da ideia de que a vida não faz qualquer sentido.

Tecnicamente o filme é espantoso, com momentos de ouro, desde os planos de Nuno Lopes a caminhar, pelo meio do trânsito à chuva, sem ignorar a belissima cena na piscina, entre tantas, tantas outras (as do teatro essencialmente). A banda-sonora, já o referimos, está no tom perfeito, e ajuda a entrar ainda mais no universo de sofrimento que vai pautando a narrativa. Argumento esse que é fabuloso, sem deixar pontas soltas. Há uma ideia central, uma busca que nos leva a pequenos sub-mundos, irrelevantes para a trama central mas com apontamentos excelentes, e acima de tudo, uma fixação brutal por uma personagem que não aparece, um nome sem corpo, sem voz, sem presença. Lembramo-nos logo dessa obra-prima que é Suddenly Last Summer (com o ausente e ambiguo Sebastian a levar Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn, cada qual á sua maneira, a uma loucura que só Montgomery Clift consegue desvendar), e lembramo-nos que a ausência em sim é o drama. Não é tanto a busca infrutifera, os falsos-alarmes, o sofrimento e a dor. Tudo isso é o resultado directo dessa ausência nunca totalmente percebida, mas sempre sentida. Para além deste núcleo central da história, há ainda oportundiade para piscar o olho a essa nova obsessão da sociedade que é o eterno voyeurismo, a constante presença de camaras que captam tudo o que fazemos. Hoje já não há o respeito por uma das principais liberdades individuais. Estamos sempre a ser observados por alguém. Marco Martins explora esse tema sem nunca tirar os olhos do principal, mas mesmo assim da-nos a oportunidade de percebermos que hoje, o dificil é não estarmos a ser vistos por alguém e não o contrário.
Em relação ao elenco - recheado de grandes nomes, mas centrado numa figura - há pontos essenciais a referir. A camara apaixonou-se por Beatriz Batarda há muitos anos e continua a amá-la intensamente. O seu papel não é grande, e acaba mesmo por ir sendo ofuscado pelo personagem decadente mas apaixonante de Nuno Lopes. Mas a cada momento que Batarda entra em cena, não restam quaisquer dúvidas de que estamos na presença da melhor actriz portuguesa da actualidade. Quem também mostra todo o seu valor e credenciais é Miguel Guilherme, que apesar dos pouquissimos minutos em cena, traz um lado humano fortissimo que ajuda a contra-balançar com o desespero de Mário. Porque Alice é Mário, ou seja, o filme é todo desenhado à volta da personagem vivida na perfeição por Nuno Lopes. Desde o primeiro ao último plano do filme, ele é a nossa ligação com aquele mundo, é a personagem que amamos, ele acaba por ser cada um de nós reflectidos na tela. Ao ver Lopes lembro-me de uma outra personagem dramática, sempre em movimento, sempre em desespero: Adrien Brody na obra-prima de Polanski, The Pianist. Realidades diferentes, sim claro! Mas um imenso trabalho de composição do personagem, na sua quase total anulação perante o dramatismo da narrativa. Aqui o olhar, uma ou outra palavra, um esgar, são suficientes para pautar o ritmo da personagem, num perfeito under-acting que culmina numa cena fabulosa em que, de joelhos, o peso do mundo acaba mesmo por desabar sobre as costas de Mário, levando-o a repensar a própria existência, ou melhor, a sua não existência. Nuno Lopes é sublime em todos os instantes e afirma-se, definitivamente, como um dos maiores actores nacionais. E com o passar dos anos, restam poucas dúvidas que o trono acabará por lhe pertencer em exclusivo!

Não é dificil perceber que, apesar de toda a sua simplicidade e crueza, Alice é um dos melhores filmes portugueses dos últimos cinquenta anos. E não exagero, mesmo sabendo das pequenas pérolas que desde os anos áureos da comédia à portuguesa têm iluminado os amantes de cinema em Portugal. Alice é tudo o que uma obra-prima deveria ser. Uma história fabulosa, apesar de triste e inquetante. Um realizador com principios de uma "doença" que se chama genialidade. Um elenco espantoso alicerçado num dos melhores desempenhos de um actor em Portugal. Uma banda-sonora e fotografia inesqueciveis. E aquela sensação, aquela dor na barriga que nos dá a certeza de que é impossivel ficar indiferente a este filme. Se fosse norte-americano, se Nunes Lopes fosse um Sean Penn e Marco Martins um Spielberg, agora estava-se em falar em óscares. Cá não temos disso. Mas, para compensar, temos a certeza que Alice é um daqueles filmes que ficará para sempre na memória de quem o viu. E hoje, isso até vale mais que um óscar para um filme made in Portugal.
Classificação - ![]()
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O Melhor - Todo o filme, praticamente sem excepções, mas com destaques para o desempenho de Nuno Lopes e duas cenas irreveláveis mas avassaladoras.
O Pior - O beijo de Anna Bustorff a Nuno Lopes.
Curiosidade - Ver Alice é também a oportunidade de ver dois dos melhores profissionais na sua arte, a trabalharem juntos. Tal não seria grande novidade não fosse o laço que os une. O compositor Bernardo Sassetti é casado com Beatriz Batarda, e ambos esperavam um filho quando o filme começou a ser rodado. Talvez isso também tenha contribuido para adensar o clima familiar que rodeia o filme.
Site Oficial - www.madragoafilmes.pt/alice/
Realizador - Marco Martins
Elenco - Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme, ...
Produtora - Madragoa Filmes
Duração - 103 minutos
Classificação - m/16
PS - O filme contou com a preciosa colaboração de Filomena Teixeira, mãe do jovem Rui Pedro, desaparecido quando tinha 11 anos, e que parece ter sido raptado por uma rede de pedófilia. Terá sido este o destino de Alice? O importante é não esquecer que este sofrimento é bem real. Milhares de crianças desaparecem por ano, deixando pais em estado de desespero. Por isso serve também esta critica para homenagear todos aqueles Mários e Luisas do nosso mundo.
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 11, 2005 08:59 PM
Comentários
ao fim deste tempo todo, continuo a achar o alice lindo.
poderia apontar uma cena de que não gosto, mas que importa isso? o resultado final vai para lá do bom.
obrigada pelo mário. e pelos cães de papel.
Publicado por: safira às junho 6, 2006 12:37 PM
Eu adorei ver o filme.
Deve ser um drama não saber de um filho. Para todos que estão a passar por esta situação desejo a maior força.
Os meus parabéns aos actores/produtores!
Lídia
Publicado por: Lídia Albuquerque às maio 23, 2006 11:06 AM
Moi aussi, je cherche mon Alice, juste un peu plus grande et du pays des merveilles; je lui ai donné rendez-vous,il y a peu, A LISbonne, sans connaître absolument ce film! Mais elle ne réponds jamais, mon itALIENnne. Vincent da Francia
Publicado por: vincent às fevereiro 22, 2006 03:50 PM
O NUNO LOPES É CÁ UMA BRASAAAAAA.....!!!!! Ai mae, se eu o apanhaxe a frente!!!! Mas sim, o filme é excelente... Pesado mas mto bom! Esta rodeado de uma atomosfera muito fria, melancolica, escura,... mas justifica-se tudo isso devido a historia. a pessoa fica COMPLETAMENTE dentro do filem...
P.S. - O NUNO É CÁ UM PÃO, por isso por ele tb vale a pena ir ver o filme... ah, tb representa bem!!!!
Publicado por: Tania & Ana às dezembro 12, 2005 04:25 PM
excelente e muito marcante.
seria dificil representar melhor a dor de uma perde assim.
Parabéns
Publicado por: filipa ribeiro às novembro 27, 2005 06:35 PM
excelente e muito marcante.
seria dificil representar melhor a dor de uma perde assim.
Parbéns
Publicado por: filipa ribeiro às novembro 27, 2005 06:35 PM
5 estrelas? Um perfeito exagero. :)
Alice é um filme com uma história bem feita, mas sem ligação emocional suficiente que agarre o espectador. PAra além disso e´desesperadamente lento e repetitivo.
Tem uma excelente fotografia e uma excelente realização, com a opção talvez exagerada de manter as imagens num constante azul.
Alice poderia ser um filme mutissimo melhor, mas quanto a mim ainda merece 3 estrelas.
Publicado por: cachucho às novembro 5, 2005 04:41 PM
Há muito que sonho com o um filme portugues com este nivel, apaixonado com a grande qualidade. e como portuges e por vezes bastante nacionalista, recomendo e se fosse da pide, obrigava a irem vier. ^_^
Publicado por: Pedro às outubro 14, 2005 09:14 PM
Não Marfil. O filme escolhido foi o Noite Escura do João Canijo. Mas confesso que preferia este!
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às outubro 12, 2005 06:49 PM
o melhor filme do ano. mai NADA!!!
Publicado por: André Batista às outubro 12, 2005 02:45 PM
Esse filme é o escolhido para representar Portugal no Oscar, Miguel? Dia 15, eu apareço para ver suas previsões para 2006...
Publicado por: Marfil às outubro 12, 2005 01:41 PM