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outubro 10, 2005
Antevisão - A History of Violence
Cronenberg sempre foi um cineasta de culto. As massas torciam o nariz ao ouvir o seu nome, que só por si já se podia estabelecer como elemento de comparação a titulos de obras suas. Mas desta vez o público - e a critica - rendeu-se por completo ao seu novo filme. Chama-se A History of Violence, é um retrato cru sobre um homem que é forçado a expor um passado que pensava bem enterrado e conta com um elenco de luxo!

O Hollywood abre aqui uma nova rúbrica. O espaço Antevisão passará a funcionar regularmente ás segundas-feiras. Todas as semanas será feita uma antevisão sobre os grandes titulos a estrearem em Portugal nos tempos mais próximos. Numa primeira fase, a Antevisão será composta por uma análise aos 20 titulos mais importantes a estrearem por cá entre Outubro e Fevereiro. O filme de David Cronenberg abre este novo espaço!
O mito David Croneberg começou a desenhar-se nos anos 70 e consolidou-se na década seguinte com três obras fundamentais: DeadZone, The Fly e DeadRingers. A partir daí deixou de existir qualquer dúvida sobre o enorme talento do canadiano em passear por universos alternativos e obscuros, retirando deles a dose certo de magia para criar verdadeiras obras miticas. E se nos anos 90 a carreira do realizador continuou a seguir os mesmos moldes, aventuras mais intimistas como Spider não conseguiram o eco que mereciam e podiam ter tido. Talvez por ser um realizador demasiado conotado com o universo fantástico, foram poucos os que acreditaram que Cronenberg fosse capaz de trasnformar um filme mainstream num verdadeiro sucesso.
Mas foi isso que aconteceu!
Com uns espantosos 87% de reviews positivas no Rotten Tomatoes e com resultados espantosos no box office (o maior sucesso de sempre do realizador), que fazem com que o filme ainda esteja no top10 com um lucro acumulado de mais de 15 milhões de dólares, A History of Violence tornou-se num fenómeno raro. Pela primeira vez Cronenberg é popular. Não só entre os criticos que não poupam elogios ao seu trabalho contido nos efeitos e na camara, mas extremamente intenso na acção e nas personagens que desenvolve, como entre o público que parece ter elegido este como um dos grandes sucessos de Outono deste 2005. Será por isso natural perguntarmo-nos o porquê deste surpreendente sucesso.
A History of Violence é a adaptação de uma comic book de sucesso de John Wagner e Vince Locke. O filme conta com uma duração de hora e meia - bem ao estilo do realizador - e leva-nos até a uma pequena vila no coração do estado do Indiana. É lá que encontramos Tom Stahl. O homem que parece o marido e o pai perfeitos, dono de um pequeno café local vai ser um dia colocado á prova, quando dois assaltantes decidem entrar no seu café, roubar e matar todas as testemunhas. Stahl vai reagir com uma frieza que ninguém conhecia, e com uma imensa habilidade, e o pacifista acabará por matar os assassinos, tornando-se no heroi da vila, que vê nele o exemplo de coragem e de moral a seguir. Daí até se tornar famoso é um saltinho, mas com a fama chega também o passado que Stahl sempre quis esconder, mesmo dos que mais amava. Um passado sombrio que poucos imaginavam ser possivel num homem daquele calibre. Um passado que pode destruir em segundos, o que ele levou uma vida a construir.

Para esta história Cronenberg apostou na direcção de actores. O realizador que já trabalhou com nomes como Christopher Walken, Jeremy Irons ou Ralph Fiennes, decidiu eleger como personagem principal Viggo Mortensen, que vai, aos poucos, tentando-se livrar da eterna imagem de Aragorn, o rei dos Homens na trilogia fantástica Lord of the Rings. E a escolha parece ter sido perfeita. Mortensen, um actor com provas dadas já antes do fenómeno tolkiano, gere as emoções na perfeição e a sua mestria é tal, que domina todas as cenas onde entra, do primeiro ao último instante. A critica não lhe poupou elogios e este pode ser mesmo o papel que o actor procurava para se afirmar definitivamente como um nome a respeitar.
Feliz foi também a escolha para viver Edie, a mulher de Tom e talvez a personagem mais fascinante do filme pela forma como é confrontada com a realidade de estar casada com um homem que desconhece por completo. A dificil tarefa foi entregue a Maria Bello, actriz do sucesso popular Coyote Bar, mas, mais importante que isso, de The Cooler, o filme que consagrou William H. Macy como actor principal. Se a critica e o público gostaram de Mortensen, que dizer de Bello. A actriz transforma-se por completo de uma parte para a outra do filme, expõe-se sem qualquer pudor, sofre as cenas mais violentas do filme e enfrenta-os com uma coragem estarrecedora e ajuda a contrabalançar o poder masculino que vai pautando o filme, e que surge nos papeis secundários de Ed Harris e William Hurt, dois nomes grandes que têm uma importante palavra a dizer ao longo da narrativa.

Depois de ter brilhado no último Festival de Cannes, A History of Violence tem tudo para se tornar num dos filmes do ano. Um argumento espantoso e já sobejamente conhecido dos amantes de banda-desenhada. A mão genial de Cronenberg na camara e um elenco que se apresenta ao seu melhor nivel. É sempre dificil imaginar como as grandes instituições da indústria de Hollywood, ou mesmo muitos dos criticos, irão olhar para este filme. Se tudo indica que tanto Mortensen como Bello estão na lista dos melhores do ano, poderá sempre haver a habitual tentação de fazer passar a imagem de que falta algo para coroar definitivamente o autor canadiano. Mas, mesmo assim, A History of Violence - que estreia por cá a 17 de Novembro - dificilmente escapará as listas dos melhores do ano de muitos amantes de cinema, um pouco por todo o mundo.
O QUE SE DIZ
"Um trihller que é uma obra-prima visceral. O último quebra-cabeças de Cronenberg é o feel-good e o feel-bad do ano!"New York Times
"Apesar da sua temática, "History" nunca perde de vista a ideia de não seguir o modelo a la Tarantino na forma como trata a violência."Los Angeles Times
"Não glorifica a violência, não a torna gratuita. É súbita e chocante!"Ebert and Roeper
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 10, 2005 07:46 PM