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outubro 31, 2005
Antevisão - Jarhead
Não é um filme de guerra. É um filme sobre a guerra. Sobre o impacto que ela tem num pelotão em plena Guerra do Golfo. Não esperem batalhas, cenas de um heroismo nunca antes visto. Neste pelotão não há herois, só homens vulgares. Para eles, estar ali não significa nada. E este é um filme sobre a monotonia de se ser soldado.

O novo filme de Sam Mendes estreia na próxima sexta-feira nos Estados Unidos mas muito pouca gente sabe o que esperar. O critico David Poland, um dos mais respeitados criticos de cinema norte-americano, arrasa o filme de alto a baixo. Outro dos grandes nomes da critica americana, Emmanuel Levy, pelo contrário, exalta a coragem de Mendes em fazer um filme de guerra nada convencional. Em que ficamos?
O facto é que desde há muito que uma nuvem de incerteza paira sobre Jarhead. O livro escrito por Anthony "Swoff" Sworfford, marine norte-americano estacionado no Iraque durante a Guerra do Golfo, foi um sucesso de vendas e a história pareceu interessante o suficiente para conseguir convencer Mendes a voltar á realização, depois do fracasso que foi Road to Perdition. A verdade é que o jovem realizador inglês, depois do sucesso de American Beauty, não esperava uma reacção tão negativa ao seu trabalho seguinte, e desde então tem-se mantido afastado de Hollywood. Será que este seu regresso segue as linhas do seu primeiro filme, um trabalho de grande imaginação e irreverência, ou terão ficado sequelas da eperiência falhada que foi o filme de gangster com Tom Hanks, o mais improvável dos assassinos a sangue frio, a liderar o elenco?

A história de Jarhead é bem diferente da que encontramos nos outros filmes de guerra que têm feito o mosaico da sociedade norte-americana dos últimos trinta anos. Semelhanças com Deer Hunter, Apocalipse Now, Platoon ou The Thin Red Line não devem surgir ao longo do filme. Aqui há mais um sentimento herdado directamente de Full Metal Jacket, mas com uma visão menos negra e mais divertida do que é ser um marine. O próprio titulo - alusivo ao corte raso dos soldados norte-americanos - indica que não estamos diante de uma história convencional. Seguimos o soldado Swoof, um jovem acabdo de chegar ao Iraque. Não interessa aqui a sua posição sobre legitimidade da guerra, dos mortos inocentes, das baixas entre os colegas ou nada que se lhe pareça. Em Swoof há uma imensa despreocupação por tudo á sua volta. E é para explorar esse vazio que existe nos soldados durante uma guerra - não as suas preocupações ou sentimentos sobre a guerra - que vive a suprema ironia de Mendes. Entre o dia a dia, a monotonia das mesmas caras e das mesmas paisagens, vão-se criando laços de amizade no pelotão, vivem-se situações embaraçosas, mas nunca se vive como um soldado. Ou, pelo menos, como o soldado que o cinema idealizou e que todos nós nos fartamos de ver, filme atrás de filme, onde só muda o actor. A personagem, essa é sempre a mesma.

No elenco deste Jarhead destaca-se Jake Gyllenhal. O jovem actor está a ter o ano da sua vida. Para além de viver o protagonista do filme é ainda parte do elenco de Brokeback Mountain e Proof, dois titulos interessantes e a seguir com atenção. Com o seu ar masculo, o corte de cabelo á tropa, e uma imensa frieza, Gyllenhal consegue viver bem a sua personagem, com um enorme á vontade, e isso é meio caminho andado para seguir o espirito do Swoof original. Já á sua volta vive um imenso pelotão de figuras e figurões onde há o eterno instrutor durão - neste caso vivido com estilo pelo recém-oscarizado Jamie Foxx - o amigo insperável de Swoff - mais um papel inesquecivel de Peter Saasgard ao que se pensa - e um grupo de competentes actores, prontos a viver estes quase "não-soldados".
E a comandá-los está o talentoso Mendes, que continua a ser demasiado irreverente para muitos. Dono de uma ironia mordaz, o britânico encontra neste palco de guerra bem actual, a base perfeita para desenvolver uma teoria sobre o nada, com todo o peso simbólico que isso acarreta.

Uma das cenas mais faladas do filme centra-se á volta de um grupo de soldados que decide ir ver um filme pornográfico. O entretenimento está garantido, mas, a meio da projecção, um dos recrutas descobre na actriz, a sua mulher. Poland critica a falta de emotividade da cena. Talvez a essência de Jarhead esteja nisso mesmo. Nem tudo tem de ser emotivo apenas porque o cinema assim o tem feito nos últimos 100 anos. Há momentos em que os sentimentos, sejam eles de compaixão, amizade, diversão, desaparecem num burraco. Fica um vazio. O vazio que uma bala deixa no corpo de um soldado. O vazio que uma retirada em pleno campo de batalha deixa na alma de um homem. O vazio que Sam Mendes nos quer mostrar em Jarhead.
O QUE SE DIZ
"Jarhead presta tributo a uma unidade militares, neste caso os snippers dos Marines, ao mostrar que o espirito de equipa e a natureza do grupo, ao mesmo tempo que nunca neglegencia as especificidades de cada um dos soldados."Emmanuel Levy.com
"Jarhead é o Seinfeld da temporada...um filme sobre nada!"David Poland - The Hot Button
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 31, 2005 07:25 PM