« O Que Estreia Por Cá - O Estranho Mundo do Mestre Miyazaki | Entrada | Poster internacional de Black Dahlia »

outubro 12, 2005

Opinião - As seis vidas de Bond

Quando nasceu, poucos lhe davam crédito. Hoje 007 é um número de código universal. Simbolo de charme, beleza, sedução, humor e acção, o agente secreto criado por Sir Ian Fleming já viveu múltiplas transformações. Com a escolha de Daniel Craig, Bond prepara-se para viver de novo. Pela sexta vez!
Die_Another_Day_001.jpg

"Bond, James Bond!"
Uma frase simples, mas única. Em toda a história do cinema há poucas frases que identifiquem imediatamente as personagens. E nenhuma é tão universal como esta simples frase de introdução que passou da cabeça de sir Ian Fleming para o papel, e daí, imortalizando-se, para a tela num aparentemente obscuro Dr. No, já lá vão quarenta e três anos. Nessa altura, este tal de James Bond era vivido por um semi-obscuro escocês de nome Sean Connery. Uma surpresa para quem conhecesse a inspiração do autor, que sempre tinha pensado em Cary Grant e David Niven, dois gentlemans britânicos, para viveram o seu herói no cinema. Mas a idade já pesava em ambos e o projecto não era tão promissor como hoje nos parece. E assim a personagem rejuvenesceu sob a forma de Connery, o actor que até tinha de usar um capachinho para completar a imagem de um agente secreto charmoso, irresistivel ás mulheres, e extremamente talentoso. Uma imagem que Ian Fleming gostava que fosse a dele. A inspiração de Bond vem da sua própria experiência como agente dos serviços secretos britânicos, quando Fleming trabalhava como jornalista na União Soviética. Foi aí que o autor tomou contacto com o conturbado mundo da espionagem da Guerra Fria, e foi essa a inspiração para os muitos livros que iria escrever á volta deste enigmático 007.
seanconnery1.jpg

Na altura muito pouca gente dava algo pela adaptação de Dr. No ao cinema. O cinema de acção não era ainda um genero muito popular, e os corpos sedutores das que viriam a ser conhecidas como Bond Girls, eram um teste à ainda apertada censura moral. Mas o filme foi um retumbante sucesso e desenhou o futuro do cinema de acção. Nos anos subsequentes, não havia filme ou serie de acção que não imitasse a essência dos filmes de James Bond. E mesmo a paródia que foi Casino Royale - curiosamente o titulo utilizado pelos seus produtores para o próximo filme da saga - criou seguidores, no sentido de haver filmes a parodiarem outros filmes. E nem é preciso dize-lo, porque já todos se lembraram de Austin Powers.
E o que a principio parecia um projecto arriscado, tornou-se rapidamente numa franchise bilionária. Os filmes foram-se sucedendo, as aventuras pareciam sempre iguais e sempre diferentes - durante muitos anos os rivais da Spectre monopolizaram o confronto com Bond, mas mesmo aí o leque de vilões foi-se alargando - e para além das beldades, das cenas de acção, das engenhocas e do charme, resumido perfeitamente no habitual pedido do "vodka martini...shaked, not stirred!", criou-se um culto à volta da personagem. O que se arrastou também a uma devoção pelo actor, que desde 1962 dava vida a 007. E quando Sean Connery se recusou a reaparecer na serie, a experiência com George Lazenby em On Her Majesty Secret Service - com directa alusão a Portugal - foi tão traumática (apesar deste ser sem dúvida o argumento mais profundo de todos os 20 já feitos), que Connery voltaria ainda mais uma vez, em 1971 com Diamonds Are Forever, e em 1983, num filme não oficial, com Never Say Never Again. O seu Bond ainda hoje é considerado, de longe, como o mais completo. Ao inegável charme e talento do escocês, ficou marcada a imagem de marca do agente, que os actores que se seguiram acabaram por tentar copiar.
Roger20Moore.jpg

Roger Moore acabou por ser o senhor que se seguiu, já que a hipótese de um regresso de Lazenby foi imediatamente posta de parte. O inglês (curiosamente o primeiro inglês a viver o agente) trouxe um pouco mais de sarcasmo e frieza ao personagem, perdendo em poder de sedução. O que com Connery parecia natural, com Moore soava a algo forçado. E mesmo que tenha sido mais competente nas cenas de acção, que se iam proliferando de filme para filme, tendo direito a ir até ao Espaço em Moonraker ou a navegar debaixo de água, a verdade é que nenhum dos seus sete filmes conseguiu o prestigio de Goldfinger, o filme que em 1964 tinha imortalizado Bond e Connery. Os sete filmes de Moore, entre 1973 e 1985, ajudaram a consolidar o nome do agente secreto, mas falharam em trazer algo de novo. A serie tinha agora concorrência de outros agentes e nomes do universo de acção, que nos anos 80 se tornaram na isca perfeita dos estúdios para conseguirem montar verdadeiros sucessos de box-office. O mundo tinha mudado e poucos pareciam agora render-se ao charme de um heroi charmoso, aparentemente frágil fisicamente mas multi-talentoso. Agora imperavam os homens cheios de músculo e capazes das maiores acrobacias. Talvez por isso a escolha em Timothy Dalton, um actor do teatro britânico, tenha sido infeliz pela falta de timing. Dalton era um nome competente e que seguia o espirito da saga, mas já nem as engenhocas do mitico Q (tão fascinante como Bond é o universo que o rodeia) ou os corpos cada vez mais despedidos (mas nunca totalmente, e aí Bond mantem o "nivel" em comparação com outros filmes) das Bond Girls.
brosnan_01.jpg

Se a ideia era manter o espirito inicial da saga, era também preciso saber inovar. Em 1996 a Guerra Fria tinha acabado, a Rússia reorganizava-se e o Mundo parecia viver em segurança. Para quê um agente secreto desactualizado? Os inimigos do futuro pareciam outros, e mulheres bonitas já não eram garante de sucesso a nenhum filme, pela simples razão de estarem em todos. Foi talvez aí que se deu o ponto fulcral da saga. Pierce Brosnan, o quinta actor a viver a personagem, percebeu que se mudam os tempos e com ele, também as vontades, e adaptou o seu Bond ao novo mundo, sem nunca perder o espirito inicial. Goldeneye foi um sucesso e, sete anos depois, 007 voltava e em estilo. A partir daí os filmes foram perdendo alguma qualidade, mas Brosnan era capaz do melhor e do melhor ainda em cada um deles, combinando o charme de Connery com o espirito de acção de Moore. Estamos a ser injustos! Brosnan montou o seu Bond também a partir do seu enorme talento - que ficou definitivamente provado em The Thomas Crown Affair - e por isso manteve a saga viva, quando todos acreditavam que a personagem estava por um fio.
Talvez por sempre ter tido um notável timing, Brosnan tenha desabafado que gostava de ser o actor que iria "matar" Bond. A personagem não se podia eternizar, dizia ele. Já ninguém acredita em rejuvenescimentos milagrosos. A relação com Monneypenny já não convence ninguém, as bond-girls parecem cada vez mais descontextualizadas, e o futuro podia passar por tirar mais a acção e trabalhar mais na trama. Os produtores não gostaram de ouvir Brosnan, especialmente após o enorme sucesso de bilheteira que foi Die Another Day, e o irlandês foi forçado a sair, ficando apenas com cinco filmes como 007.
0,10114,432712,00.jpg

É aí que chegamos. Bond já teve cinco vidas, umas maiores que outras, umas com maior impacto que as outras. Goldfinger continua a ser o filme mais amado, Connery o "tal" Bond que todos querem ser, Lazenby o Bond maldito, Moore o Bond mais frio, Dalton o Bond desactualizado e Brosnan continuará a ser visto como aquele que soube ressuscitar a personagem, voltando a traze-la aos seus melhores dias.
A questão que está por detrás dos próximos filmes, é saber se James Bond são os martinis, as armas e engenhocas, as mulheres, os carros, as perseguições, os duelos finais e as frases fortes, ou, se há algo mais por detrás disso. Escolher como próximo filme aquele que, curiosamente, foi o primeiro dos livros a ser escrito, e que é, também, o mais cerebral de todos eles, pode ser uma pista importante. Ter o talentoso Paul Haggis como argumentista também. A questão no entanto passa também pelo sucessor de Bond. A Daniel Craig, caso se confirme que ele é o nome escolhido, cabe a pesada tarefa de continuar o trabalho de Brosnan, junto do grande público, mas, ao mesmo tempo, adaptar-se a este novo Bond que se espera. Um Bond mais inteligente, mais culto, mais enigmático, e menos action-man. Para ver filmes de acção, hoje temos dezenas de personagens. Para vermos um universo altamente complexo e intrigante, onde acção, erotismo, humor e drama estão intimamente ligados, só temos verdadeiramente um. É por isso que James Bond é único. E será por isso que a sexta vida de 007 será tão esperada como todas as outras que a antecederam. Porque Bond será sempre ele mesmo, James Bond!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 12, 2005 10:45 PM

Comentários

Enfim, uma escolha satisfatória (não tanto quanto Clive Owen, no entanto).

Publicado por: Gustavo H. Razera às outubro 13, 2005 01:15 AM

Comente




Recordar-me?