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outubro 19, 2005

Opinião - O Cinema e as Cidades

Muitas vezes o Cinema torna-se algo "bigger than life". Muitas vezes não basta ter um sólido argumento e um leque de actores fantásticos para dar magia a um filme. O espaço, a dimensão onde a história se desenrola, é fundamental para sentirmos a verdadeira magia cinematográfica. É por isso que é fácil ver que o Cinema está apaixonado. Pelo Monument Valley de Ford, pelo deserto de Lean, mas acima de tudo, o Cinema está apaixonado pelas cidades.
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Numa entrevista recente, Marcos Martins, o realizador de Alice, comentava que em França os emigrantes vinham ter com ele dizendo que a Lisboa que ele retrata é muito mais realista do que todas as outras que até agora tinham encontrad em filmes nacionais, porque esta era "a Lisboa de onde eles fugiram".
De facto, para além de toda a história de obsessão, dor e perda que molda o fabuloso Alice, a verdade é que a exploração do espaço é vital na composição da história. Lisboa é apresentada no seu tom mais negro, escuro, rodeado de chuva e nevoeiro, longe dos dias solarengos a que estamos habituados. Há na escuridão da CREL, do Marquês, do Rossio, um verdadeiro reflexo de como é a capital portuguesa no dia a dia. E é com mestria que a camara de Marcos Martins consegue capturar esse realismo urbano. Um pouco como a Los Angeles de L.A. Confidential ou de Training Day, filmes crueis para a Cidade dos Anjos. Aí não temos o minimo vislumbre das belas praias que são - muito graças á popularidade da serie televisiva Baywatch - um dos ex-libris da cidade. Pelo contrario, encontramos as zonas mais degradadas, tanto nos anos 40 como agora. E se L.A. Confidential é o espelho do universo de Raymond Chandler, que cria nos seus livros - onde The Big Sleep funciona na perfeição com exemplo - uma antitese da Los Angeles que se conhece. Em Training Day vemos a cidade no seu tom mais urbano, mais cru. E se nos esforçarmos, podemos encontrar em Grand Canyon, a obra mais capriana de Lawrence Kasdan, onde estão lá os lados mais negros e mais solarengos de L.A., mas desta vez pintados com um sinal de esperança.
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E há cidades que foram - e são - amadas das maneiras mais diversas. Tomemos Roma por exemplo. A capital italiana, ainda hoje, desdobra-se em duas cidades completamente diferentes sob o olhar dos dois maiores realizadores italianos de sempre: Roberto Rossellini e Frederico Fellini.
A Roma de Rossellini é a de Roma Cita Aperta. Uma cidade popular, corajosa, longe dos dias de glória (porque sim, também há essas "Romas" de estúdios de eras passadas), mas com uma enorme vontade de viver, de combater, de ultrapassar os problemas do a dia. O sol cansa, o ar pesa, as ruas são pequenas e cobertas da mesma sujidade dos seus habitantes. É uma cidade triste mas pronta a encarar o futuro de pé. Que futuro? Qualquer que ele seja, o que importa é viver.
Já a Roma de Fellini, exposta em algumas das cenas mais fabulosas de La Dolce Vita, mas essencialmente no filme Roma, é uma cidade luminosa, cheia de luz, de dia e de noite. O ambiente é de alegria, a vida foi feita para ser vivida, de dia ou de noite. Trânsito intumpido ás 2 da manhã, avenidas longas e iluminadas, pessoas na rua vestindo-se exemplarmente, esta cidade já tem todos os traços de um centro cosmopolita e de vanguarda. Qual das duas será verdadeira? Ambas o são, na sua era e ainda hoje. Porque uma cidade é capaz de se desmultiplicar em muitas outras, dependendo dos olhos que para ela olham. E onde Rossellini via dor e coragem, Fellini via um vazio interior colmatado por uma enorme extravanganza exterior.
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Outro exemplo bem caracteristico desta paixão que o cinema tem pelas cidades, é inevitavelmente Nova Iorque. A Nova Iorque de Woody Allen. A de Scorsese. A de Spike Lee. A de tantos outros que ajudaram a pintar de multiplas cores uma cidade que muitos insistem em ver como a capital não oficial do Mundo. E se nos filmes de Allen passeamos pelas zonas mais intelectuais e urbanas da Big Aple, já no universo de Lee e de Scorsese, somos atirados para os subúrbios, para os bairros mais tradicionais, de italianos e de negros respectivamente. A Litle Italy de Scorsese - que é tão semelhante, mas ao mesmo tempo, tão diferente da de Copolla e Leone - traz tudo o que há mais de podre nas ruas nova-iorquinas. No entanto são personagens que fascinam, que são também parte da identidade da urbe. E o amor que Scorsese - um homem das ruas mais escuras de Nova Iorque - sente por elas, é proporcional ao amor e respeito que Lee tem pelo Mundo de Brooklyn, onde cresceu e onde, desde sempre, o bairro funciona como um monumento de orgulho da comunidade negra. Mais uma vez temos visões diferentes sobre os mesmos espaços. Do existencialismo humoristico de Allen em Central Park, á rudeza e o pecado de Scorsese nas ruas de má fama da cidade, sem esquecer a visão mais perfeita de Nova Iorque no pós-11 de Setembro que chega pelas mãos de Lee em The 25th Hour, temos um leque de declarações de amor a um lugar onde vivem mais de 10 milhões de pessoas. Onde a magia se confunde com a rotina do dia a dia, criando só por si, um universo fascinante.
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E quem fala de Lisboa, Los Angeles, Roma, Nova Iorque pode falar de inumeras outras cidades. Há a Estocolmo de Bergman, a Berlim de Win Wenders, a Tóquio de Ozu, a Barcelona de Almodovar...Tantas outras cidades, tantas outras histórias, tantos outros nomes, sempre a mesma paixão. Percorrer os Campos Elisios antes e depois de ver A Bout de Soufle não é a mesma coisa. Godard abriu as ruas de Paris ao mundo com o seu filme de estreia e tornou a cidade das Luzes algo completamente diferente do centro romântico que os estúdios de Hollywood há décadas tentavam recriar sem sucesso. A corrente neo-realista do cinema inglês de Griershom fez de Londres não o centro económico e cultural de Inglaterra, mas ajudou a mostrar a rudeza dos seus bairros mais populares, mais tarde explorados brilhantemente por Hitchcock em Frenzy, por Lewis Gilbert no Alfie original ou mais tarde por Mike Leigh e Stephen Frears, os nomes mais ilustres da nova (que já não é assim tão nova) escola de cinema britânico. E claro, o Porto de Manoel de Oliveira. Esse Porto que vai desde Douro Faiva Flunial até Porto da Minha Infância, a recolha de olhares de um amante de uma cidade que foi o berço do cinema em Portugal, mas que ficará imortalizada no olhar único deste homem, ainda hoje visto como intocável como mestre do cinema português.
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Porque o cinema ama as cidades, não quer dizer que as tenha de retratar da forma mais bela possivel. Há quem o faça, e há quem prefire explorar os pontos negativos da cidade, os cantos mais escondidos, os rostos que se confundem na multidão do dia a dia, mas que também têm uma história para contar. Cada cidade é um mistério para cada um de nós. Ninguém vive o mesmo espaço da mesma forma. O "Will Always Have Paris" de Casablanca é um mito. A Paris de Bogart não é a mesma de Bergman. Como também não é a mesma de tantos outros que por lá passaram e se apaixonaram. Nova Iorque é uma cidade composta por milhões de pequenas cidades dentro de si. Cidades pessoais, cidades de cada um. Cidades que através de alguns dos seus habitantes mais ilustres ganharam vida na tela. O que é Tóquio? A cidade de Ozu ou a de Copolla? E o Rio de Janeiro das novelas e o da Cidade de Deus é o mesmo espaço, a mesma vida, os mesmos cariocas, a mesma cidade?
Uma cidade é uma cidade. É um local de peregrinação diária, um local de paixões. Todos nós amamos uma cidade, mesmo que não seja a nossa. O Cinema, ama-las todas!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 19, 2005 10:37 PM

Comentários

Fantástico post, bem demonstrativo das paixões. vivências e diversidades que as cidades provocam em cada um, seja aquela "à qual se pertence", seja qualquer outra que se descubra.
A propósito do Porto, não me esqueço de Malkovitch, que declarou que era a cidade mais romântica que conhecia, mas que no seu 1º filme como realizador (do qual assisti a uma filmagem) a camuflou de cidade sul-americana, apesar dos seus traços distintivos estarem perfeitamente escancarados.

Publicado por: João Pedro às outubro 20, 2005 03:15 AM

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