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outubro 26, 2005
Opinião - Quando os mestres falharam!
Durante a década de 40 e 50 foram vários os realizadores que chegaram do nada e conquistaram imediatamente o respeito de todos em Hollywood. Eram jovens dinâmicos, capazes de fugir ao academismo de alguns directores da época, e que durante mais de vinte anos encantaram tudo e todos. Mas, chegados aos anos 60, todos eles falharam. Terá sido um sinal dos tempos, demasiada ambição dos próprios cineastas? Ou algo que parecia destinado a acontecer?

Charlton Heston e Sophia Loren em El Cid
Quando os anos 60 começam Hollywood está longe dos anos de glória que tinha vindo a viver nas quatro décadas anteriores. Muitos dos seus nomes mais ilustres tinham deixado a indústria. Uns, como John Ford, Frank Capra ou Fritz Lang, tinham entendido que a sua hora tinha passado. Calmamente, sem grande alarido, retiraram-se da produção cinematográfica, vivendo à sombra das suas imensas glórias do passado. Outros, menos afortunados por não poderem ter escolhido o seu próprio destino, acabariam por morrer, deixando a indústria orfã. É nesse leque que vamos encontrar muitos dos produtores da época, os chamados moguls de Hollywood. Louis B. Mayer, ou Harry Cohn eram exemplos de verdadeiras instituições de Hollywood que na entrada da nova década deixavam a indústria mais pobre. E pior que isso, sem qualquer sinal de orientação para o futuro!

John Huston em The Cardinal
Sem os grandes nomes de outrora, irá caber aos jovens cineastas dos anos 40 e 50 a afirmarem-se definitivamente como os grandes nomes da indústria. Durante quase vinte anos a ascensão dos jovens autores - idolatrados pelos Cahiers du Cinema em França, mas até então olhados com alguma suspeição pela indústria - fez-se com base em filmes muito sóbrios e que detinham uma clara marca de autor. John Houston, Otto Preminger e Nicholas Ray eram os homens do cinema noir. Anthonny Man tinha ajudado a revitalizar o western. E todos eles tinham vivido na sombra dos nomes maiores durante muito tempo, demasiado tempo. Se exceptuarmos John Houston e George Stevens, já detentores de óscares, todos esses realizadores queriam mais que o reconhecimento da critica - que tinham. Queriam que a indústria finalmente os abraçasse como um deles. E já tinham percebido que não seriam com os filmes que andavam a fazer até então que esse reconhecimento chegaria. Não seria um Jonnhy Guittar, um Naked Spurs ou um Laura a premiar esses autores. Tinha de ser algo mais espectacular, ao estilo da poderosa indústria que ainda era Hollywood.

Ben-Hur
E o exemplo chegou em 1959. Com alguns dos grandes realizadores já prontos a bater com a porta, e com a televisão a ganhar cada vez mais espectadores ao cinema, William Wyller teve luz verde para apostar tudo num épico de dimensões gigantescas. O filme parecia ter tudo para ser um fracasso. Falta de um grande nome a liderar o elenco, produção altamente dispendiosa, um realizador pouco habituado a épicos históricos. Mas no final resultou. Ben-Hur - assim se chamava o filme - foi um marco na história do cinema. Bateu todos os recordes de bilheteira, confirmou Charlton Heston como uma das estrelas do cinema norte-americano, e pulverizou a concorrência nos prémios de final de ano. Isso numa altura em que esses autores continuavam a trabalhar em filmes mais pessoais. Só nesse ano Preminger fez Anatomy of a Murder, Nicholas Ray tinha acabado The Savage Inocents e nem eles, nem os seus colegas autores conseguiu algum reconhecimento. Foi talvez então que, quer esses autores quer os estúdios, perceberam que talvez o futuro pertencesse áqueles que conseguissem seguir da melhor maneira a fórmula de sucesso de Ben-Hur. Foi então que os novos directores dos grandes estúdios - aqueles que tinham vindo substituir os grandes nomes que começavam a tornar-se apenas eco na memória de alguns - começaram a antecipar o seu próprio fim. Nos dez anos seguintes não haveria um único estúdio norte-americano que depositasse milhões de dólares na produção de épicos históricos. E para realizar, na ausência dos gigantes do passado, foram contratados aqueles que eram os cineastas do presente, e que se queria, os do futuro. Uma combinação aparentemente sedutora, mas que viria a revelar falta para a indústria e para o cinema norte-americano.

The Fall of the Roman Empire
Foram os insuspeitos Nicholas Ray e Anthony Mann a começar esta verdadeira hecatombe. Em 1961, Ray apresenta ao mundo King of Kings, a história do Novo Testamento com um H. B. Warner a encarnar a figura de Jesus Cristo. O filme fracassou em toda a linha, tanto junto do público com da critica, e abriu um perigoso precedente para o futuro. Estava dado o primeiro sinal que havia uma certa incompatibilidade entre autores e este genero cinematográfico. No mesmo ano Mann, até então conhecido pelos seus westerns irreverentes, tenta imitar o sucesso de Ben-Hur recrutando a sua estrela cintilante, Charlton Heston, juntando-lhe a grande actriz europeia da época, Sophia Loren. O filme era a história do campeão espanhol, El Cid, e tal como se anunciava, também aqui ninguém conseguiu discernir o minimo traço de Mann atrás da camara. Os realizadores escondiam a sua técnica por detrás de cenários e vestuários sumptuosos, e de batalhas bem encenadas mas sem grande profundidade dramática. E quando todos pensavam que os estúdios - e com isto a Allied Artists e a MGM ficaram financeiramente em sarilhos - eis que no ano seguinte o britanico David Lean recupera o sucesso do genero épico com Lawrence of Arabia. A esperança voltou e nos quatro anos seguintes seriam meia dúzia de grandes produções, que se viriam a revelar também, grandes falhanços.
O insuspeito Joseph L. Manckiewicz realiza para a Fox no ano seguinte Cleopatra. O filme será o maior desastre até então e nem a vida agitada do novo casal da moda em Hollywood - Richard Burton e Elizabeth Taylor - conseguiu levar o público a ver a história da última faraó do Egipto. Ainda nesse ano Nicholas Ray repete o fracasso de dois anos antes com 55 Days at Peking. O filme conta com Heston, mas na altura já se tinha percebido que só ele não era garante de sucesso. O fracasso foi inevitável. Tal como a aposta de Preminger no genero com o filme The Cardinal, onde Antonhy Quinn vive um pouco convincente Papa. E se os fracassos desse ano não foram suficientes, ainda havia mais. Anthonny Mann consegue o seu segundo fracasso consecutivo com The Fall of the Roman Empire. John Houston - o mais aclamado e galardoado dos cineastas em acção - tenta a sua versão de um épico com The Bible. O resultado será o maior fracasso da sua longa carreira. O próprio George Stevens decide apostar no épico religioso com The Greatest Story Ever Told, mas o sucesso também não lhe bateu á porta. E por fim até o insuspeito Carol Reed tenta com The Agony and the Ecstasye, combater a corrente. Sem sucesso.

Elizabeth Taylor em Cleopatra
Pior do que tudo isto foram as consequências que todos estes filmes deixaram. Se exceptuarmos Cleopatra, são realmente todos eles filmes menores. A principal razão está no facto de, tal como nos primeiros épicos falhados de 61, o estilo do cinema de autor ter desaparecido por detrás da ideia de épico. O elencos fabulosos e o nome ilustre do realizador eram insuficientes para captivar o público a seguir longas histórias, normalmente contadas sem grande alma. E mesmo quando filmes como The Longest Day ou How The West Was Won, sem serem grandes sucessos, provaram que era possivel fazer filmes de grande orçamento com resposta positiva do público e da indústria, ficou patente que nenhum destes realizadores o conseguiria fazer. Para muitos deles isto significaria o final das suas carreiras. Manckiewicz estava já demasiado velho, mas ainda viveria para fazer o brilhante Sleuth. Mas pouco mais. Nicholas Ray e Anthonny Mann, nomes tão idolatrados como promissores, nunca mais conseguiriam trabalhar. Mesmo Stevens ou Preminger acabaram por ver muitas das portas fechadas. E deste grupo só mesmo John Huston se salvou, voltando ao estilo de cinema onde se sentia melhor, dando ainda, nos vinte anos seguintes, obras maravilhosas ao mundo. Mas a verdade é que a ambição cega destes realizadores seria, na maior parte dos casos, o seu próprio fim. Mas eles não cairiam sozinhos. Hollywood caía com eles!

Anthonny Mann
Qualquer grande estúdio tinha apostado tudo nesta nova tendência do cinema épico. E todos eles falharam. Mais do que isso, todos eles contrairam dividas enormes. Sem a orientação brilhante dos seus antigos directores de produção, estudios como a Fox, a MGM, a Warner Bros, a Paramount ou a Columbia entraram em grave crise financeira. Nem os outros filmes que produziam serviam para equilibrar a balança. Até porque o cenário era de mudança, ou não estivessemos nós na década de 60. O público cada vez mais preferia a televisão ao cinema, as ideias começavam a esgotar-se entre os autores do chamado cinema de serie B, até então fulcral para manter a balança financeira dos estúdios em alta, e o desaparecimento das grandes estrelas (James Stewart, Cary Grant, Bette Davies, o eclipsar de Katherine Hepburn) e dos grandes realizadores da era dourada, tinha criado um vazio entre o público e a indústria. Os novos nomes não convenciam ninguém, os novos filmes não captivavam, a indústria estava oficialmente em colapso. A pouco e pouco, os grandes conglomerados económicos foram comprando os outrora majestosos estúdios. A Sony adquiriu a Columbia, a Time comprou a Warner, e todos os restantes tiveram de vender grandes percentagens das suas quotas para sobreviver. E sobreviver como? O genero épico entraria em hibernação, até The Gladiator, mas mesmo aí, voltaria a mostrar-se amaldiçoado para aqueles que nele viriam a apostar, revelando-se um verdadeiro genero maldito.
Mas a questão continuava a ser, como sobreviver! A resposta estava curiosamente, bem perto de Hollywood. Foi nessa altura, quando os nomes dos respeitados autores ficaram manchados para sempre, que da Universidade da California - não só, mas também - começam a chegar novos realizadores. Cresceram com o cinema, não só o dos grandes estúdios mas essencialmente com o filme noir das sessões da tarde, e têm um estilo muito próprio, muito intimista. São os jovens Mavericks, que saltaram directamente da escola para a linha da frente de Hollywood. Para recuperar uma década perdida, para a salvar de si própria!
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às outubro 26, 2005 07:01 PM
Comentários
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