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novembro 07, 2005
Antevisão - Brokeback Mountain
Western-gay? Nem por sombras. Ang Lee vai muito para além das convenções sociais. Em Brokeback Mountain há amor, dor e uma beleza visual como dificilmente seria de imaginar com um realizador norte-americano. Não há aqui a exaltação da homossexualidade, como se tem querido fazer crer. Há simplesmente uma história de amor que merece ser cantada.

Diz quem esteve em Toronto que não havia uma cara que não deixasse cair uma lágrima. O mesmo já tinha acontecido na sempre selectiva Veneza. Por onde passa, Brokeback Mountain quebra tabus e barreiras e conquista o seu público da forma mais antiga de sempre: contando uma história de amor.
A diferença - grande, apesar dos dias de estarmos em pleno século XXI - é que não há aqui um principe ou princesa. Quanto muito, haverá dois principes encantados. Mas nem isso. Brokeback Mountain começa por ser um filme sobre dois homens que são obrigados a cruzar o mesmo caminho. Um caminho longo, silencioso e imponente como são as montanhas Brokeback. E é nesse pano de fundo, que já vimos em filmes de Hawks, Ford ou Mann, que se começa a desenvolver uma forte amizade entre dois jovens cowboys. Da amizade ao amor a diferença revela-se pequena. E de repente um fantasma paira sobre as suas cabeças. A dor de saberem não poder ficar juntos leva-os a afastarem-se, acreditando que o tempo e a distância vão amenizar a dor da separação. Mas nem o casamento nem o nascimento de filhos serve para se esquecerem do seu amor mais primitivo. E quando se reencontram decidem enfrentar tudo e todos para voltarem a ser felizes.
Em traços gerais é esta a história de Brokeback Mountain, o filme que Ang Lee filmou com mestria e uma extrema sensibilidade. Utilizando a beleza natural do oeste americano, a rudeza dos homens que por lá vivem, que transformam as palavras vãs em olhares profundos e sentidos, que dão vida a este drama. O realizador asiático continua assim a mostrar ter dedo para adaptar profundas obras literárias, depois do sucesso de Sense and Sensibility.

Annie Proulx assina um belissimo romance. Lee segue fielmente a história, explorando não só a dimensão de western na primeira fase do filme, com as paisagens, os rituais e comportamentos a que estamos habituados a ver num verdadeiro filme de cowboys na velha acepção da palavra, mas também a profundidade dramática de um amor proibido, no segundo acto do filme. O livro, vencedor de um Pulitzer, quebra tabus e barreiras. O filme faz o mesmo. E os prémios não se fizeram esperar. O Leão de Ouro em Veneza foi o mais significativo de todos eles. Pela primeira vez desde 1981 - ou seja, desde Atlantic City, USA - um filme de produção made in Hollywood vence a prestigiada festividade de Veneza. E muitos começaram já a apostar em Brokeback para conquistar muitos dos prémios da critica no mês de Dezembro. Talvez uma ideia arrojada, dirão outros. Afinal a homossexualidade ainda é um tema tabu para muito boa gente e um filme explicitamente gay terá dificuldade em conquistar o público mais conservador que preenche o grupo de criticos, argumentistas, produtores, actores, realizadores, enfim, os elementos nucleares da indústria. Os produtores esperam que o enfoque dado ao enredo amoroso e ao drama humano ultrapassa a questão gay. E essa será sempre uma das perguntas que ficará sem resposta até Março. Como é que Hollywood olhou para Brokeback Mountain?

Para além de ser um filme brilhantemente trabalhado por Lee e pela sua equipa técnica - a banda sonora de Gustavo Santaollala e o brilhante trabalho de fotografia de Rodrigo Prieto - o filme fica marcado pelo excelente desempenho do seu elenco.
Jake Gyllenhall e Heath Ledger são autênticos rancheiros, quer na pose quer na forma como desenvolvem as suas personagem. Ledger - que diz quem por lá andou que esteve com a Copa Volpi nas mãos e só por pouco a perdeu para Straiharn - é poderosissimo num exercicio de contenção e de mágoa interior. É ele o elo mais frágil da relação, aquele que mais sofre com a descoberta do amor, mas também depois com a sua partida. É também a sua relação a mais explorada, por ser a mais frágil e "tipica" de acordo com a velha história de um casamento onde o amor corre apenas numa direcção. Já Jake Gyllenhall, num ano espantoso, é mais solto e dinâmico, mas consegue igualmente imprimir grande emotividade ás saus cenas, funcionando perfeitamente como contraponto a Ledger.
E há ainda o elenco feminino do filme. Michelle Williams, que curiosamente acabou de casar com Ledger, é a encanração perfeita da dona de casa sofredora, profundamente apaixonada pelo o único homem que conheceu, e ao mesmo tempo em constante sofrimento por saber que o seu coração não lhe pertence. E mais fica quando começa a perceber a verdade dos factos. Já Anne Hathaway é uma mulher mais moderna, mais dinâmica, emparelhando bem com Gyllenhall, mas é igualmente emotiva quando se depara com a relação tabu do seu marido.

O que esperar de Brokeback Mountain? Certamente não um grande sucesso de bilheteira ou um filme consensual. O filme tem conquistado corações num circuito selectivo, mas quando chegar ao grande público, ás capas de revista - que vão explorar ao máximo o tema - e tocar na "América profunda", só ai se vão começar a perceber as verdadeiras implicações do filme na sociedade norte-americana. No entanto, em termos cinematográficos, que é o que mais nos interessa, ninguém duvida que aqui esteja um dos mais serios candidatos a filme do ano. Um titulo que poderá não lhe vir a pertencer de facto no final do ano. Mas muitos nunca mais voltarão a julgar sem pensar duas vezes, um amor tabu depois de verem Brokeback Mountain.
O QUE SE DIZ
"Este ostensivo western gay é marcado pelo forte peso de tacto e sensibilidade, bem como uma notável performance de Heath Ledger."
Todd McCarthy - Variety
"Brokeback Mountain vai conquistar aqueles que vão ao cinema e que gostam de grandes filmes e profundas histórias de amor, sejam elas gay, herexo ou qualquer outra coisa."
Ray Bennet - Hollywood Reporter
"O melhor filme de Ang Lee é não só um belissimo e bem conseguido western (no primeiro acto), mas uma intimista épica história de amor no sentida mais clássico da tradição de Hollywood."
Jim Emerson - RogerEbert.com
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 7, 2005 10:29 PM