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novembro 16, 2005
Elizabethtown - A essência da vida!
Há uma imensa frescura em Elizabethtown. Na história, na dinâmica narrativa, na levez da câmara. Uma viagem à América profunda. Uma viagem de dúvidas, mas também de pretos e brancos. Uma viagem com uma banda sonora espantosa. Uma viagem para se aprender a viver!
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Cameron Crowe é aquele tipo de realizadores que aproveita todos os episódios da sua vida para os tornar cinematográficos. A sua experiência como estudante deu origem ao argumento de Fast Times at Ridgemont High. O seu passado como critico de música precoce estava na base de Almoust Famous. E Elizabethtown pega num episódio veridico da sua vida e parte para uma viagem que o próprio fez, e que nos convida a fazer com tamanha elegância, que se torna impossivel recusar o convite.
É impossivel não olhar para os últimos três filmes de Crowe para perceber a forma como se desenvolve Elizabethtown. Há a lembrança do fracasso de Vanilla Sky - metaforizado nas sapatilhas cujo o design tão audaz custou quase um bilião de dólares (são muitos milhões de facto) a uma empresa gerida por um excêntrico homem de negócios, muito bem encarnado por Alec Baldwin. Há a experiência de vida de Crowe - a morte do pai que o fez voltar ás raizes, e que mais tarde o levou a fazer uma road trip pela América, só ele e a sua música - como acontecia em Almoust Famous. E se nesse filme há o elogio da mãe, sempre pronta a apoiar as decisões do pequeno prodigio, aqui há o constante elogio a um pai desconhecido, mas omnipresente em todos os momentos do filme. E por fim há Jerry Maguire, essa grande obra que é recuperada aqui na sua verdadeira essência. Tal como Maguire, também Drew Baylor estava no topo e caiu para o fundo do poço. E foi aí que percebeu que o dinheiro, a fama, o sucesso, era demasiado relativo para constituir per si, um objectivo de vida. E se é no seu único jogador e na empregada que Maguire encontra a verdadeira razão de viver, aqui, Drew tem a felicidade de encontrar a mulher mais irritantemente perfeita que se poderia encontrar numa viagem para o Kentucky: Claire.

A grande virtude de Elizabethtown está, não na forma, mas sim no conteudo. Formalmente o filme não foge muito do esquema habitual. Tem algumas sequências muitissimo bem conseguidas (a sucessão de telefonemas de Drew, o discurso da sua mãe, Kirsten Dunst em qualquer cena, ...), sendo que as melhores cenas do filme parecem ter ficado guardadas para o fim (há pelo menos meia dúzia de cenas perfeitas para acabar o filme - o realizador escolheu uma delas).
É o conteudo, a história de desilusão que Drew vive, e que coincide com a morte do pai e o redescobrir de um mundo que lhe passou ao lado, um mundo - essa América profunda - que todos parecem desconhecer mas que continua a ter o seu peso - mas essencialmente, que possibilita o seu reencontro com a vida (praticamente personificada por Dunst, no seu melhor papel até hoje) que faz o filme valer a pena. Fosse só por isso, e estávamos diante de uma das melhores histórias do ano. Um filme capaz de fazer o depressivo reconciliar-se com a vida, os casais na iminência de terminarem a relação, durarem mais uns meses, um filme capaz de nos fazer sentir bem com a vida, e com nós próprios.
Os grandes problemas de Elizabethtown estão na forma. Nos cortes abruptos aqui e ali que evidenciam os problemas que Crowe teve de passar quando pela primeira vez estreou o filme em Toronto. A recepção fria da critica fez com que o realizador tivesse de amputar o filme quase em quarenta minutos, criando por vezes uma sensação de vazio. É praticamente esse pequeno grande pormenor que impede que o filme seja uma obra muitissimo boa, a todos os niveis, acabando por satisfazer plenamente, mas sem o algo mais que Crowe nos habituou em Jerry Maguire.

Em relação ao elenco do filme, há que apontar dois aspectos essenciais. Parece que Orlando Bloom encontrou finalmente o seu melhor registo. Longe das trilogias (Lord of the Rings, Pirates of the Caribean) ou dos épicos históricos, este parece ser o tipo de papel indicado para o jovem britânico. Bloom está à vontade com a sua personagem e isso dá-lhe um outro ânimo. É uma performance segura, estável, e com momentos verdadeiramente bem conseguidos. Já Kirsten Dunst é outro nivel. Pela primeira vez fica a ideia de que Dunst pode mesmo vir a ser uma grande actriz. Apesar de ter já uma carreira altamente produtiva, este é o seu melhor desempenho à data, talvez por ser o mais genuino. A sua personagem é de um idealismo e de uma magia impensáveis num filme de Crowe. E a actriz vive-a até ao limite, funcionando como catarsis para todos os momentos trágicos que não chegam a acontecer, muito porque ela está lá. Todos desejam ter a sua Claire. Até porque mulheres como ela não são faceis de encontrar. E o filme explora isso muitissimo bem.
Uma palavra final ainda para a música. Vários anos como jornalista na Rolling Stone fizeram de Cameron Crowe uma enciclopédia ambulante de música e ele explora, como ninguem, essa sua capacidade nos filmes. Em Elizabethtown supera-se, muito por culpa também da insistência de Dunst em apostar em Ryan Adams para fazer companhia a Tim e Jeff Buckley e a tantos outros nomes geniais que tornam a história mais fácil de seguir. Uma banda sonora digna de uma vida, uma banda sonora perfeita para um filme sobre a própria vida.

Resumindo e concluindo, a magia de Elizabethtown está na magia da própria vida. Na pureza dos sentimentos, nas dúvidas da condição humana, na forma como as pessoas se relaccionam. Está na forma natural e humana como Cameron Crowe encara os seus filmes. Está no olhar ternurento de Kirsten Dunst, nas dúvidas existenciais de Orlando Bloom. Está na voz de Ryan Adams. Está na estrada 60B. Está na América. Está dentro de nós.
Classificação - ![]()
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O Melhor - A banda sonora fabulosa que Cameron Crowe compilou. O espirito do filme e, claro, Kirsten Dunst.
O Pior - Os cortes que Crowe foi obrigado a fazer. São demasiado explicitos para serem ignorados.
Curiosidade - O filme baseia-se numa história veridica. A viagem de Drew foi também a viagem de Cameron Crowe, primeiro quando o pai morreu, e anos mais tarde, quando acompanhando a tour da banda de música da mulher, se lançou à estrada apenas com os seus cd´s e o vento.
Site Oficial - www.elizabethtown.com
Realizador - Cameron Crowe
Elenco - Orlando Bloom, Kirsten Dunst, Susan Sarandon, ...
Produtora - Paramount
Duração - 123 m
Classificação - m/12
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 16, 2005 04:37 PM
Comentários
Luis, bem vindo de volta.
É sempre bom termos opções válidas e interessantes. O Garden State levou quatro estrelas se bem me lembro, mas confesso que gostei muitissimo do filme. Só que ao vê-lo numa época de grandes filmes, acabou por sofrer um pouco com isso.
Em relação ao Elizabethtown, a ideia é mesmo essa. Está num limbo, e tanto pode cair para um lado como para o outro, daí a meia estrela que visa essencialmente equilibrar o jogo.
um abraço e até ao proximo comentário!
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às novembro 17, 2005 07:21 PM
olá, ja não é a primeira vez que comento aqui, ja trocamos uns posts sobre closer, e sobre o apreço que tenho por este espaço. mas volto-me a apresentar poia pretendo começar a comentar regularmente aqui: luis figueiredo, 19 anos coimbra, amante de cinema e televisão, e sou apreciador deste espaço pois considero a opinião do miguel uma das mais validas a nivel nacional, sem simpatias nem favores. senti necessidade em comentar pois me chamou à atençao o facto de ser necessário recorrer à meia estrela nas classif. dos filmes. não pelo sistema em si, pois as classificações são e serão sempre relativas, ms pelo filme que o fez mudar.
fui há uns dias ver elizabethtown,sem ter lido qualquer crítica ou visto qualquer preview.foi então ao procurar a critica ao filme de crowe neste espaço que me deparo com a meia estrela. Passo a explicar: foi de facto exactamente esse o meu sentimento em relação ao filme imediatamente após o seu visionamento, não era suficientemente bom para ser um bom filme, nem suficientemente mau para ser razovel. passadas algumas horas, e jacom o filme revistom mentalmente, a minha consciência decidiu atribuir 4 estrelas ao filme, pelo argumento muito pouco cinéfilo kirsten dunst. o critico que ha em mim ficou de beicinho pela amiga do spider-man. mas era basicamente isto, um espanto meu pelo semelhança de opiniões, sendo a sua uma que eu respeito profundamente.a pequena diferença, que eu ja tinha observado , por exemplo no garden state, quando o meu critico mental decidiu, ao contrário do miguel, se bem me recordo, dar 5 estrelas. não sendo obviamente um filme de 5 estrelas, o facto de ser umas das melhores estreias atrás das câmaras(não digo de sempre, pois não se compara com um welles ou um tarantino) que eu me lembro.
isto a nivel de cinema, em geral, é de facto pouco relevante, ms tou-lhe a dar opiniões e perco-me aqui em pensamentos.Espero que aprecie as minhas opiniões, a partir de agora regulares, pois este espaço mereço a atenção das pessoas, e merce ter relevância na formação das suas opiniões. acho que nós podemos vir a ter belas discussões. um abraço LF
Publicado por: luis figueiredo às novembro 17, 2005 04:02 PM