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novembro 23, 2005
Opinião - A tal crise!
Esta semana foram conhecidos os dados que confirmam a ideia de uma crise na indústria cinematográfica em Portugal. E já não apenas uma crise de conteudos. Com menos de 2 milhões de espectadores nas salas, com os cinemas Freeport de portas fechadas e estando as salas da AMC à venda, é a altura de falar da tal crise que assombra o mundo do cinema...

Uma crise que não é nacional.
Desde há vários anos para cá que as salas de cinema estão a perder espectadores. Em Portugal, França ou Estados Unidos. O fenómeno é global e tem os seus motivos. É na cegueira dos estúdios norte-americanos - responsáveis pela maior distribuição mundial de produção cinematográfica - e na impotência da Europa ter a sua própria indústria, que encontramos a genese deste problema.
Nos Estados Unidos Hollywood vive dias dificeis. Depois da gravissima crise dos anos 70, os estúdios foram gradualmente recuperando as suas posições, vivendo dias de glória em meados dos anos 90. Eram os dias em que os filmes indies davam lucro e que as apostas dos grandes estúdios acabavam por compensar. A decada dos Schindler´s List, Forrest Gump, Bravehearth ou Titanic. Grandes produções que davam margem de manobra suficiente para os estúdios apostar noutro tipo de filmes que, ou tinha sucesso no box-office numa menor escala (Unforgiven, Pulp Fiction, L.A. Confidential), ou não tinha esse sucesso. Mas nesse caso o excedente dos outros projectos mantinha a cabeça dos estúdios bem acima da água. Enfim, eram esses os dias que Hollywood desejava viver hoje. Mas não vive!
Desde o histórico - e até à bem pouco tempo imbativel - estúdio da Disney à venda do mitico leão da MGM, Hollywood está desorientada. Não há uma politica concertada por parte dos estúdios de forma a ultrapassar a crise. Pior! Alguns recusam-se a acreditar na ideia de crise, lançando fiascos atrás de fiascos no mercado, à espera que um pegue e apague todos os erros do passado. Mas o jogo já não resulta bem assim!

Os três maiores problemas do cinema americano são faceis de descobrir, mas muito dificeis de curar.
É evidente para todos o claro problema de falta de ideias das majors norte-americanas. Os estúdios perderam a imaginação. Sucedem-se os remakes de sucesso antigos, as sequelas de sucessos actuais, a constante e veroz adaptação de livros, ao minimo sinal de sucesos nas bancas da mesma forma que há cinquenta anos se fazia com uma peça da Broadway. Guiões originais, filmes diferentes ao que estamos habituar a ver, já não se fazem. Ou melhor, fazem-se, mas não são ideias que partem de dentro para fora. Têm de ser recrutadas. E é isso que os estúdios têm feito, a peso de ouro.
E esse é o segundo grande problema. A divisão entre os indies e os majors está-se a desvanecer rapidamente. Sem ideias, sem um pingo de imaginação, os executivos dos estúdios passam cheques em branco aos autores independentes, ao primeiro sinal de sucesso. "Se a critica gostou daquele filme, - pensam eles - e o público até foi ver, pode ser que este argumentista me faça aí uma serie de sucessos. Vai custar-me uma fortuna mas vai acabar por compensar." Só que nunca compensa. Hoje os Tarantinos, Crowes, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Charlie Kauffman ou Alexander Payne são nomes únicos devido à sua imensa originalidade, capaz de atingir tanto a critica como o público. Mas são caros demais e estão a levar os estúdios à falência.
Vejamos! Para filmar uma história de um Payne ou de um Kauffman, em principio, pela sua natureza indie, o filme custaria entre 10 a 20 milhões. Demoraria três a quatro semanas a filmar, teria um orçamento restrito - e este tipo de filmes nem custama ultrapassar orçamentos - teria um ou outro nome de luxo no elenco (porque os actores sabem que têm de ir ao cinema de autor procurar a credibilidade, e aos filmes de estúdio, o dinheiro), e daria lucro no box-office. Porquê? Por ser um filme indie não teria gasto uma gigantesca verba em publicidade - já lá vamos. E depois porque teria uns 30 a 50 milhões de receitas nas bilheteiras. Um lucro total de 20 milhões, assim por alto. Mas isso são os filmes assumidamente indies, que desde os anos 80 têm sido uma verdadeira lufada de ar fresco no cinema norte-americano. Mas o que acontece com as grandes produções?
O mesmo filme - qualquer um - custaria a fazer, o dobro. Porquê? Porque os estúdios não indiferenciam as suas próprias produções. O orçamento desse filme seria aumentado no dobro, não teria um alto controlo de despesas - é nas produções das majors que se ultrapassa o orçamento...e muito - as filmagens em vez de durarem 4 semanas, estender-se-iam por meses, e as estrelas que dariam a cara, misturariam o autor com o estúdio, e iriam querer o dobro. Isto sem esquecer o já milionário contracto com o tal autor, e a enormidade de dinheiro que seria gasto em publicidade. O mesmo filme custaria agora 40 milhões, a que juntariamos cerca de 20 a 30 de publicidade. Com as mesmas reviews - ou, tendencialmente, piores - e o mesmo público, o hipotético lucro de 20 milhões passa a prejuizo. E as contas saem furadas.

Porque, como já se falou, nem são os contractos e os gastos da produção dos filmes que fazem deles buracos nos orçamentos dos estúdios. É o dinheiro que se gasta em publicidade que o tornam flops de bilheteira. Basta ver o caso de Cinderella Man por exemplo. Porque no caso anterior, sem a agressiva campanha de publicidade, o filme não daria lucro mas também não daria prejuizo. Viveria num limbo, que se arrastaria eternamente, mas não afundaria a indústria numa crise clara. Os milhões que a Dreamworks gastou na publicidade de The Island condenaram o filme á partida. O mesmo aconteceu com The Polar Express no ano passado. E como o mercado de dvd está cada vez a tornar-se uma ameaça aos filmes - não aos estúdios, porque são eles que os produzem e já estão contabiliizados nos lucros futuros de cada filme - e aos distribuidores, é preciso convencer o público de que vale a pena ir ao cinema. Mas por vezes essa campanha é um autêntico tiro no pé. É exactamente isso que está a acontecer. Convencer o público a voltar ás salas está-se a revelar demasiado despendioso.
Os estúdios fariam melhor em perceber as suas próprias limitações. Voltar ao exemplo dos anos dourados. Deixar os filmes de critica, de autor, para pequenas produtoras - ou subsidiárias como a Fox Searchlight ou a Warner Independent - capazes de promover sem problemas, e com lucro, o material indie, e manter a sua ideia de lucro. Apostar em projectos de sucesso à partido, aquilo que Anne Thompson resume a "sequelas, filmes que se valorizem e não se esgotem num só modelo". O que a jornalista do Hollywood Reporter quis dizer neste artigo, é simplesmente que a continuar assim e o sistema entra em colapso. É preciso acordar Hollywood, antes que sejam os credores a faze-lo.

Na Europa o cenário é o oposto. Se nos Estados Unidos vive-se a crise de ideias dos estúdios, na Europa vive-se a eterna crise da ausência de estúdios. Filmes financiados constantemente pelo Estado ou pela União Europeia, dirigidos para um público que está na minoria das minorias, é continuar a insistir num modelo falhado...há mais de cinquenta anos.
Quer seja o caso português, quer seja o exemplo da França, a crise é notória. Não tanto em ideias, mas sim na aplicação prática das mesmas. O cinema de autor europeu é uma imagem de marca desde os anos 60, e faz do cinema made in Europa especial, capaz de procurar novos caminhos dentro da gramática cinematográfica. Mas resumir a produção cinematográfica de um continente e a apenas isso é manifestamente pouco. Porque o público - e por muito que os intelectuais não o queiram aceitar - não será nunca o consumidor dessas obras. A própria Nouvelle Vague francesa teve de perceber isso da pior maneira. O público dos Oliveiras, Canijos, Godard, Chabrol ou Bergmans existe, mas em número extremamente reduzido. Nunca farão de um filme europeu um sucesso de bilheteira. Mas isso não invalida que estes filmes existam. Claro que não! Só que têm de ser - definitivamente e sem mais falsos pudores - enquadrados numa politica de mercado. Porque o cinema é arte, mas também é indústria. E a Europa teima em não perceber.
Por cada Oliveira deviam existir dois sucessos comerciais. A qualidade pode não ser a mesma - e atenção que eu não estou a pedir dois "Crimes do Padre Amaro" ou "Balas e Bolinhos", porque isso seria passar do 8 ao 80 sem sentido algum. Não, a questão não passa por aí. Passa por explorar a imaginação dos autores europeus para filmes de outra magnitude, capazes de criar identidas, de captivar os espectadores. Um continente com um passado histórico, uma cultura tão rica, e paisagens tão diversas e cinematográficas, não se pode reduzir a filmar planos de 10 minutos numa sala escura. Tem de trazer o cinema cá para fora, para as planicies de Espanha, os vales do Loire, os Alpes, a verdura das florestas e prados da Alemanha, as ilhas britânicas. Tem de fazer épicos históricos, dramas intensos, comédias com sentido - pedem-se, desesperadamente novos Goodbye Lenin!, La Vitta É Bella, Tudo Sobre Mi Madre...
Porque, mesmo que custe ao inicio, o que o público europeu precisa de saber é que há vida para além de Hollywood. E se os estúdios norte-americanos estão em crise, e enchem as salas portuguesas com produtos mediocres, é natural que hajam menos 2 milhões de espectadores. Tirando o espectador-pipoca de sábado á noite que, se o filme que quer ver está esgotado vai ver o mais absurdo que está na lista de disponiveis, sem problemas, já ninguém tem paciência para assistir aos sucessivos falhanços de Hollywood. Mas quando o cinema europeu está como está - e basta ver, não só os filmes, mas a própria campanha montada à sua volta (trailers, posters, entrevistas) - a vontade de os ver é igualmente minima. E assim as pessoas ficam em casa, e a tal crise teima em não desaparecer.
Um conselho: olhem para Alice. Filmado com recursos minimos, em pouqissimo tempo, com um grande elenco mas sem ser muito dispendioso, esteve em Cannes - onde conquistou a critica - e esteve em exibição largas semanas nas salas nacionais - onde conquistou o público. Aliou a qualidade do cinema de autor europeu, expresso num poderoso drama, que tanto podia ser candidato à Palma de Ouro como ao Óscar, com uma notável campanha de publicidade, extremamente eficaz, que soube levar as pessoas para as salas. Ao menos fossem todos os filmes como Alice! E mesmo que não fossem, bastava seguir o seu exemplo para já serem alguma coisa, num panorama tão mediocre como o que vivemos!
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 23, 2005 09:33 AM
Comentários
Há sempre muito mais a dizer sobre um assunto deste género. Mas acredito que estes 3 problemas são os centrais. Deles derivam muitos outros claros que tornam a questão mais complexo.
Fico à espera de ver esse artigo, há muito que o Take2 não tem um artigo apelativo!
Publicado por: Miguel Lourenço Pereira às novembro 24, 2005 12:11 AM
Boa análise, mas acho que a mais a dizer sobre o assunto. Vou tentar falar disso este fime e semana.
Publicado por: Léccio às novembro 24, 2005 12:02 AM