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novembro 09, 2005

Opinião - Ascenção e Queda da Nova Hollywood

Quando os grandes mestres morreram, abandonaram os sets ou simplesmente deram um tiro no próprio pé, a velha Hollywood ficou em estado de sitio. Não havia luz ao fundo do túnel que desse a volta a uma crise tão repentina, e, ao mesmo tempo, tão evidente. Foi então que surgiu um grupo de jovens, acabadinhos de sair da UCLA. Eles tinham mais do que um plano para ressuscitar a velha Hollywood. Eles queriam ser "A Nova Hollywood". E em dez anos pudemos assistir à sua ascenção...e à sua queda!
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Hoje são talvez os nomes mais amados pelos cinéfilos. Talvez porque muitos deles cresceram sob o seu signo, ouvindo as deixas de filmes como The Godfather, Star Wars ou The Deer Hunter. Ou talvez porque eles representaram um laivo de esperança de um renascimento dos estúdios não graças aos produtores, mas devido aos próprios autores. Era o espirito da United Artists que voltava das cinzas, sob a forma de meia dúzia de jovens autores, influenciados directamente pela Nouvelle Vague francesa, mas também por toda uma cultura cinéfila aprofundada ainda mais pelo trabalho desenvolvido na mitica UCLA, a universidade da Califórnia.
Estes jovens autores - é à Nouvelle Vague que eles vão recuperar o termo - não queriam lutar contra o sistema. Queriam recupera-lo. Depois de terem percebido que os grandes épicos e dramas tinham falhado por completo ao longo dos anos 60, foi para filmes mais pequenos, mais intimistas, mais sombrios, que eles próprios se viraram. Eram os dias de culto de Bonnie and Clyde, dos primeiros filmes de um Mike Nichols ou de um Sam Peckinpah. Cada um desses autores tinha o seu próprio estilo, bem diferente uns dos outros na maioria dos casos. Mas a forma como surgiram ao mesmo tempo, em bloco, e tendo por base uma mesma ideologia, desafiando tudo e todos no verdadeiro faroeste em que se tinha tornado Hollywood valeu-lhes de imediato a alcunha de Mavericks do cinema. E durante dez anos eles seriam isso mesmo, até serem absorvidos pelos estúdios ou abandonarem o sonho que inicialmente acalentavam.
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O popular livro "Easy Riders, Raggin Bulls" de Peter Biskind traça um retrato praticamente perfeito da evolução desta geração. Filhos dos anos 60 - não podia deixar de ser de outra forma - onde a droga, as novas correntes musicais e a liberdade sexual - a abolição em 1967 do Código Haynes foi fundamental para a sua afirmação - tinham lugar de estaque, a geração de 60 foi trabalhando em pequenos projectos no final da década até que um desses jovens destemidos autores, um tal de Dennis Hopper, decidiu dar um pontapé no establishment. Disso resultou directamente o polémico e aclamado Easy Rider. Um filme sobre motoqueiros californianos que vivem do asfalto, da droga, do sexo e do rock and roll, que era acima de tudo uma clara contestação a tudo o que tinha sido feito. No elenco, um nome insuspeito, Peter Fonda, filho do conservador e popular "Hank" Fonda, e um desconhecido - Jack Nicholson - que começava aqui uma carreira fabulosa. O filme foi contagiante - afinal, estavamos em 1969 - revolucionando por completo a forma como se olhava para estes jovens autores. E depois de um nome se ter afirmado, foi fácil a outros seguirem-lhe o exemplo. Rapidamente se começou a ouvir falar de Martin Scorsese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, George Lucas, Steven Spielberg ou Michael Cimino, entre tantos, tantos outros.
A década de 70 foi deles. Por todos os motivos e mais alguns. Pelo regresso de Hollywood ás ruas, aos dramas de rua, á crueza dos becos de Nova Iorque - pelas mãos de Scorsese ou Friedkin. A criação da ideia de blockbuster na mente de Spielberg e Lucas. Ou os devaneios artistico-dramáticos de Copolla ou Cimino.
Em 1971 todos os pequenos trabalhos desses realizadores começaram a ser ofuscados pelas suas primeiras obras aclamadas, tanto pela critica - desejosa de encontrar novos herois - quer pelo público, também ele à procura de filmes que lhe dissessem algo.
Nesse mesmo ano a "Nova Hollywood" foi oficialmente consagrada pela indústria quando William Friedkin se tornou no mais novo realizador de sempre a vencer um óscar. O seu filme, The French Connection, foi o grande vencedor do ano, e confirmou o que todos já pensavam. Estes autores tinham vindo para ficar. No ano seguinte foi a vez de The Godfather, a primeira parte da obra-prima em três capitulos de Francis Ford Copolla, ser galardoada. Ao todo, no espaço de dez anos, seriam quatro óscares de melhor filme para os jovens mavericks, nada mau para uma geração em ascensão. E enquanto uns ganhavam oscares, outros conquistavam a critica. Depois de Mean Streets, o excêntrico Martin Scorsese continuou a ganhar admiradores com filmes como Alice Doesn´t Live Here Anymore ou Taxi Driver. O jovem e ousado George Lucas tinha desafiado barreiras em 1971 com o seu THX 1138, e em 1973 voltava a impressionar com o fresco e irreverente American Graffitti, um filme pulp, icónico de uma geração sem causas, bem mais parecida com a sua própria do que Lucas realmente imaginava. Em meia década o panorama cinematográfico tinha-se transformado por completo.
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E enquanto os dramas foram recuperando a imagem de Hollywood, e fazendo a imagens dos "easy riders", um insuspeito Steven Spielberg deu a estocada final na afirmação da sua geração quando em 1974 lança Jaws. O realizador já tinha tido a sua dose de sucesso da critica com o seu filme de estreia, Duel, mas foi a invenção do ideal de blockbuster que culminou com o seu afastamento do grosso da sua geração - ainda virada para filmes mais obscuros e intimistas - mas que, curiosamente, acabaria por salvá-la a longa prazo. Com os blockbusters, os estúdios voltavam a ter liquidez financeira. Estavam agora prontos para retomar algumas das ideias mais ambiciosas destes realizadores. Depois de terem passado cinco anos a fazerem filmes que mais ninguém conseguia fazer, também os Copolla ou os Cimino decidiram fazer filmes que poucos imaginavam que podiam ser feitos. Sem o saberem, tinham aberto a caixa de Pandora, soltando um demónio que não iria conseguir controlar.
Copolla foi o primeiro a aventurar-se. Depois do sucesso dos dois primeiros Padrinhos e de The Conversation, a ideia de adaptar o negro romance de Joseph Conrad, Corações na Penumbra para o cinema levou uma gigantesca equipa de produção para o sudeste Asiático. Entre explosões, febres, ataques cardiacos a actores do set, muita drogra e sexo, e ainda a megalomania de Marlon Brando, recuperado em 1972 pelo próprio Copolla, lá se foi fazendo Apocalipse Now. O filme demorou dois anos, custou mais que os anteriores filmes do realizador juntos e estreou apressadamente em Cannes em 1979. O realizador queria o consenso da critica europeia e o filme lá venceu - em ex-aqueo com O Tambor, filme experimental alemão - a Palma de Ouro. Mas era sol de pouca dura. A Zoetrope, o sonho de Copolla em ter a sua própria produtora, emperrou no box office e nos óscares. Nada conseguia compensar os enormes gastos do filme. O fracasso de Apocalipse Now foi um prenúnico. Para Copolla seria One From the Heart, três anos depois, a dar a estocada final. Para a Nova Hollywood era o começar do fechar da porta.
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Foi no entanto Michael Cimino que ficaria com o titulo menos desejado por qualquer realizador, o de ter sido culpado pelo final da geração dos "easy riders". O realizador tinha tido um sucesso espantoso com The Deer Hunter, arriscando mostrar as marcas do Vietname, apenas três anos após o fim do conflito. Um filme patriótico, controverso, mas que "fez" o nome do autor que teve imediatamente carta branca da United Artists para fazer o filme que quisesse. Cimino escolheu um western épico sobre a própria fundação do Oeste americano, e da eterna luta entre os colonos e os rancheiros. O casting foi horrivel - Kris Kristoffersen ou Isabel Huppert estavam completamente descontextualizados. A produção arrastou-se durante dois anos, os prejuizos foram imensos. O filme inicial tinha três horas de duração e apesar da UA querer cortar, é Cimino quem exige que se respeite a liberdade artistica. Assim acontece. Passado uma semana, Heaven´s Gate é retirado dos cinemas pelo próprio Cimino, cortado a torto e a direito, regressa ás salas, mas o resultado é o mesmo. Heaven´s Gate será um dos maiores fiascos da história do cinema. Custou 44 milhões de dólares e fez apenas 3 milhões nas bilheteiras. Algo impensável e que era o verdadeiro dobrar de finados da Nova Hollywood. Tal como tinha acontecido com os grandes autores dos anos 50, caidos em desgraça na década de 60, os estúdios fecharam as portas aqueles que dez anos antes tinham ajudado a ressuscitar a indústria. Muitos tentaram fundar as suas próprias companhias, mas sem liquidez financeira e continuando em investir em projectos falhados à partida, as suas carreiras entraram num beco sem saída. Copolla teve de voltar a The Godfather para pagar as suas dividas. Desencantado, abandonou o cinema e dedicou-se á sua paixão pela cultura vinicola, abrindo as portas á sua filha para lhe seguir os passos. Martin Scorsese por sua vez teve de alternar os projectos que lhe eram verdadeiramente caros - os Taxi Drivers ou Ragging Bulls - com filmes menos interessantes, mas forçosamente necessários se queria continuar a ser uma opção para os estúdios. Cimino ou Friedkin - e tantos outros como eles - foram nomes riscados do mapa. Os anos 80 abriam as portas a novos realizadores, muitos deles ex-actores que tinham decidido tomar por sua própria conta e risco a direcção de novos projectos. Mas foram, acima de tudo, os anos da confirmação dos blockbusters. Mas isso é outra história!

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 9, 2005 05:16 PM

Comentários

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Publicado por: ringtones free às agosto 15, 2006 04:07 AM

Legal esse teu blog, hein? Muitas matérias interessantes... Vou vasculhar tudo!
Está de parabéns!

Publicado por: Marcelo Lima às novembro 10, 2005 03:58 PM

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