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novembro 02, 2005

Opinião - O Cinema em Mosaico

Porque é que as histórias têm de ser contadas numa linha linear num filme? Porque seguir uma personagem no principio, meio e fim do filme? Porque não olhar para uma questão, um episódio, por diferentes angulos? Porque não fazer "Cinema Mosaico"? A pergunta tinha pertinência, e a verdade é que, de há uns anos para cá a moda pegou. Que virtudes tem este novo estilo narrativo que tem conquistado tantos admiradores no universo cinematográfico?
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1994. A Academia de Hollywood achou por bem premiar a magnifica comédia de Robert Zemeckis, um tal de Forrest Gump. Mas meses antes, em Cannes, um filme tinha pasmado meio mundo. Era um tal de Pulp Fiction, o segundo filme de um realizador de seu nome Quentin Tarantino. O seu primeiro filme tinha conquistado Sundance. O segundo conquistava o mundo. E o que fazia Pulp Fiction tão diferente de todos os outros? O humor, a violência, os diálogos. Certamente! Mas a grande diferença foi a forma como a história estava montada. Não havia continuidade narrativa, e tinhamos diferentes personagens que seguiamos, longe de suspeitar (ou talvez não), que todas elas se acabariam por cruzar. E assim, de um momento para o outro, todos os jovens autores quiseram também eles quebrar convenções. E é fácil encontrar, no pós-Pulp Fiction nomes jovens ilustres com trabalhos que seguiam uma narrativa paralela, longe da ideia de narrativa continua que sempre pautara a criação cinematográfica!
Sempre? Não, a verdade é que Tarantino não inventou nada. Aliás o realizador é conhecido por homenagear e recilcar, não por inventar. Já nos anos 60 filmes como The Longest Day - essa homenagem grandiosa de Darryl F. Zanuck ao Dia D, com um elenco inesquecivel num dos maiores momentos do Século XX - ou então com The Outrage, filme em que Laurence Harvey, Paul Newman e Claire Bloom dão a sua visão sobre o mesmo acontecimento, mostrando-nos a mesma história três vezes. E também Ship of Fools, essa viagem de Stanley Kramer por um universo de insanidade com uma inesquecivel Vivien Leigh! E mais tarde, já na década de 70, há o incontornável Robert Altman, realizador de Short Cuts, Pret-a-Porter e tantos outros.
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O que é então o cinema mosaico?
Uma designação que pode ser contestada. No fundo o que distingue esta abordagem de outras é a forma como se conta a história. Este tipo de filmes acenta numa ideia. Essa ideia pode ser reduzida a um episódio, a uma personagem, a um momento. É essa a base em que o realizador - aqui intimamente ligado ao argumentista, e não é por acaso, que a esmagadora maioria dos filmes-mosaico são inspirados em argumentos originais - tem para trabalhar. Depois há quem criar um universo múltiplo, onde as personagens se cruzam, mas onde também procuram ter vida própria. Ao contrário dos "clássicos", onde há uma personagem central e várias personagens secundárias que nós só vemos, quando elas têm algo a dizer sobre a personagem principal, neste tipo de filme todos são secundários, todos são principais. Cada um tem a sua vida, cada personagem tem a sua profundidade dramática, a sua evolução espacial e temporal, e é a forma como se correlacionam, como se cruzam, como interagem que dá alma ao filme.
E depois há esses elementos de ligacação entre as personagens que nunca são pura obra do destino. Ou há algo que une todas as personagens, ou há um episódio que acaba por servir de elo unificador. E depois o final não é um final puro, como estamos acostumados. Por haver muitas histórias paralelas há sempre algo que fica em aberto. Porque estes filmes seguem essencialmente a ideia de que a própria vida é um livro aberto, em constante mutação e estranhamente inter-ligado. E ao explorar essa realidade, nos últimos anos, estes autores têm-nos dado filmes inesqueciveis.
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Vale a pena lembrar alguns. Cronologicamente, depois de Pulp Fiction há o inesquecivel Smoke, conjunto de histórias de um conjunto de personagens nova-iorquinas de Paul Auster e Wayne Wang, com um elenco inesquecivel, que começa em William Hurt e passa por Harvey Keitel ou Forrest Withaker em papeis inesqueciveis. Um filme humano que vai influenciar filmes futuros como Magnolia, esse magnifico filme-mosaico de Paul Thomas Anderson, ou o mais recente Crash, essa alegoria do racismo em Los Angeles do antigo escriba hoje também realizador, Paul Haggis. E também nos fomos habituando a jovens e irreverentes autores utilizarem esse mecanismo para explorarem os seus universos alternantivos. Lá encontramos Spike Jonze no seu Adaptation, onde o argumentista Charlie Kauffman se expõe por completo na pele do inesquecivel Nicholas Cage. Ou então o aclamado - mas altamente vazio - Elephant, onde seguindo personagens que, por obra do Destino (ou talvez não) se cruzam diariamente sem saber que a morte os espera calmamente. E quem enumera estes filmes - com medo de se esquecer de outros - lembra-se também da crueza de 21 Grams, de Full Fontral ou ainda de Traffic, ambos do sempre irreverente Soderbergh.
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A questão central que se coloca é se esta moda veio para ficar. Há alguns anos julgava-se que era apenas algo passageiro, ligado essencialmente a pequenos autores em busca de afirmação de uma forma original. De alguma forma tinham razão. Muitos dos filmes-mosaico foram uma das formas de jovens autores se afirmarem á sua maneira. Mas não foi um exclusivo de jovens autores. Cada vez mais, pelas multiplas abordagens que permite, e normalmente, pelo seu baixo custo de produção, este tipo de filmes surge como um produto apetecivel para alguns estúdios. Por ter uma imagem algo indie, longe dos filmes de grande produção, é dificil ainda ver um filme-mosaico atrair a uma grande fatia da audiència, mas a verdade é que, com o passar dos anos, os criticos e amantes do cinema vão-se rendendo a esta nova forma de fazer cinema. Resta saber se o mercado não vai acabar saturado com tantos filmes que deveriam ser alternativos a padronizarem-se num movimento cada vez mais mainstream, ou se o futuro vai apenas pautar-se pela afirmação e consolidação de um espaço próprio para aquilo que se convencionou chamar de "cinema mosaico".

Miguel Lourenço Pereira

Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 2, 2005 08:47 PM

Comentários

Brilhante artigo, Miguel!
Para mim, MAGNÓLIA é o exemplar-mor do "cinema mosaico".

Publicado por: Gustavo H. Razera às novembro 3, 2005 01:19 AM

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