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novembro 30, 2005
Opinião - O Que aconteceu ao cinema portuense?
O Porto foi a pátria do cinema em Portugal. Poucos sabem disso mas é verdade. Foi aqui que se fizeram as primeiras filmagens, onde houve os primeiros estúdios de cinema nacionais. E claro, Douro Faina Fluvial trouxe definitivamente a capital do Norte para o mapa. Hoje, o Porto é um oásis cinematográfico. Mas, porquê?

Hoje ir ver um filme ao Nun´Alvares é quase um ritual de despedida. Um dos mais antigos cinemas portuenses, o último cinema de bairro da Invicta, está ás portas da morte. Abandonado, sem público, com filmes que ninguém quer ver. Sessões canceladas, bilhetes guardados debaixo da caixa porque ninguém os quer levantar, suspiros de dor. E um adeus anunciado.
Mas um adeus que se repete, ano após ano. As miticas salas da cidade já não existem, senão na nossa própria imaginação. E na saudade, sempre na saudade de outros dias, outros tempos!
O Nun´Alvares era um sobrevivente. Vai deixar de o ser. Vai juntar-se aos outros, qual Valahla dos cinemas históricos, e descansar eternamente na nossa memória. Antes dele, já uma quinzena de cinemas tinham perecido. Uma luta inglória, desigual, e como todo o filme, trágica. Uma luta que ninguém pode ganhar, mas que todos acabarão por perder.
Do Águia D´Ouro ao Olimpia, do Vale Formoso ao Vitória. Até mesmo o Batalha e o Trindade já não existem. E que dizer de todos os outros, o Charlot, o Lumiere, o Julio Dinis, a Casa das Artes, o Foco, o Rivoli, até mesmo o Central Shopping. Foram desaparecendo com os anos, os mesmos locais de peregrinação dos mais devotos fieis dessa religião que é a 7º Arte. Foi nesses espaços que vi alguns dos filmes mais miticos da história. E nunca mais lá voltarei. Porquê?

A verdade é que o Porto, como cidade, é já um espaço fantasma. Rodeado de autênticas cidades dormitório (Gaia, Rio Tinto, Gondomar, Matosinhas, Maia, ...), os portuenses já não dormem no Porto. Já não vivem no Porto. Limitam-se a ir lá trabalhar, voltando depois para a sua rotina urbana nos suburbios. E e lá onde encontram os lares, mas também os grandes shoppings, os templos do século XXI. E é lá, no cume desses mesmos templos, como convém, que se encontram as salas de cinema, os complexos da Lusomundo, da AMC ou da Castello Lopes, onde os filmes se amontoam em cartaz. E lá podemos encontrar tudo, desde o pior filme em exibição, ao segundo pior, e daí por diante até conseguimos ver um ou outro filme que vale a pena. Os preços, ridiculos; o ambiente, impróprio para consumo. Mas que é que um cinéfilo pode fazer?
Nada. A desertificação da cidade levou à desertificação do espólio cultural do Porto. E o cinema, esse, ninguém lhe liga nenhuma. O Nun´Alvares vai fechar. E ninguém se importa. O Passos Manuel poderá ser o senhor que se segue. O único local que faz reposição regular de grandes clássicos numa verdadeira sala de cinema. Mas poderá não durar muito. E onde é que os portuenses vão poder rever Hitchcock, Ford ou Hawks? Mas a quem manda na cidade isso não lhe interessa. Não é coisa de dar votos, isso do cinema.
E então fecha-se. Até porque há os shoppings não é verdade? Nem o facto das salas Lusomundo serem miseráveis, e do AMC estar à venda parece servir de desculpa para pensar o cinema na cidade do Porto.
Aliás, haverá ainda cinema na Invicta?

Os mais atentos dirão que sim. O Cine-Teatro do Campo Alegre ainda consegue escapar à rotina e exibir algumas pérolas cinematográficas que não encontramos em lado nenhum. O mesmo se passa com o Passos Manuel, que ainda vai vivendo, a custo. Mas já os cinemas do Cidade do Porto vivem de um preço proibitivo e de uma fraca oferta de filmes. De vez em quando algumas faculdades fazem uns pequenos ciclos, mas isso é mais cinéfilia que cinema. Ou seja, as condições são demasiado fracas para criar um ambiente de cinema, apesar do espirito pairar por lá!
Continuamos sem perceber muito bem a politica cultural do Porto. As pessoas vão-se embora e o que é o cinema sem as pessoas! Mas, o cinema também pode puxar pelas pessoas e não o contrário. Há muito que à cidade do Porto - que até foi, não sei se se lembram, capital europeia da cultura há quatro anos atrás - lhe é devida uma politica cultural.
Uma Cinemateca portuense é algo que os portuenses pedem e merecem há muito tempo. Um local onde os grandes filmes possam coabitar com a oferta habitual da indústria. Um ponto de encontro de pessoas, ideias. Um local de descoberta, de ensino, de verdadeira cultura. Não vi nenhum politico falar disso na campanha. Não vejo ninguem falar desse monopólio que a Cinemateca de Lisboa tem sobre todo o país. De vez em quando dá um brinde e todos ficam contentes. Contentam-se com pouco!
Não estamos a falar de projectos para darem lucro. Estamos a falar de uma identidade cultural de uma cidade que se devia orgulhar das suas raizes na história do cinema português, mas que teima em desviar o olhar e assobiar para o alto.
O Nun´Alvares vai fechar! E ninguém se parece importar muito! O Nun´Alvares vai fechar! E, nós, para onde vamos agora?
Miguel Lourenço Pereira
Publicado por Miguel Lourenço Pereira às novembro 30, 2005 11:21 PM
Comentários
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Publicado por: funny ringtones às setembro 4, 2006 08:54 AM
Devo dizer-lhe, que a leitura do seu texto, provocou-me um sentimento misto de alegria e tristeza. Tristeza porque partilho em absoluto a opinião expressa e ao lê-la senti que alguém tinha transcrito as ideias que me têm passado pela mente nos últimos dias (soube há dias que o Nun'Alvares fechou - os dois últimos filmes que lá vi foram "O Delfim" e "Fahrenheit 9/11") precisamente o fecho das salas emblemáticas, a ausência de cinema de qualidade, o direito a uma cinemateca, tal como em Lisboa, que ainda durante o mês de Janeiro passou filmes que eu desejava ter a oportunidade de ver pela primeira vez; obras que queria conhecer; deêm-nos a oportunidade... . Alegria por saber que há mais quem partilhe estes sentimentos, que afinal não estamos sozinhos (apenas dispersos) pois perante tanta indiferença, perante análise ao sucesso de bilheteira de cada filme (parece que as pessoas só escolhem ver aquilo que nao é sequer cinema) a duração em cena de cada um (os maus ficam mais tempo) o ambiente indescritível dentro das salas em algumas sessões, etc...perante tanta indiferença, às vezes pensamos que realmente ninguém quer saber... que ninguém se importa com os parâmetros de qualidade...e fica-se com medo de ser arrastado na avalanche do embrutecimento geral. Ou do isolamento. Mas é entao que se leêm desabafos como o seu, e descobrimos que afinal nao somos tolos, há mais quem se interesse! Quem se interesse! Pena que quem tem o dever de proporcionar "Cultura" faça precisamente como referiu - assobiar para o alto!
Obrigado!
Publicado por: Aires Dias às fevereiro 6, 2006 05:11 PM
É um apena caro amigo, apesar de não conhecer o porto cidade é lamentavél que uma cidade que se pode bem orgulhar por ter tido e ainda tem iniciativas culturais deixar ir abaixo, como lisboa diga-se de passagem e muitas outras, se calhar um ex-libris e o mais triste é ter sido a capital da cultura e parece que isso não passou de simplesmente de um acto politico.
uma cinemateca é que era preciso, concordo contigo.
O meu abraço de amizade.
paulo
Publicado por: paulo às dezembro 1, 2005 12:04 AM